Review 2016: #19 – Hush – A Morte Ouve

Prepare a pipoca, faça log-in no Netflix e divirta-se assistindo a esse thriller


De quantas formas será que é possível invadir uma casa? Ou melhor ainda, de quantas formas é possível representar cinematograficamente a invasão de uma casa? Em Hush – A Morte Ouve, o diretor norte-americano Mike Flanagan se propõe a mostrar que ainda existem formas diferentes de fazê-lo.

Flanagan faz parte de uma nova leva de diretores de horror que tem se destacado filme após filme, com uma melhora notável em todos os aspectos de seu trabalho. Apesar de já experiente por trás das câmeras, ele alcançou certa notoriedade com o filme independente e de baixíssimo orçamento Absentia (2011), que abriu portas para que ele viesse a dirigir a versão em longa-metragem de seu curta O Espelho (2013), que chegou a ser lançado aqui no Brasil.

Foi neste último, inclusive, que Mike fez sua primeira parceria com Kate Siegel, que veio a se tornar a coroteirista e protagonista do presente longa. Prova do sucesso que Flanagan tem construído para si mesmo foi a compra de Hush pela Netflix, que o distribuiu em todos os países onde presta serviço, no último dia 08 de abril, com ótima recepção de crítica e público.

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You used to call me on my cell phone

A premissa do filme é de uma simplicidade óbvia: Maddie (Kate Siegel) é uma romancista surda-muda que vive em uma cabana isolada. Como o cinema norte-americano já nos ensinou incontáveis vezes, tal cenário é o mais propenso à tragédia que se pode imaginar. A paz na vida de Maddie não tarda a terminar quando um homem mascarado aparece a sua porta. A introdução sanguinária e violenta ao tal sujeito mascarado já revela seu intuito para com a escritora.

Em certa medida, Hush foi previsto pelo filme O Segredo da Cabana (2012). No sorteio do mal, a escritora saiu com “Assassino Mascarado”. Em uma análise fria, não há nada neste filme que o torne tão interessante, mas o simples fato da protagonista ser surda abriu uma série de possibilidades cinematográficas interessantes.

Sem adentrar no campo dos spoilers, é possível dizer logo de cara que o assassino não tem pressa nenhuma em alcançar seu objetivo, caso contrário, o filme seria um curta-metragem. No melhor estilo predador, ele observa e exerce domínio sobre aquela que considera uma vítima fácil. Porém, Maddie está longe de ser uma vítima. Sem nunca recorrer ao coitadismo, a personagem é construída como alguém segura de si e extremamente engenhosa, com uma mente aguçada.

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Quando o chefe aparece atrás e você está no Facebook

Hush dá um primeiro twist em cima dessa ideia de uma protagonista aparentemente mais frágil, apenas para provocar uma nova reviravolta e coloca-la como ainda mais capaz que uma pessoa sem qualquer deficiência. A questão do som é trabalhada ao longo do filme de formas bem interessantes, mas não é o único aspecto da personagem que é explorado. As cenas mais tensas e interessantes de Hush ficam por conta desse elemento.

O assassino em si lembra imensamente os criminosos com máscaras animalescas do filme Você é o Próximo (2013), não apenas pela máscara branca, mas também pelo uso de uma besta como arma. Lunáticos mascarados são mais velhos que andar para frente, mas este continua sendo um tema interessante nos filmes de terror. A máscara destitui o criminoso de suas feições e, por consequência, o torna menos humano. Há quem discorde, mas um criminoso inumano tende a ser mais ameaçador e perigoso exatamente por não revelar nada de si mesmo, ao passo que um assassino com o rosto a mostra é um sujeito exposto, aparentemente mais passível de cometer erros. Hush faz uma escolha ainda bem cedo no filme com relação ao uso da máscara que, apesar de bem justificada, não foi tão interessante quanto poderia.

Ainda que um inventivo e bem amarrado, Hush tem uma série de limitações referentes ao próprio subgênero que já foi tão trabalhado. Existe uma certa previsibilidade com relação ao desfecho e Flanagan optou por um caminho bem seguro, não correndo riscos desnecessários. O foco era apenas em criar um filme fechado e efetivo, sem se preocupar em ser um ponto de virada para o subgênero, algo bem semelhante ao que James Wan faz com seus filmes sobrenaturais.

Hush – A Morte Ouve é uma ótima pedida para quem dispõe de um Netflix, seja para assistir sozinho ou em companhia.

3.5 sinais de libras para Hush – A Morte Ouve

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Não adianta tocar a campainha


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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