Review 2016: #45 – Através da Sombra

Apesar de muito bem produzido e ambientado, longa nacional não oferece muito além disso


A Volta do Parafuso, novela do escritor inglês Henry James, é provavelmente a obra mais adaptada ao mundo cinematográfico. Ao todo são 17 versões, entre filmes, prequela, minisséries e filmes para a TV, além de uma peça da Broadway em 1950. Dentre as várias produções, que vai de versão espanhola, italiana, algumas americanas e até mexicana, o exemplar mais famoso é o clássico absoluto Os Inocentes, filme britânico de 1961, listado por Martin Scorsese recentemente como um dos 11 filmes mais assustadores de todos os tempos.

Através da Sombra, longa nacional dirigido e roteirizado por Walter Lima Jr. (Menino de Engenho, A Líria do Delírio, Os Desafinados), é a versão tupiniquim do livro de James, que vem sendo apresentado em alguns festivais e mostras de cinema.

Na trama, somos apresentados à Laura (Virginia Cavendish), uma reservada professora que fora contratada por um homem rico – o recente ator falecido Domingos Montagner –  a fim de cuidar e educar seus sobrinhos órfãos, moradores de uma fazenda afastada da cidade. Lá, ela é apresentada à simpática governanta Dina (Ana Lúcia Torre) e à pequena Elisa (Mel Maria), além dos escravos que cuidam do cafezal e dos demais afazeres do belo local.

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Vamos brincar de cabra cega?

Pouco a pouco Laura conquista a confiança de Elisa e seu irmão Antonio (Xande Valois), que mesmo expulso do internato por mau comportamento, cativa a professora e iniciam uma relação de amizade e respeito. A vida de Laura poderia ser bem mais fácil se ela não se sentisse incomodada com a presença de um capataz stalker e por acontecimentos que são correlacionados à explicações sobrenaturais e a antiga professora, que ali residia e sumiu da face da Terra.

A direção de arte e fotografia nos remete ao começo do século passado no tempo da escravatura no Brasil, entregando um trabalho competente e criando assim uma tensão propícia para histórias sobrenaturais. A atuação de Virginia Cavendish é convincente e transmite segurança no papel, porém as crianças não demonstram entrosamento com os demais atores. Isso atrapalha um pouco a construção da narrativa, pois a empatia entre os atores ora funciona, ora não, mas nada que lhe incomode muito no decorrer da trama. Compensam os aspectos técnicos, com câmeras passando dos quartos ao telhado, dos corredores do casarão ao lobby principal, com uma ótima cenografia.

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O bicho papão vem te pegar

Porém o maior problema se dá no roteiro e desenvolvimento do longa. Toda a ambiguidade do livro é jogada de lado para que o didático tome conta, influenciando da metade ao final da fita, deixando a história em alguns momentos desconexa e finalizando com um desfecho totalmente apático e sem sal.

Ou seja, pode ser considerado um remake brazuca de Os Inocentes, pois além de possuir sequências muito parecidas com o clássico de 61, o final aqui acelerado é igual, sem tirar nem por. Se não fossem a adaptação da novela em terra brazilis e aspectos técnicos já destacados, diria que é um longa desnecessário.

Por fim, Através da Sombra é um filme bem produzido e ambientado, tendo como principal característica a belíssima fotografia da casa interiorana e tomadas realizadas num ambiente externo, mas que deva funcionar melhor para quem não leu a novela ou não conhece o filme de Jack Clayton.

2 beijos sensuais para Através da Sombra.

 

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Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Só uma informação/correção: o filme se passa em 1931. Os trabalhadores não são escravos. 😉

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