Review 2016: #16 – Marcas da Possessão

As possessões demoníacas nunca tiveram tanto estilo!


 

Paradigma:

substantivo masculino

1.

um exemplo que serve como modelo; padrão.

O cinema de terror, assim como o cinema em geral, é um lugar de paradigmas, frequentemente associados à subgêneros. Exemplo: o paradigma dos filmes de exorcismo/possessão foi determinado por O Exorcista, lá em 1973. Ou seja, este filme é uma referência, um modelo de como fazer um filme que envolva esses temas.

Contorcionismos, vozes múltiplas, comportamento agressivo e desviante, são características do possuído, por exemplo. Filmes que seguem esse paradigma frequentemente mostram o início da possessão, a degradação da pessoa e finalmente um exorcismo bem dramático com muitos gritos, muita reza brava e objetos voando enquanto o possuído se debate freneticamente. Normalmente estes elementos são entendidos como regras do gênero ou como a única retratação possível, sendo que estas são apenas algumas características comuns e popularmente aceitas sobre como lidar com o tema no cinema, ou seja, são apenas um paradigma.

Essa breve introdução é necessária pois é por meio deste paradigma ou, melhor dizendo, na quebra deste paradigma, que Marcas da Possessão ganha força e se estabelece como um dos filmes de terror mais interessantes de 2016.

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Possuídos Anônimos!

Marcas da Possessão começa onde a maioria dos filmes de exorcismo/possessão terminam, com a protagonista sendo exorcizada. Ava é uma produtora musical que tem a vida arruinada após passar quase um mês possuída por um demônio. Por conta de seu comportamento agressivo e perigoso durante esse período, ela está prestes a ser processada e corre risco de ser presa ou institucionalizada. Para evitar um destino tão trágico, Ava encontra uma terceira opção, participar do SPA (Spiritual Possession Anonynimous), uma espécie de Alcoólicos Anônimos para pessoas que já foram possuídas. Enquanto tenta reconstruir sua vida, Ava descobre que o demônio causou mais problemas do que ela poderia prever.

A própria trama do longa já é um forte indicativo do tom de paródia. O filme é sem dúvidas uma desvirtuação do paradigma, fazendo piada do próprio gênero, ora de forma sutil, ora de forma descarada, sempre com bastante criatividade. O humor nunca é escrachado, mas sempre construído nos diálogos e metáforas. Apesar de se sustentar facilmente no campo da paródia, Marcas da Possessão também funciona perfeitamente como uma metáfora sobre alcoolismo e vício em drogas.

A personagem principal passa por um período “complicado” em que apresenta um comportamento muito diferente e assim acaba perdendo o namorado, sendo afastada do emprego e se distanciando dos amigos, precisando de uma intervenção familiar e depois uma reabilitação, para tentar evitar possíveis recaídas. Quando explicado desta forma, o filme realmente se aproxima muito da ideia de vício e reabilitação e é exatamente esse sentido duplo que lhe dá um ar tão especial.

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Chapéuzinhos negros

A protagonista do filme, Ava, é interpretada por Louisa Krause, atriz até experiente, apesar de não ter mais de trinta anos. Ela consegue carregar o filme com exímia facilidade, criando uma personagem interessante e fácil de se torcer por. O demônio que existe em seu âmago, Nephula, é sem dúvidas outro ponto interessante do filme. Com aparições bem curtinhas, a entidade maligna do trigésimo sexto círculo do inferno tem um design bem interessante, uma espécie de criatura vampiresca com feições felinas, patas de bode e outras características animalescas, bem diferente do tradicional.

Desde a cena de abertura em primeira pessoa já é possível notar a relevância da estética dentro do filme. Nos últimos anos, uma das tendências mais marcantes e agradáveis do cinema de gênero é um retorno à estética de néon e luzes coloridas que ficou tão famosa nos anos 70 e 80, através de filmes como Suspiria. O uso de luzes fortes e muito coloridas dão um aspecto fantástico e surreal ao filme, o que é simplesmente perfeito para a temática. A trilha sonora, composta principalmente por música de sintetizadores, complementa esse estilão oitentista que está tão em voga.

Dispensa dizer que este não é um filme perfeito (tal posto já está ocupado por A Bruxa, em 2016). O terceiro do ato do filme toma certas decisões um pouco confusas e pouco condizentes com o que o filme havia apresentado até então. Apesar disso, o resultado final ainda é um filme divertidíssimo e estiloso!

3.5 possessões para Marcas da Possessão

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A despossuída!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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