Review 2016: #51 – Satânico

Nem mesmo um pacto com o Capiroto seria capaz de tornar esse filme um sucesso


Pouco antes de assistir Satânico, que estreia hoje em alguns poucos cinemas do Brasil, ditei um novo mandamento para mim mesmo: “não odiarás este filme excessivamente”. Ultimamente, longas com uma pegada mais adolescente e um aspecto enlatado tem me provocado um rancor profundo, que transparece com frequência em algumas críticas. De bom humor e disposição renovada, me prontifiquei a conferir essa maravilha com uma mente aberta.

Dirigido por Jeffrey G. Hunt, figura oriunda das séries de televisão, e escrito por Anthony Jaswinski, que assinou o roteiro de Águas Rasas, Satânico acompanha as desventuras de um grupo de amigos que decide fazer um pequeno tour por algumas casas mal-assombradas na Califórnia. Em uma de suas visitas acabam por conhecer uma jovem que é igualmente linda e doida da cabeça. O encontro acaba resultando em desgraça de proporções bíblicas.

A introdução do filme diz a que veio de forma divertida. Por trás dos créditos iniciais, acompanhamos uma série de imagens que narram o satanismo através da história. Com as diversas faces do Mochila de Criança – Capiroto, Lúcifer, Belzebu – sendo exibidas, a expectativa dava sinais de tornar-se realidade. Até que os primeiros personagens abrem a boca…

Dentro de um carro, o grupo de quatro jovens se diverte, tira fotos e dá risadas. Um deles faz pose para foto: sinal dos chifrinhos com a mão e língua pra fora. O que se seguiu a fotografia foi o seguinte diálogo:

– “Uau, isso foi tão KISS!” (alusão a Gene Simmons do Kiss e sua tradicional língua para fora – precisava mesmo ter explicado?)

 – “É! Knights in Satan’s Service!” (Durante anos existiu um boato de que Kiss não seria apenas a palavra em inglês para beijo, mas sim uma sigla, que traduzida seria “Cavaleiros a Serviço de Satã”.)

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Capitão Howdy, você está aí?

Nesse momento foi difícil escolher o que era pior, o diálogo abismal ou as atuações deprimentes. A única certeza era que meu respeito pelo mandamento não aguentou cinco minutos de filme. A temática satanista alcançou com louvores a função de tornar este espectador que vos escreve em um pecador: “A ira torna a pessoa furiosa e descontrolada com o desejo de destruir aquilo que provocou sua ira” (definição do pecado de acordo com um site cristão).

O primeiro ato transcorre de forma dolorosa, com diálogos e situações cada vez mais banais. As atuações transformam a linha entre o amador e o profissional em algo imperceptível. As vezes é difícil identificar quais foram as falhas cometidas, mas este não é bem o caso aqui: as performances sem dúvida merecem uma medalha no quesito ruindade; a direção é tão pouco inspirada e básica que nem merece mais comentários; já o roteiro… ah, o roteiro. Fica uma forte impressão de que o roteiro se baseou em uma premissa – jovens em busca do sobrenatural acabam encontrando o que não deviam – e acrescentou a essa premissa uma série de clichês absurdos sobre satanismo.

É como se a trama do filme tivesse sido inteiramente construída a partir da página da wikipedia sobre o tema e o pior, a página brasileira! Cada vez que o nome de Anton LaVey era mencionado, um satanista morria do coração em algum lugar do mundo. É inaceitável que alguém tenha considerado o roteiro de Satânico algo promissor. Onde estavam os revisores e os críticos? Considerando que Águas Rasas quase não tem diálogos e que os outros trabalhos do roteirista em questão são péssimos, só me resta parabenizar esse sujeito pela exímia picaretagem que o faz sobreviver nessa indústria.

Um fiapo de trama se prolonga por algum tempo, até a introdução de Sophie Dalah no papel de Alice, a quem me referi mais cedo como “linda e doida da cabeça”. O comentário sobre a beleza da moça se faz necessário pela forma erótica como ela é capturada pela câmera, sempre se movendo de forma sedutora, encantando com uma beleza inocente, que guarda um anseio doentio por um contato direto com o inferno.

Chocada como esse filme é ruim!

Chocada como esse filme é ruim!

Alice acrescenta um ar completamente diferente ao filme, que até então provocava algo entre o riso e a vergonha alheia. Por conta das ações dessa moça, o destino dos outros personagens torna-se tenebroso, marcado por um mal infernal que fará de tudo para aniquilar os infelizes. A perspectiva de ter o Capa Verde enfurecido caçando a alma de jovens estúpidos deveria ser suficiente para satisfazer qualquer fã de horror e propiciar alguns momentos interessantes. Doce Ilusão.

O clímax de Satânico, que prometia satanismo, crueldade, violência e outras coisas das mais profundezas do inferno, não entrega absolutamente nada de assustador. O tal destino terrível dos personagens é quase totalmente fora de cena e tudo que o recebemos pela expectativa é gritaria. Existe uma amostragem de alguns minutos do que seria uma ambientação fantástica de tormento e sofrimento, mas a falta de criatividade não faz uso algum disso. Nada de gore, demônios ou chuva de sangue. Só gritaria off screen.

Sem oferecer nada, com um roteiro vergonhoso que se sabe lá Deus como alguém aceitou produzir, Satânico serve no máximo para provocar risadas pelos motivos errados. Mais dispensável que as almas dos personagens!

 

1.5 pentagramas para Satânico

A última que tentou assistir Satânico até o final...

A última que tentou assistir Satânico até o final…


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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