Review 2017: #13 – XX

Antologia mostra que as minas estão na ativa, fazendo o que gostam e arriscando, acima de tudo.


XX é uma antologia de horror dirigida somente por mulheres, com protagonistas femininas, e que vem aguçando a curiosidade dos fãs de terror nos últimos anos. Inicialmente, nomes de peso como Jennifer Lynch (Encaixotando Helena), Mary Harron (Psicopata Americano) e as irmãs Soska (American Mary) foram cotados para integrar o time, mas acabou não rolando e, dessas diretoras que haviam sido convidadas lá atrás, em 2013, apenas uma participa: a canadense Jovanka Vuckovic. Outros nomes foram sendo sondados e o projeto passou por várias mudanças até chegar ao seu lançamento, no Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, em janeiro deste ano.

Sei bem a dificuldade de ser mulher e amar um gênero que ainda mantém o machismo tão arraigado. Seja dirigindo, atuando, produzindo ou até mesmo escrevendo sobre o assunto, sempre encontramos barreiras no nosso caminho que são interpostas como um reflexo da sociedade patriarcal. Já até falamos sobre o assunto num dos nossos Hangout, onde tivemos convidadas que manjam sobre o assunto e que deram seu parecer sobre, e todas concordam que sim, é um ramo difícil de galgar seu espaço mas que, aos poucos, estamos progredindo e mudando esse cenário.

Fato é que passou da hora de termos uma antologia dirigida apenas por mulheres, onde sejamos representadas no protagonismo, e onde possamos nos identificar naqueles papéis apresentados na obra: mães, filhas, amigas, namoradas, companheiras. Mulheres comuns, todas com suas bagagens, seus defeitos e virtudes, acabando com o irrealismo das final girls e das vixens imbatíveis que tanto foram estereotipadas ao longos dos anos. E é justamente esse tipo de personagem real que vemos ao longo de XX.

Logo no primeiro segmento, “The Box”, baseado no conto de Jack Ketchum, somos arrebatados com uma história simples e genialmente intrigante, dirigida por Vuckovic, que tem no currículo o curta The Captured Bird. Susan Jacobs (Natalie Brown) volta de um passeio com seus dois filhos, Danny e Jenny, quando o filho, curioso e pentelho como todo bom pré-adolescente, interpela um estranho no metrô. O sujeito, carregando uma caixa vermelha vistosa, diz para o menino que ali há um presente de Natal, e deixa o menino dar uma espiadela. A partir desse ocorrido, as coisas vão mudando em sua família, quando o menino passa a sofrer com a perda abrupta de apetite, criando um círculo vicioso que acaba arrastando sua irmã e seu pai, Robert. Susan vê sua família definhando aos poucos, até culminar em seu final pessimista e que nos deixa curiosos pra cacete. Afinal, o que diabos tinha naquela caixa?

O sorriso de uma mãe alimentando seu filho…

O segundo segmento, “The Birthday Party”, é o debut da cantora americana St. Vincent, ou Annie Clark, na direção. Mary (interpretada pela ótima Melanie Lynskey) organiza os preparativos da festa de aniversário de sete anos de sua filha, Lucy. Mesmo tendo a ajuda de uma espécie de governanta, Carla (Sheila Vand) que parece mais acuá-la do que ajudá-la, a organização da festividade e a preocupação para que tudo saia perfeito parece sobrecarregar Mary e a coisa fica ainda pior quando ela encontra seu marido, David, morto num escritório da casa. Tentando não arruinar o dia especial, já que receberá todas suas vizinhas e amigas, decide dar um jeitinho inusitado no corpo, o que acarreta num final desastroso. Apesar de seu visual ímpar e da excelente atuação das atrizes, é de longe o segmento mais fraco de XX.

Roxanne Benjamin, oriunda do movimento mumblegore que tem uma certa experiência com o formato, pois dirigiu um segmento no ótimo Southbound e também produziu outros dois em V/H/S e V/H/S 2, fica no encargo de “Don’t Fall”. Nele, quatro amigos viajam pelo deserto e encontram desenhos rupestres em uma rocha, o que parece não impressioná-los. Sem dimensão do perigo que aqueles desenhos representam, eles decidem passar a noite no lugar, e tudo muda quando a protagonista, Gretchen (Breeda Wool) é atacada por uma criatura medonha que ali vive. Metamorfoseada como essa criatura, Gretchen ataca o restante do grupo, gerando também a única dose de ação e sustos na antologia (infelizmente…).

“Her Only Living Son” é o segmento que encerra o filme e que foi, pra mim, uma certa decepção. Dirigido por Karyn Kusama, que tem no currículo o ótimo O Convite (de longe, um dos melhores filmes que vi em 2016) e o regular Garota Infernal, a trama conta a história de Cora (Christina Kirk) que acompanha seu filho, Andy (Kyle Allen, a cara do ator Heath Ledger em sua juventude) chegando à vida adulta. Em seu aniversário de 18 anos, vemos que a personalidade difícil e agressiva de Andy, que chegou a arrancar as unhas de uma colega de escola apenas “porque sim”, pode ter uma explicação sobrenatural que sua mãe escondeu durante todo esse tempo. A trama é simples mas poderia ser mais aproveitada, e a maneira rasa como a história é mostrada acaba desapontando quem espera algo complexo.

Ao longo da antologia, animações creepy feitas por Sofia Carillo interligam os segmentos e são um puta ponto positivo para XX que é um filme honesto e cumpre o que se propõe. Seu maior mérito é mostrar que, num modo geral, as minas estão na ativa, fazendo o que gostam e arriscando, acima de tudo, o que é totalmente louvável. Que isso traga representatividade para o gênero, que seja inspirador e faça surgir novos projetos desse naipe. O horror agradece.

3 bonequinhas assustadoras para XX

Presente de grego

Presente de grego


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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