Review 2016: #48 – 31

Rob Zombie volta às origens em um filme regado a sangue, freaks e caipiras.


Cada vez que me deparo com ódio destilado contra Rob Zombie – o cineasta, não o músico –, minha vontade de defendê-lo aumenta consideravelmente. Compreendo o desgosto, mas acredito piamente que ele mereça um pouco mais de atenção do que lhe é concedido. Já pensei em escrever um artigo levantando essa bandeira, que por sinal encontra poucos apoiadores até mesmo dentro da equipe do 101HM (NE: eu inclusive sou um deles), mas ainda não tive condições de rever sua filmografia para discutir com propriedade sobre o tema.as fica aí a promessa para o futuro!

O grande cinema de terror tem estado preso a uma série de clichês e fórmulas já faz algum tempo. Produções sem personalidade ou identidade são despejadas aos montes nos cinemas, ano após ano. Em meio a essa homogeneidade maçante, Zombie insiste e bate de frente com quem precisar, na busca por um terror que autoral, dentro de seus próprios padrões “caipirescos” e alegóricos, por mais que isso não agrade a maioria. Até mesmo sua versão de Halloween, comumente massacrada, apresenta um certo grau de influências criativas, para o bem ou para o mal, que tornam o filme muito mais comentado que os remakes esquecíveis de Sexta-feira 13 ou A Hora do Pesadelo. Ocasionalmente, o cara ainda é capaz de entregar obras fora da curva como Rejeitados Pelo Diabo e Senhoras de Salem, que mostram grande aptidão técnica e apuro estético. Não só o terror, mas o cinema em geral sempre deve ter espaço para pessoas como Zombie, capazes de fazer as suas próprias vozes serem ouvidas acima de qualquer tentativa de massificação.

31, o seu mais novo trabalho, que contou com financiamento coletivo para ser finalizado, abandonou o estilo alucinógeno de seu último filme, As Senhoras de Salem, retomando suas origens grotescas, bem na pegada de A Casa dos Mil Corpos. O título do longa em questão remete imediatamente ao Halloween, porém aqui se refere a um jogo doentio, encabeçado por ricaços sádicos desejosos de assistir morte e violência em tempo real. O jogo em questão é bem simples: anualmente, um grupo de cinco pessoas deve sobreviver por doze horas dentro de um complexo industrial temático do Dia das Bruxas, enquanto são perseguidos por assassinos das mais diversas estirpes!

Existe uma máxima muito popular dentro do mundo do cinema que diz: “menos é mais”. Rob Zombie, no entanto, não tem lá muito apreço por isso e acredita piamente na filosofia do “mais é mais”. Os filmes do diretor, geralmente, transbordam um exagero absoluto em tudo e daí advém seu relativo “sucesso”.

311

O espírito de O Massacre da Serra Elétrica vive no cinema de Rob Zombie

A trajetória cinematográfica do roqueiro metido a cineasta teve início ainda nos anos 90, quando ele trabalhava na criação de casas assombradas para o parque temático da Universal Pictures, trabalho este que inspirou seu primeiro filme, A Casa dos Mil Corpos. As casas mal-assombradas, notáveis pela necessidade de conquistar o público através de estímulos chamativos,  não foram a única influência na criação de seu universo próprio; Zombie também buscou em Tobe Hooper e no cinema dos anos 70 uma fonte de inspiração, que resultou no estilão sujo e carnavalesco de seus filmes.

Em 31, longa que se assemelha e muito ao debute do diretor, o tema da atração de parque de diversões retorna com força total. O complexo industrial utilizado para o jogo em questão é decorado de cabo a rabo com adereços típicos da data americana folclórica. Não há qualquer tentativa de se recriar a realidade, mas sim colocar os personagens em um ambiente caricato e insano. Personagens esses que são igualmente cartunescos e exagerados, desde os caipiras estereotipados até o anão nazista mexicano (?), que fala por si só, e palhaços com motosserras – será que os palhaços que estão aparecendo pelo mundo são marketing de 31?

Zombie buscou criar uma forma de entretenimento simples que oferecesse uma experiência similar à que teríamos em uma de suas atrações na Universal: Uma introdução breve: “Você está prestes a vivenciar uma experiência aterrorizante! ” -, um passeio cheio de atrações visuais grotescas e decorações macabras em ambientes diferentes e ocasionais aparições de palhaços assassinos/monstruosidades que só podem te assustar, mas nunca te tocar.

O efeito é certeiro e 31 convence com sua violência gráfica e ambientação interessante. Mas, da mesma forma com que essas atrações divertem no momento, o efeito costuma ser bem passageiro. O jogo em si não guarda nenhuma surpresa ou momento marcante, pelo contrário, prova-se desnecessariamente longo, considerando a quantidade limitada de participantes. Talvez uma quantia maior de vítimas pudesse ter tornado a experiência menos arrastada e ainda mais violenta. Fica a dúvida se os cortes feitos pela censura altíssima que quase condenou o filme fariam a diferença nesse sentido. O espetáculo visual poderia ter usado alguns litros a mais de sangue!

31-1

Todo filme de terror rural que se preze precisa de espantalhos.

Mais uma vez, RZ optou por trabalhar o colorido do neon em meio aos ambientes escuros, em clara inspiração ao cinema italiano, que já havia marcado seu filme anterior, As Senhoras de Salem. Esse constante retorno que faz, não apenas as suas influências, mas também aos próprios filmes, é uma das características mais importantes do cinema de Zombie e que se está especialmente presente na escolha de atores.

Nomes como Malcolm McDowell, Jeff Daniel Phillips, Richard Brake e, infelizmente, Sheri Moon Zombie, são figurinhas carimbadas. A esposa do diretor, que estrela basicamente todos os seus filmes, continua incapaz de atuar bem, entregando uma performance no mínimo ridícula. A sorte dela é estar em um meio em que as performances são todas tão exageradas, que sua própria ruindade não se destaca tanto. Em compensação, Richard Brake teve a atuação de sua vida com o brilhante personagem Doom Head, espécie de versão caipira e suja do Coringa. 31 começa com um monólogo de Doom Head que merece ser indicado ao prêmio de momento mais impressionante da carreira cinematográfica de Zombie.

Para além do entretenimento violento, sanguinário e estiloso, 31 realmente não oferece nada demais. Dentro da filmografia do diretor, parece um filme menor, menos impactante em termos gerais, mas que ainda possui uma caracterização única e exclusiva de seu criador.

3.5 anões nazistas chicanos para 31

rob-zombie-31-doom

Doom Head após comer o Coringa de Jared Leto no café da manhã.

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: