Review 2017: #16 – Ataúd Blanco: El Juego Diabólico

Descubra até onde uma mãe irá para salvar sua filha


Não é segredo para ninguém que a Netflix é a maior benção derramada sobre a humanidade na presente década. Navegar sem destino pelas categorias e pelos lançamentos é sempre certeza de descobrimentos, tanto de filmes e séries de alto nível, como também material de qualidade fortemente duvidosa. Foi em uma dessas aventuras que me deparei com a película argentina Ataúd Blanco: El Juego Diabólico.

O longa tem a direção de Daniel de la Vega, hermano com algumas outras películas de horror no currículo, mas bem pouco conhecido, ao menos fora de seu país, reservando assim o nome de destaque ao roteirista, o espanhol Adrián García Bogliano. Bogliano dirigiu Ahí va el diablo e Late Phases, além de ter participado da antologia ABCs da Morte, o que lhe rendeu uma certa atenção especial dentro do gênero. Uma avaliação exclusivamente do texto indicaria um filme ótimo, ou excelente, ao passo que uma avaliação semelhante, tomando somente a direção como referência, apontaria para aquilo que os franceses denominam como film merde (filme merda).

Com duração de míseros 70 minutos, o filme é estrelado pela veterana da televisão e cinema portenhos, Julieta Cardinali, no papel de Virgínia, uma mãe desesperada que viaja pelo interior da Argentina acompanhada de sua filha Rebeca (Fiorela Duranda). Tal desespero é causado pelo simples fato de Virgínia ter sequestrado Rebeca por temer que o pai da menina ganhasse a guarda exclusiva da mesma, motivação que já apresenta uma leve inversão de valores. Inicialmente dotado de um aspecto road movie, com foco nessa viagem pelo interior poeirento e desértico, a história se transforma de formas imprevisíveis a todo momento quando Rebeca é sequestrada por alguma figura desconhecida, após um momento de falta de atenção da mãe. O ponto mais curioso aí, é que a garotinha não foi a única sequestrada, já que um rapazote que acompanhava os colegas de turma em uma excursão também foi misteriosamente abduzido.

Associação de Mães e Professoras de Crianças Sequestradas por Cultistas do Mal

Após esse inception de sequestros, Virgínia se vê forçada a participar de um jogo perverso em busca de um caixão branco tamanho infantil. Segundo os malfeitores, a obtenção do caixão seria crucial para recuperar a menina. No entanto, Virgínia não é a única mãe em busca desse caixãozinho. Tanto a professora que perdeu o aluno, quanto uma outra mãe, também estão em busca de crianças desaparecidas, de forma que o caminho das três se cruzará mais de uma vez.

Se o jogo já parece sádico por excelência, torna-se ainda pior com a entrada de elementos sobrenaturais e violência escabrosa. O subtítulo “jogo diabólico” se faz valer com louvores em meio ao gore, esquisitices, ocultismo, cultos malignos e coisas de outro mundo que são jogadas dentro dessa mistura, que resulta em um final chocante e pesadíssimo. Pouco preocupada em dar respostas para as várias perguntas que suscita, a trama se desenrola no sentido de nos jogar em um mundo cruel e chocante, no qual a santidade das relações maternais e a inocência infantil são completamente obliteradas. Ao final desses 70 minutos de duração, tudo que resta é um sabor amargo e desagradável na boca.

O enredo é responsável por provocar esse incômodo de forma bem gradativa, em um ritmo acelerado, mas nunca apressado. Já a direção, fotografia e montagem, causam um outro tipo de incômodo. Salta aos olhos a estética simples, sem aquela colorização artificial de pós-produção a que estamos tão habituados, o que dá uma aparência crua ao filme. Apesar de não ser um problema a priori, é algo que pode afastar muitos espectadores pelo simples fato de ser incomum. O que afunda Ataúd Blanco, infelizmente, são as escolhas inconsistentes de direção, que está mais preocupada em replicar técnicas, quadros e movimentos de câmera de outros filmes, do que fazer algo coeso e próprio de si.

A todo momento somos expostos a tomadas que não possuem qualquer propósito narrativo e muito menos são capazes de engendrar sentimentos. Soma-se isso a uma edição também confusa, que parece não saber exatamente que tipo de obra quer montar e, no fim das contas, temos uma bagunça generalizada.

Considerando essas informações, me coloco a seguinte questão: Ataúd Blanco é um filme recomendável? Tudo dependerá da forma que cada um balanceará essas informações. Se a direção e a estética forem os elementos preponderantes na escolha do que assistir, definitivamente não o recomendo. Porém, se a trama em si for mais relevante que todo o resto, então fica aqui uma ótima recomendação de um filme pesado, que tem um prazer sádico em violar aspectos morais da nossa sociedade.

2.5 caixões brancos tamanho infantil para Ataud Blanco

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Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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