Review 2016: #28 – Floresta Maldita

Lançado diteto na Netflix, é um desperdício de locação e tema como tantos outros filmes


Nas semanas que antecederam a estreia norte-americana de Floresta Maldita, formou-se um movimento online clamando por um boicote ao filme, que segundo os organizadores, era um desrespeito a trágica história real da floresta de Aokigahara. Para quem não é familiarizado com o local, se trata de uma floresta localizada no Japão e que possui um longo histórico de suicídios.

O Japão é um dos países que mais sofre com esse problema no mundo e, de acordo com o movimento virtual, ao abordar esse tema de forma tão leviana, o filme em questão seria um desrespeito imenso ao povo japonês e um desperdício de uma oportunidade para levar o assunto a públicos diversos. Tocaram ainda na questão do white washing, termo comumente utilizado para se referir aos filmes americanos que colocam personagens caucasianos para interpretar papéis característicos de diferentes etnias. Mais interessante que falar sobre o filme em si é discutir até onde a polêmica tem embasamento.

O white washing é uma realidade inegável em Hollywood. Chega a ser cômico assistir filmes como Deuses do Egito em que nenhum dos personagens sequer aparenta ser um egípcio. Mas este não é o caso de Floresta Maldita, já que o filme leva uma personagem americana para o Japão e não tem pretensão alguma de colocar essa personagem como japonesa ou imersa na cultura deles, pelo contrário, ela é desde o princípio uma gaijin (forasteira), que está se metendo onde não deve. O que existe neste caso é uma certa apropriação cultural que não é novidade para ninguém, já que isso acontece desde que o cinema é cinema.

A discussão mais interessante no caso é se Floresta Maldita é desrespeitoso ou ofensivo, e se Aokigahara deve ou não ser abordada ficcionalmente em um filme de terror. O longa em discussão não é o primeiro e nem será o último a tocar no assunto, apesar de ter sido o único a causar comoção. É preciso ter em mente que o terror, gênero cinematográfico, é subversivo e sempre trabalhou em cima de tabus, incluindo o próprio suicídio. Querer limitar um certo tema por este ser um problema real é o tipo de limitação que simplesmente não deveria acontecer.

Perdidos...

Perdidos…

 

Porém, o senso comum demanda algum tipo de respeito para com a realidade, no sentindo de não se apropriar ou explorar aquele drama de forma desonesta. Um exemplo disso é o filme O Último Sacramento de Ti West, que se vende como uma ficção original, quando na realidade é uma versão do diretor sobre o massacre de Jonestown. Sem qualquer tipo de reconhecimento em relação a tragédia, West explorou aquela situação em benefício próprio.

A abordagem que Floresta Maldita faz sobre o local e a questão do suicídio é tão rasa que não passa nem perto de ser uma exploração ou retratação real do lugar, que parece tão fictício como qualquer outro cenário amaldiçoado de filmes de terror. Além disso, esperar que um filme genérico e mainstream desse naipe possa trabalhar com seriedade um tema tão complexo como o suicídio no Japão é um caso seríssimo de superestima. A conclusão mais óbvia é que o longa não é digno e nem merecedor de causar tamanha revolta, tanto é que o próprio boicote nunca tomou proporções preocupantes para ninguém.

Em relação ao filme em si, Floresta Maldita utiliza diversos tropos tradicionais do gênero: pesadelos; figuras assombrosas saltando em direção a tema; rostos que abrem a boca mais que o normal com o uso de CGI de quinta categoria; assombrações que ficam rodeando as pessoas; plot twists desinteressantes; elementos randômicos e mais. Do começo ao fim, não há um pingo de ousadia ou interesse em sair do lugar-comum.

É certo que Floresta do Mal entrará para aquela massa indistinguível de filmes esteticamente similares e que desperdiçam grandes locações e temas. Tanto que aqui no Brasil, deveria ter estreado no cinema no começo do ano, foi adiado e agora apareceu direto na grade do serviço de streaming. É praticamente o mesmo caso de Do Outro Lado da Porta, que também estrela uma mulher americana que vai para outro país e se mete em altas confusões com entidades locais, após desobedecer algumas regrinhas básicas para tentar salvar um familiar.

Menção honrosa para Natalie Dormer, a Margery Tyrell de Game of Thrones, que parecia estar comprometida e interessada no projeto e na personagem, apesar de que nas cenas em que precisou interpretar irmãs gêmeas, entregou a mesma performance para ambas. Também é digno de notar a fotografia e a montagem do filme que utilizaram por diversas vezes planos abertos que enquadravam os belíssimos cenários japoneses, com a intenção de indicar passagem de tempo nas aventuras dos personagens. É impressionante o trabalho artístico da direção de fotografia que criou algumas verdadeiras pinturas, mesmo que com um objetivo tão simples dentro do filme. Ponto para os responsáveis, vocês brilharam! Qualidade material não faltou ao filme, mas o conteúdo deixou a desejar, mais uma vez.

 

2 corpos dependurados para Floresta do Mal Maldita

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Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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