Review 2016: #17 – Rua Cloverfield 10

Esqueça o found footage catástrofe de monstro de 2008! Mas saiba que você  (eu, e todo mundo) está sendo enganado.


No dia 15 de janeiro deste ano a Internet entrou em rebuliço quando do mais completo nada surgiu o trailer de um tal Rua Cloverfield 10, exibido junto das cópias de 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi de Michael Bay, e todo mundo ficou se perguntando: o que diabos era esse filme?

J.J. Abrams, o homem por trás do sensacional Cloverfield – Monstro, found footage dirigido por Matt Reeves e lançado em 2007 – que também foi filmado às escondidas, lançado num esquema super secreto, revelando pouquíssimas coisas até não poder segurar mais, sem ninguém saber muito do que se tratava e lotado de virais na Internet – disse em entrevista, confirmando o projeto, que se tratava de “um parente de sangue de Cloverfield”, mas sem dar detalhes se tratava de um spin off, uma continuação, derivado, etc.

Agora que Rua Cloverfield 10 finalmente chega aos cinemas dos Brasil, quase um mês de diferença de seu lançamento nos EUA, afirmo que o filme na verdade é uma das maiores enganações dos últimos tempos, e que, como ficou claro desde o começo, a palavra Cloverfield e essa ideia de “antologia” está lá apenas como pura e simples jogada de marketing para garantir um pouco mais de grana aos bolsos dos realizadores e estúdio, uma vez que geral não iria ao cinema assistir um thriller independente chamado de “O Porão” e que não tivesse o nome do diretor do último Star Wars nos créditos.

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Jantar no bunker

Nessa altura do campeonato todo mundo já foi mais que avisado para esquecer Cloverfield, e principalmente o MONSTRO que ele ganhou de subtítulo spoiler aqui no Brasil, mas que convenhamos, apesar dos ares de novidade do found footage naqueles tempos, e o drama de sobrevivência de pessoas comuns numa situação catastrófica, era o grande motivo da produção ser tão fodástica: uma criatura gigantesca, um tipo de kaiju, destruindo Nova York e arremessando longe a cabeça da Estátua da Liberdade.

Rua Cloverfield 10 não tem nada disso, não se passa nem na mesma timeline, no mesmo local (agora é no Texas), não tem nenhum vestígio do filme de 2008, exceto certa forçada de barra no seu terceiro ato para pelo menos justificar de uma forma mínima a “apropriação” do título (que se mostra de forma clara como um ato remendado, sem a menor ligação com todo o resto da trama), e lembrou muito aquelas salafrárias continuações de Hellrasier, onde um roteiro completamente X era pego pelos produtores e entubado Pinhead e sua mitologia só para manter a franquia viva (e seus direitos na casa) e tentar enganar os fãs.

Afinal, foi bem isso que aconteceu com Rua Cloverfield 10. O longa do estreante Dan Tratchnberg originalmente possuía o título “The Cellar”, ou “O Porão” – até está lá no IMDb para quem quiser consultar – e fora até realizadas algumas exibições teste que não tinha absolutamente nada a ver com o cult sci-fi de monstro da fita encontrada.

Nisso a gente entra na grande cagada do filme, que no final das contas é um bom suspense, um thriller psicológico honesto sobre uma garota (Michelle – papel de Mary Elizabeth Winstead) que sofre um acidente de carro, é raptada resgatada e mantida refém num bunker construído por um lunático paranoico e cheio das teorias conspiratórias, interpretado por um ótimo John Goodman – de adorável a psicopata em um piscar de olhos –, que a proíbe de sair para o exterior, assim como outro residente do local, Emmett (John Gallager Jr.) alegando que o mundo lá fora foi completamente destruído e o ar está contaminado, incapaz de respirarmos. Como, quando e por que, nunca é revelado, nem se realmente o personagem de Goodman está dizendo a verdade, e isso é uma das boas sacadas e mantenedoras da tensão e claustrofobia, diferente do cinema convencional didático que entrega tudo de bandeja ao público e que estamos acostumados a ver por aí.

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Será que tem algum monstro lá fora?

Caso Abrams e sua Bad Robot não tivessem de alguma forma entrado no meio de “O Porão”, assistiríamos um filme correto, que tem lá seus momentos na construção de personagens e na escalada de suspense, mas daqueles que você bem esqueceria no dia seguinte e nem se lembraria na hora de indicar um thriller para seus amigos assistirem. E fato que ninguém daria metade da bola, buzz ou interesse que o filme recebeu.

Mas o fato de agora ser considerado parte de uma suposta “antologia” Cloverfield e carregar consigo o peso de uma possível “franquia” e qualquer que seja a referência com aquele sensacional e intenso filme de monstro de 2008, transformou a experiência não só em um embuste, como em uma decepção, ainda mais com aquele final desconexo apenas com o intuito de contemporizar para os ávidos por alguma aparição monstruosa que de alguma forma remetesse ao original. Foi tipo o Ridley Scott ter metido um xenomorfo no final de Prometeus, só para cumprir tabela.

Na real, para mim a comparação é fácil é com Halloween III – A Noite das Bruxas. John Carpenter, assim como o “visionário” J.J. Abrams queria construir uma antologia sobre Dia das Bruxas, independente da presença de Michael Myers, e entregou uma fita com uma trama completamente diferente, sem o assassino mascarado e nenhuma ligação com o mesmo, que é até um filme OK, mas que provavelmente seria muito melhor recebido por público e crítica se não tivesse o nome da franquia no meio, pois acabou sendo visto apenas como uma jogada de marketing para tirar dinheiro do bolso dos fãs.

Rua Cloverfield 10 padece do mesmo mal, e acaba nem funcionando totalmente como suspense claustrofóbico pós-apocalíptico, e muito menos como continuação/ parente de sangue de um dos melhores filmes de monstro do século!

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Cantinho da disciplina


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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