Review 2016: #21 – Diário de Um Exorcista – Zero

O cinema de horror nacional finalmente adentra no tema, que apesar de ser muito explorado lá fora, é uma novidade em terras brazilis


Mesmo sendo um país extremamente religioso, o Brasil – com seus milhões de fiéis católicos espalhados do Oiapoque ao Chuí – até então não tinha seu legítimo longa sobre exorcismo em sua filmoteca, daqueles que segue o padrão popularizado por O Exorcista, de William Friedkin.

Agora, depois de longos quatro anos desde que a ideia surgiu na cabeça do diretor paulistano Renato Siqueira, e três da publicação do livro homônimo escrito por Luciano Milici, com o lançamento do aguardado Diário de Um Exorcista – Zero, espécie de prequela para uma trilogia que vem por aí, finalmente habemus nosso exemplar do subgênero, descontado aí Exorcismo Negro de José Mojica Marins.

Toda e qualquer produção nacional merece ser vista por um prisma diferente, por, na maioria das vezes, ser completamente independente, com parco investimento, falta de interesse em financiamento e aprovação das leis de incentivo, e a enorme dificuldade e bravura dos cineastas em ir na contramão do dramas novelescos, favela movies e das comédias de gosto duvidoso produzidas em nosso país e que levam multidões aos multiplex.

Ainda assim, marginal como só ele, o horror nacional vive seu melhor momento, passando por uma espécie de “cinema de retomada”, e Diário de Um Exorcista – Zero é mais um para engrossar esse caldo de boas surpresas, dentro de suas próprias limitações.

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De virar os zóio

A princípio, ele padece do mesmo problema que absolutamente TODOS os filmes sobre o tema, incluindo os longas hollywoodianos, de se apegar aos chavões, clichês e fórmulas prosaicas, e com isso eu quero dizer tanto os efeitos da possessão em suas vítimas, passando pelos olhos negros sem pupilas, voz gutural, insinuações sexuais, blasfêmias e alta flexibilidade de corpos com suas espinhas retorcidas, até a panfletagem extremamente carola e maniqueísmo de praxe.

Mas é com louvor que vemos a ousadia em um longa nacional abordar o tema, com seu certo ar de crendice e religiosidade interiorana – terreno bastante fértil para o tema – e investir boa parte de seu orçamento em efeitos especiais que são verdadeiramente convincentes e até assustadores para os mais incautos. Logo em sua primeira cena, por exemplo, toda atmosférica e envolvente, vemos uma garota possuída andando toda torta, ao melhor estilo Regan McNeil na escadaria, que não deixa nada a dever para as produções gringas.

A história, baseada em fatos reais e escrita a quatro mãos por Siqueira e Milici, acompanha a vida do Pe. Lucas Vidal, um dos mais conhecidos e eficazes exorcistas da América Latina, que passa a contar seus causos em entrevista para uma dupla de cineastas interessada em fazer um filme sobre o tema. Desde sua infância, em Santa Bárbara das Graças, que foi tomada por uma tragédia familiar, envolvendo as forças das trevas, e serviu como uma espécie de despertar da fé para o jovem Lucas, que resolve entrar no seminário e tornar-se um padre.

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Escola Regan McNeill de descer escadas!

Já adulto, interpretado pelo próprio Siqueira, que também dirige e produz o filme, ele torna-se pupilo da controversa dupla de padres exorcistas, Thomas e Pedro Biaggio, e descobre que na verdade está fadado a combater, munido de crucifixo e estola, os demônios que o rodeia, em uma batalha contra essas abominações profanas que crescem em número e poder a cada dia, que usarão de todas as artimanhas possíveis, incluindo laços familiares, para tentar desestabilizar o jovem sacerdote.

Algumas cenas em específico impressionam bastante, como a sequência em que o Pe. Lucas precisa exorcizar sua própria irmã, Paula, interpretada por Cibelle Martin, num típico ritual romano, onde os efeitos especiais, sonoros e maquiagem são bastante críveis e de alto nível. O ponto fraco, além da história batida por excelência e o caminhão de clichês que a cartilha do subgênero manda, é a estética amadora, típica de algumas produções nacionais independentes de baixo orçamento, apesar de toda louvável tentativa de esmero da parte dos idealizadores, e o grosso da atuação e dramaturgia do elenco, onde ambos dão aquele gosto ruim de produção feita para a TV aberta.

Mas Diário de Um Exorcista – Zero, que já está disponível em DVD e VOD, com distribuição da Europa Filmes, vale pela experiência de ver o cinema de horror nacional adentrar no tema, que apesar de ser muito explorado lá fora, é uma novidade em terras brazilis, e como um aperitivo que aguça a curiosidade com relação a trilogia que está por vir, composta por Diário de Um Exorcista – A Gênese do Mal (em produção), Diário de Um Exorcista – Possuídos e Diário de Um Exorcista – Apocalipse, com maior orçamento, recursos e a promessa de efeitos especiais de última geração.

3 exorcismos brasileiros para Diário de Um Exorcista – Zero

Originalmente publicado no Boca do Inferno
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Vá de retro!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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