Review 2016: #13 – Uncaged

Uma perda total cinematográfica. E de reputação dos lobisomens. E de tempo. E de vida…


Pelo Brasil afora, o povo costuma dizer que fulano deve ter “tacado pedra na cruz” para designar aqueles que sofrem os mais diversos infortúnios sem razão aparente, como se um erro do passado distante pudesse justificar as adversidades do presente. Se tal expressão for real, este humilde crítico que vos escreve definitivamente foi um dos que mais apedrejou a cruz de Cristo.

Só assim para justificar filmes tão ruins quanto Lake Eerie, Martyrs e Uncaged estarem cruzando meu caminho. Curiosamente, ao meu lado, arremessando ainda mais pedras e outros objetos, estava um lobisomem representando o seu próprio subgênero cinematográfico. Essa é a única explicação possível para a quantidade imensa de filmes horrendos com licantropos, especialmente em comparação ao número quase irrisório de produções decentes.

Essa breve introdução dramática serve de prenúncio do nível de qualidade do filme da vez, Uncaged, produção norte-americana dirigida por Daniel Robbins, que também dá seus pitacos no texto de Mark Rapaport, ambas jovens promessas pessoas. O elenco ainda é composto em quase sua totalidade por atores iniciantes e absolutamente desconhecidos por todos, quiçá até por seus próprios amigos e familiares. Até aí tudo bem, todos precisam começar de algum lugar, certo?

Em Uncaged, um rapaz cuja família é um verdadeiro mistério, descobre-se um sonâmbulo de marca maior. Suas escapadas noturnas enquanto dorme terminam com ele acordando nu e no meio do nada. Para tentar entender o que se passa, o jovem decide dormir com uma câmera GOPRO amarrada na cabeça. Na manhã seguinte, assistindo o vídeo, ele descobre não ser apenas um sonâmbulo, mas um lobisomem. E ele deixou um rastro de sangue.

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Lobisomem ou lumbersexual?

Paralelamente, sub tramas envolvendo seus parentes e amigos vão construindo a história sobre a família do rapaz, que aparentemente já tinha a licantropia correndo no sangue por algum tempo, levando até um conflito sem sentido e largando pontas soltas por todo lado.

Com um orçamento quase nulo e uma equipe juvenil, as limitações técnicas são previsíveis e notáveis. Definitivamente não cabe destrinchar o filme por ter sido feito sem recursos, o que também não é uma desculpa para se fazer porcaria. Existe uma certa função da mente humana chamada CRIATIVIDADE que existe exatamente para solucionar esse tipo de problemas, mas que definitivamente não foi aplicada aqui.

Ah, até que um pouco de criatividade se fez presente na tentativa de burlar algumas dificuldades narrativas. Em várias ocasiões, cenas desenhadas em formato de quadrinhos, contaram histórias e “ajudaram” na transição de cenas. Também vale lembrar também que um roteiro de qualidade e diálogos bem trabalhados podem ser feitos simplesmente com papel e caneta, ou ao menos quando existe potencial para tal e Uncaged não tem potencial algum.

O enredo sobre um jovem que se descobre um lobisomem é extremamente batido e pouco interessante. O ator inexperiente e a falta de recursos só fazem piorar a situação. Mas o grande problema é a incapacidade de contar uma história com o mínimo de coerência. A trama principal se perde repetidamente por causa da inclusão de outros núcleos de personagens que em nada acrescentam ao filme. É como se a concepção de desenvolvimento de personagem e tramas paralelas fosse simplesmente enfiar personagens avulsos na trama para entregar algumas frases sem sentido.

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Onde enterrei meu osso?

O resultado é uma trama cheia de pontas soltas, inconsistências e buracos no roteiro. Por três ou quatro vezes, um personagem lobisomem acordou nu e no meio do nada, apesar de que em todas as (raras) aparições dos mesmos, estes estão completamente vestidos, afinal de contas o orçamento não permite uma maquiagem lupina de corpo inteiro. A decisão de manter as cenas com os personagens nus são parte de uma tentativa frustrada de fazer humor.

O filme tenta trabalhar com um tom de comédia no estilo Superbad, com personagens adolescentes estereotipados e idióticos, mas é absolutamente vergonhoso. Os diálogos são uma verdadeira desgraça! Há um personagem específico que é responsável por entregar as linhas humorísticas, com piadas de conotação sexual e referências pop, mas as falas são tão absurdamente bestas e simplórias, que provavelmente foram escritas por um chimpanzé digitando com uma banana. E para piorar, o filme ainda tenta balancear esse humor fraquíssimo com momentos dramáticos, resultando em algo ainda mais vergonhoso. É como se o roteirista nunca tivesse lido um livro ou roteiro na vida. Se fazer comédia fosse uma tarefa fácil, não seria um gênero tão sofrido na atualidade.

A cada vez que um personagem abre a boca nesse filme, um roteirista e um comediante morrem de desgosto em algum lugar do mundo! A imperícia técnica acaba por ressaltar ainda mais a pobreza de um roteiro confuso, já que não existe qualquer alteração entre as cenas dramáticas e de humor, nem de atuação, iluminação ou qualquer parte da linguagem cinematográfica. Mas, já dizia o ditado, nada é tão ruim que não possa piorar! Quase não há ação e os lobisomens aparecem em pouquíssimas cenas, sempre ocultos pela escuridão e em tomadas curtas. O resultado é que o filme além de mal escrito, é arrastado,  sofrível e lobisomem que é bom mesmo, nada! PUTA QUEO PARIU!

Uncaged é um caso de perda total cinematográfica. Nada se salva, nem para a reciclagem. A não ser que você esteja disposto a aturar uma hora e meia de diálogos como este:

Amigo:

Se você quiser continuar dormindo lá fora, só me avisa, tudo bem?

*Amigo Lobisomem faz sinal positivo com a cabeça*

*Amigo coloca a mão no ombro do Amigo Lobisomem*

Amigo:

Você parece bem fodido. – *acaricia o ombro* – Mas você está bem macio. Tem usado algum hidratante?

0.5 lobisomens de roupa para Uncaged

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I suposed to be a teenage werewolf…


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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