Review 2016: #32 – Holidays

Antologia indie de terror celebra os feriados americanos de um jeito bem macabro


As antologias de terror, aqueles filmes que reúnem várias histórias fechadas independentes, geralmente conectadas por um fio condutor ou tema em comum, sempre foram muito populares nos anos 60 e 70, principalmente as produções da Amicus, estúdio inglês rival da Hammer, e também nos anos 80, tendo Creepshow – Show de Horrores, parceria entre Stephen King e George A. Romero, inspirados nos quadrinhos da EC Comics, um dos seus exemplos máximos.

Durante as duas décadas seguintes, esse subgênero foi praticamente desaparecendo das telas, com apenas um ou outro exemplar surgindo, mas sem o mesmo brilho das produções de outrora, até que a partir de 2010, as antologias ressurgiram com força total, revividas por uma nova leva de cineastas americanos independentes – aqueles mesmos responsáveis por essa interessantíssima safra de filmes indies de horror feito nos EUA atualmente que eu venho TANTO falando aqui no 101HM ultimamente.

Sem dúvida alguma V/H/S/ foi o precursor do movimento, juntando a galerinha do mumblegore para entregar uma antologia found footage com estética oitentista, e logo depois vários outros filmes portmanteau surgiram nesse curto espaço de tempo, como as próprias duas sequências de V/H/S/, dois O ABC da Morte, Tales of Halloween, Southbound e até o brasileiro As Fábulas Negras e 13 Histórias Estranhas. Agora, a bola da vez   Holiday.

Inspirado pelos feriados americanos e idealizado por John Hegeman, dez cineastas, alguns independentes, outros já responsáveis por grandes filmes de estúdio e o nerd-mor Kevin Smith, trouxeram suas histórias de terror e peculiaridades para as tais datas e o resultado é interessantíssimo, apresentado cronologicamente a partir do Dia dos Namorados (que lembre-se, acontece em fevereiro nos EUA), e passando pelo St. Patrick’s Day, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Halloween e Ano Novo.

Algumas são sequências bizarras, ousadas e disruptivas, que chamam a atenção por histórias completamente fora do convencional e sinistras, e outras divertidíssimas, repleta de humor negro, com destaque para trilha sonora minimalista de teclados analógicos à la 80’s e direção criativa e muito da visível estética do mumblegore empregada.

 

O segmento “Valentine’s Day” é escrito e dirigido pela dupla Kevin Kolsch e Dennis Widmeyer, os mesmo do fodástico Starry Eyes, dos melhores filmes de terror dos últimos anos, onde uma colegial antissocial que sofre bullying das meninas populares é secretamente apaixonada pelo professor de natação, que precisa de um transplante cardíaco. O sujeito fica com pena das provocações e destrato com a menina e resolve lhe deixar um cartão de Dia dos Namorados no seu armário.

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Refém do silêncio

“St. Patrick’s Day” tem o roteiro e a direção de Gary Shore, diretor de Drácula: A História Nunca Contada, e sem dúvida é o mais galhofa de todos, com um final hilário, onde uma professora infantil que tem desejo de engravidar recebe uma ajudinha de uma garotinha ruiva, sem fazer a menor ideia de que os motivos dela envolvem uma seita pagã celta anterior a chegada de São Patrício na Irlanda para expulsar as cobras.

Nicholas McCarthy, o mesmo de Pesadelos do Passado escreve e dirige “Easter”, o mais bizarro dos segmentos, onde uma garotinha é visitada na noite de páscoa por uma sinistra figura de um aterrador coelho da páscoa humanoide misturado com Jesus Cristo, com direito a estigmas e coroa de espinhos na cabeça, como se saído de uma história doente de Clive Barker.

Segue com “Mother’s Day”, onde Sarah Adina Smith, diretora de The Midnight Swin e escritora de Isolados do Mundo traz mais uma história perturbadíssima, onde uma mulher engravida toda vez que pratica sexo e procurando ajuda médica para mais um aborto, é indicada pela obstetra a procurar um grupo de fertilidade comandado por sua irmã que reúne mulheres no deserto para fazer uns rituais com ayahuasca, que parece mais um culto, e acaba sendo sequestrada para dar a luz a algo.

“Father’s Day” é sem dúvida o melhor segmento do filme, escrito e dirigido por Anthony Scott Burns, em sua promissora estreia na direção (vindo da área dos efeitos especiais, tendo trabalhado em O Último Exorcismo – Parte 2), onde um mulher, vivida por Jocelin Donahue de A Casa do Diabo, recebe uma gravador e uma fita deixada por seu pai, que ela supunha estar morto, lhe passando as coordenadas para eles se reencontrarem. A estética desse novo cinema indie americano, de minimalismo, construção de atmosfera, fotografia, direção de câmera, ausência de explicações fáceis e trilha sonora vintage, aqui saem pelos poros.

A partir daí a qualidade e originalidade começam a cair, com a sequência de “Halloween”, de Kevin Smith, que traz a vingança de três cam-girls (uma delas é sua filha, Harley Quinn Smith) contra seu cafetão escroto que as abusava e não lhes deu uma noite de folga no Dia das Bruxas, que é até divertido, “Christmas”, dirigido e escrito por Scott Stewart, dos péssimos Legião e Padre, que entrega o pior conto da antologia sobre um óculos de VR adaptável que escolhe imagens e vontades do subconsciente para ser exibido para quem o usa, com Seth Green no elenco; e “New Year’s Eve”, com direção de Adam Egypt Mortmer (o mesmo de Some Kind of Hate) e roteiro também da dupla Kolsh e Widmeyer, mostrando um psicopata que marca um encontro com uma garota por um site de relacionamento na noite da virada, sem imaginar que ela também é uma maníaca.

Apesar de um resultado final irregular por conta dos três últimos segmentos, Holidays é repleto de contos de horror subversivos, alguns deles realmente acima da média, que vale muito a pena se assistir, mostrando mais uma vez esse novo respiro do gênero e o trampo que novos cineastas de terror (tirando Kevin Smith que já é velho de guerra) estão realizando.

 

3,5 feriados para Holidays

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Coelhinho da Páscoa o que trazes para mim?

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. oscar_b disse:

    Um que poderia ser incluído nessa relação de antologias da atualidade é o argentino “Relatos Selvagens”. Tá certo que não é um horror com T maiúsculo, mas tem seus momentos. Aliás o último segmento desse filme (Até que a morte nos separe) é espetacular.

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