Review 2017: #24 – Vida

 

Vida e morte fora do planeta Terra, uma realidade


Como bom rapazote nascido e criado nos anos 90, meu contato com o horror espacial se deu por meio de vários filmes da época, antes de finalmente assistir Alien, o Oitavo Passageiro, que é reconhecidamente a mais celebrada obra nesses moldes. Foi por meio de filmes como Planeta Vermelho, Supernova, A Experiência e Alien – A Ressurreição e outros mais, que entendi a máxima de que no espaço, ninguém pode ouvir você gritar. Com direção de Daniel Espinosa, Vida é um longa que retoma muito do clima e estilo desses filmes acima mencionados, além de ser um ótimo aquecimento para a chegada de Alien: Covenant.

Escrito a quatro mãos pela dupla Wernick e Reese (Deadpool e Zumbilândia), Vida não poupa tempo antes de se jogar na parte mais científica da ficção. No melhor estilo hard sci-fi, abusando de termos e situações aparentemente realistas relativos ao universo das estações espaciais, pouco se preocupa em mastigar os acontecimentos para o público. O objetivo da missão é bem mal estipulado, não somente por escolha dos escritores, mas pelo início enrolado, que faz tudo parecer uma série de coincidências: “Olha só, pegamos uma sonda espacial!”; “Vejam que curioso, uma forma de vida alienígena na sonda!”, “Ah não, pera aí, era isso que viemos fazer aqui, perdão”.

Apesar da forma confusa com que se inicia, aos poucos vai entrando nos trilhos, tornando-se mais interessante e empolgante conforme o marciano toma forma. Sim, amigos, esse é um filme sobre marcianos. Não, eles não são cabeçudos e verdes, mas uma coisa gelatinosa tentacular super forte, saída diretamente de um conto de Lovecraft. Biologicamente composta de células que são musculares, neurais e sensitivas, o bicho é descrito como feito de músculos, cérebro e olhos, o que também pode ser entendido como o tipo de criatura com a qual você não gostaria de se ver preso em uma estação espacial (ou em lugar nenhum).

Uma das características mais notáveis de Vida é o elenco estelar, com nomes do calibre de Ryan Reynolds e Jake Gyllenhaal. Os personagens, por sua vez, são bem banais, seguindo padrões típicos de astronautas do cinema. Nada tão imbecil quanto os cientistas de Prometheus, mas nada lá muito memorável. Gyllenhaal é o único cujo personagem tem alguma profundidade cativante e incomum, sendo uma espécie de misantropo espacial, que chega a usar a Guerra da Síria como mote para seu ódio à humanidade.

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“Controle, tem um homem vestido de coelho fora da nave”

Pois bem, esse time de astronautas genéricos se mete em altas roubadas quando, após estimulada em laboratório, a forma de vida marciana aparentemente simples se transforma em uma monstruosidade super inteligente, com alta capacidade de adaptação e sobrevivência, crescimento acelerado e um instinto predatório natural, ou seja, um xenomorfo.

Aqui vai uma curiosidade para os fãs de Alien: o prefixo “xeno” significa estranho, estrangeiro (ou alienígena), ao passo que “morfo” significa forma, logo, qualquer extraterrestre será uma forma de vida estranha ou, um xenomorfo. É provável que, ao chamar a barata espacial de xenomorfo, o personagem que o fez apenas queria usar um nome mais científico e descolado para alienígena, mas num é que esse nome acabou pegando para se determinar a “espécie” do alien? Tipo aqueles ETS cabeçudos de olhos grandes são os Gray, os com formato de réptil são os Reptilianos, os mostrados em Alien, são os Xenomorfos!

Como mencionado previamente, o “xenomorfo”, ou a forma estranha, da vez parece uma amoeba lovecraftiana ultra-violenta, que causa um verdadeiro furor intergalático por onde passa. Batizado de Calvin, em uma das cenas mais toscas de 2017, o bicho parece desenvolver-se sem muito critério, ora parecendo uma bactéria carnívora e hematófaga, ora simplesmente um bicho serelepe, cruel e maldoso.

São pequenas confusões como essa que afetam Vida negativamente, porém o resultado final ainda é bem eficiente naquilo que se propõe, fornecer alguns arrepios e momentos de tensão em um ambiente hostil com uma forma de vida incompreensível e avançada, enquanto os personagens tentam lidar com as mesmas questões de sempre – “não podemos levar a criatura para a terra”, “fulano ficou preso do lado de fora”, “vamos mandar a criatura para o espaço”…

Há um clima nostálgico nisso tudo que, sem dúvidas, agradará tanto aos fãs do gênero, quanto ao grande público, mas que o mantém nessa categoria de filme divertido. Não que isso seja um demérito, afinal de contas é sempre prazeroso ter experiências do tipo nas telonas, principalmente quando se é apaixonado por monstros espaciais e astronautas.

Menção especial ao final do longa, que poderia ter proporcionado um dos momentos mais insanamente legais do ano, não fosse a escolha infeliz e acovardada de mostrar de menos.

3.5 tentáculos gelatinosos para Vida

Os marcianos tem, inicialmente, forma espermatozóica

Os marcianos tem, inicialmente, forma espermatozóica


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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