Review 2016: #27 – O Caseiro

Mais um movimento do crescente fluxo de filmes de terror brasileiros


Falar de cinema de horror no Brasil está finalmente deixando de ser saudosismo ou devaneio, para ser tornar uma realidade. Há alguns meses compareci a uma mostra de curtas de terror feitos por belorizontinos, evento inédito na cidade. Foi também aqui em BH que prestigiei a pré-estreia do longa O Caseiro, com sala lotada. A sensação é de alívio e animação. Habemus Horror!

O Caseiro é o segundo longa-metragem de Julio Santi, cineasta paulista com formação acadêmica oriunda da literatura, fato este transposto de certa forma para o personagem principal, um professor universitário com um livro recém lançado. Apesar da carreira recente no mundo do cinema, Julio conseguiu um feito notável: uma distribuição em grande escala nacional, passando por mais de 34 cidades em 17 estados. Números ainda pequenos, mas significativos para uma produção de gênero que comumente se vê apenas em festivais.

O filme tem início com um breve prólogo, que introduz a figura do caseiro que dá nome ao filme, homem conturbado que se mata na presença de um rapazote insuspeito. Um salto de algumas boas décadas transporta a trama para a atualidade, diretamente na aula de Psicologia do Sobrenatural do professor Davi (Bruno Garcia) – aula que não tive no curso de psicologia, diga-se de passagem.

Em sua classe, Davi introduz o mote sobrenatural ao contar o caso de um menino que dizia conversar com o pai desaparecido, que ninguém sabia dizer se estava vivo ou morto e que serviu de inspiração para seu livro, cujo título dá nome a aula. Uma garota se destaca ao trazer para o debate a ideia de projeção, segundo a qual um evento que, impossível de ser recalcado, se manifesta na mente do sujeito de formas diferentes, no caso em questão, a angústia do garoto pelo desaparecimento do pai fez com que este projetasse um amigo imaginário/fantasma. Esse diálogo psicologia-sobrenatural se faz presente por todo o filme, em maior ou menor grau.

Após a aula, a estudante se apresenta como Renata, (interpretada pela talentosa Malu Rodrigues). Renata conta ao professor o caso que tem afligido sua família: já há algum tempo, sua irmã caçula Julia tem sido vítima de uma força misteriosa inexplicável, que causa desde simples medo até ferimentos pelo corpo da garota. Davi toma interesse pelo caso e resolve viajar até a fazenda da família para conhecer mais de perto os envolvidos. A forma como o caso se estabelece é bem tradicional, semelhante até a filmes como Invocação do Mal ou O Sexto Sentido, referência mais óbvia. O professor se mostra cético, mas, interessado no possível viés acadêmico do caso, resolve dar uma chance ao destino.

Fogo na baiblônia

Fogo na baiblônia

Os momentos de interação entre Davi e Renata na universidade já demonstram algumas das características mais notáveis de O Caseiro: a técnica cinematográfica, a fotografia e a atuação. O diretor utiliza planos sequências e tomadas mais longas com frequência, criando um ritmo lento, porém envolvente e atmosférico. Associa-se ainda o trabalho de direção de fotografia que marca o tom soturno do filme, com uma iluminação mais naturalista, trabalhando somente com cores pastéis, que reforçam essa atmosfera. O mesmo acontece nas sequências na fazenda, em que as locações são frequentemente exploradas tanto pela câmera quanto pelos personagens que perambulam pelos ambientes, alguns fugindo, outros procurando e outros interagindo com a possível assombração.

O questionamento sobre a realidade do encontro sobrenatural se faz presente o tempo inteiro por meio de Davi, que busca uma investigação minuciosa através de conversas com as duas crianças, Julia e Lily, a adolescente Gabi e a tia delas, Rosa, além do próprio pai, Rubens. Ele também utiliza de contatos externos para desvelar outras informações acerca daquela família. Para o personagem, tudo indica que o que se passa na casa não tem embasamento sobrenatural algum.

Logicamente, o filme em si acompanha o mesmo raciocínio ao mostrar bem pouco, provocando e instigando o espectador para que este crie uma percepção própria, analisando os fatos em cena na tentativa de desvendar o mistério. Para evitar os spoilers, não revelarei a natureza do ocorrido, mas há um plot twist interessante, muito sutilmente perceptível ao longo da narrativa e que funciona bem, apesar de que algumas pontas permanecem soltas ao final. A trama sobrenatural tem alguns desdobramentos que parecem remeter ao espiritismo, mas é uma característica bem pouco explorada no geral.

Existe, no entanto, um problema fundamental com O Caseiro. Tudo isso que foi descrito acima já foi feito por demais. Os personagens, os mistérios e até o plot twist, são elementos recorrentes extremamente desgastados do terror, principalmente americano, e que já não causam o mesmo impacto.

O longa é bem feito e funciona naquilo que se propõe, mas também é contido, não assume riscos e não faz esforço algum para se afastar do convencional, seja em relação a técnica ou ao conteúdo. A experiência imediata é satisfatória, mas a longo prazo, não há momentos memoráveis que se destaquem o suficiente para que ele seja lembrado. O Caseiro é, em certa medida, uma versão brasileira de um cinema que tem sido feito exaustivamente nos Estados Unidos faz um bom tempo. É preciso mencionar que, mesmo existindo dentro de uma lógica americanizada, o filme evitou utilizar o recurso mais cansativo dos mesmos, o jumpscare, em prol da atmosfera.

O Caseiro é um filme pequeno, pouco memorável, mas que cumpre aquilo a que se propõe com bastante qualidade. É o retrato do filme de terror mainstream contemporâneo, porém brasileiro. Merece ser conferido!

 

3 amuletos no sal grosso para O Caseiro

Olho mágico

Olho mágico


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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