Review 2016: #35 – O Diabo Mora Aqui

Os diretores Dante Vescio e Rodrigo Gasparini são, talvez, o futuro mais próximo que tenhamos de uma nova geração de diretores nacionais do gênero


 

Os diretores Dante Vescio e Rodrigo Gasparini estrearam com seu primeiro longa metragem O Diabo Mora Aqui essa no final de semana passada, em algumas salas selecionadas. O filme conta história de quatro amigos, Magu (Clara Verdier), o casal Alexandra (Mariana Cortines) e Jorge (Diego Goullart) e Apolo (Pedro Carvalho). que decidem passar o final de semana na antiga cidade onde o último crescera.

O problema é que a casa foi moradia do Barão do Mel (Ivo Muller), um escravocrata psicopata que torturava tanto psicologicamente quando fisicamente seus servos afrodescendentes por puro prazer e morbidez. O Barão dominava a maioria dos seus escravos através do medo, mesma lógica que aplicara em suas abelhas enquanto apicultor, porém, não conseguia “domar” a mãe de Bento (Sidney Santiago), a qual tivera relações sexuais a fim de “domesticá-la” para si.

Porém Malha (como é chamada a mãe de Bento durante todo o filme) é elevada como Rainha de seu povo e que lhes dá esperança para continuarem a suportar tal vida infernal terrena com promessa de outra melhor. Quando o filho do Barão nasce, uma revolta se instala na fazenda colonial de Amparo, os escravos se voltam contra seu mestre decepando lhe a cabeça e o amaldiçoando para toda a eternidade, mas com isso vem um preço: um sacrifício. Malha então enfia um enorme prego de metal na barriga de seu próprio filho para conseguir prender a nefasta alma de seu pretendente no inferno para todo o sempre.

Com isto a cada nove meses alguém deve ir na casa vazia e bater no prego como forma de lembrete e proteção contra o possível retorno indesejável do escravocrata maligno, papel antes do caseiro da família de Apolo, Flávio e então de seus filhos; Sebastião (Pedro Caetano) e Luciano (Felipe Frazão) com ajuda dos poderes lhes dados por rituais e crenças místicas já quase esquecidas.

É claro que os quatro amigos decidem ir para tal casa exatamente na mesma noite em que o mau deve ser lidado. A princípio os amigos estão lá apenas para se divertir, mas logo fica claro que Apolo tem outra intenção além de dormir com Magu.

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Procurando um filme de terror nacional bom?

Com isso começa uma batalha centenária entre o bem o mal, onde todos têm o seu papel. E é neste fator que eu queria chegar. O filme muito bem construído em atmosfera é um refresco de ar puro para aquelas desanimados com o terror nacional. Dante Vescio e Rodrigo Gasparini são, talvez, o futuro mais próximo que tenhamos de uma nova geração de diretores hábeis e talentosos, que entendem a linguagem de cinema de gênero e querem aprimorá-la com o tempo.

O filme, baseado em um conto de M.M. Izidoro – que também é o produtor do mesmo -, é quase perfeito, mas pedir isso de diretores estreantes é uma injustiça com os mesmos. Falhas na direção, maneirismos e preciosismos no roteiro (vide a personagem desnecessária de Alexandra) e clichês na fotografia não entopem a tela, mas são presentes, poucos e talvez imperceptíveis a espectadores casuais, mas notáveis em olhos menos caridosos.

Assisti ao filme analisando o máximo que pude e saí de lá muito feliz com meu veredicto. O Diabo Mora Aqui é sem dúvida um dos melhores filmes nacionais de terror da atualidade, os efeitos práticos são magistrais, a direção de arte invejável, a edição – um pouco cansativa no terceiro ato – é quase sempre precisa e a direção surpreendentemente modesta (no bom sentido). Um filme necessário e obrigatório para fãs do horror, tanto para apoiar o projeto nacional independente, quanto para assistir à uma excelente obra do audiovisual.

Honesto, feito por pessoas que estudam aquilo que construíram e verdadeiros apaixonados pelo gênero. Sem dúvida são dos meninos que ficarei de olho durante a esperada e frutífera carreira no mercado. Dante Vescio dirigira e escrevera anteriormente o curta O Dia Do Camelo e juntamente com Gasparini o curta “extra” do filme-compilação/antologia O ABC da Morte 2,5 intitulado “M is for Mailbox” ou “Um Estranho Na Porta” e também a web-série Nerd of the Dead

4 pregos de ferro cravados no chão para O Diabo Mora Aqui.

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Vai uma manicure aí?

 

 

 


Marcelo Mattina
Marcelo Mattina
Formado em cinema pela FAAP, trabalha atualmente com roteiros de cinema e televisão. Fã do estranho e do implausível, passa seus dias pesquisando temas e acontecimentos estranhos para ideias em suas próprias histórias. Ah, e ele gosta muito de Magic, vai entender...

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