Review 2017: #29 – O Rastro

Dos melhores filmes do ano é nacional!


Como bem explicado no recente artigo traduzido por nós aqui do 101HM, a consciência política e social sempre se fez presente no horror, seja de modo direto ou indireto. O gênero mais livre e criativo é também o mais crítico. Como espelho de uma geração muito atenta e analítica à todos aspectos inerentes de nossas vidas, ótimos filmes são lançados,  deixando muito mais claro e nítido a reivindicação que seus realizadores querem transmitir nas telas.

Sala Verde, Always Shine e o mais recente Corra! são ótimos exemplos de filmes que literalmente jogam na cara um problema social e que te fazem no mínimo refletir, mas engana-se quem pensa que filmes inteligentes e atuais se fazem só na gringa. Prova disto é O Rastro que chegou para literalmente lacrar que, o cinema nacional, também está atento e voltado à nossa realidade.

Com uma co-produção da Orion Pictures (lendária produtora responsável por obras como Amityville 2 – A Possessão, Rambo e A Volta dos Mortos-Vivos), o filme conta a história de João (Rafael Cardoso), um médico que agora trabalha na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro e fica com a tarefa de coordenar uma operação que visa o fechamento de um antigo hospital e a devida remoção e transferência dos pacientes que lá restam para outros locais, mas neste processo uma criança, o qual ele prometeu cuidar, some sem deixar vestígios e o jovem rapaz se vê em meio a uma busca para encontrar a menina.

O Rastro possui uma ótima fotografia, com efeitos e atuações dignas de grandes suspenses estrangeiros, como os espanhóis O Orfanato e Os Olhos de Júlia. A ambientação é precisa, até pela escolha do estreante diretor em filmar em um hospital abandonado, com muito mais histórias do que com certeza podemos imaginar. As atuações, principalmente de Rafael Cardoso, são de tirar o fôlego e ainda contamos com a ótima participação de Domingos Montagner, morto no final do ano passado.

A privacidade foi pro ralo mesmo

A privacidade foi pro ralo mesmo

O roteiro é outro ponto que eleva o filme e te faz andar numa montanha-russa de altos e baixos, mas sempre deixando aquela sensação desconfortável de que algo vai acontecer, mas por mais que fique matutando, não consegue montar uma linha de raciocínio que faça sentido em tentar desvendar o mistério. A cada nova revelação, um novo segredo também é descoberto. Toda essa ambientação do filme, por mais macabra que seja, não passa nem perto do pano de fundo em que o longa é embasado: a saúde pública.

Não é novidade nenhuma que o Rio de Janeiro – e todo o Brasil – passa por uma crise séria na saúde pública, que beira à calamidade. Há meses, o estado do RJ não possui mais verbas para pagar os funcionários públicos, quanto mais manter hospitais e ao mínimo diminuir a fila de espera que mata muito mais do que qualquer filme slasher. O Rastro toca na ferida deste problema e mostra muito bem como o sistema é podre e falido, bem como as corrupções fortalecem os mais fortes e  como a política está por trás dos mais inimagináveis sórdidos crimes. Quer clima mais propício para um digno filme de terror que o atual cenário sócio-político nacional?

Há uma citação do simpaticíssimo Rodrigo Aragão – que também já mostrou a realidade dura de alguns brasileiros esquecidos em Mangue Negro –  que eu sempre recordarei: “Os anos 70 foram dominados pelo italianos. Os anos 80 pelos americanos. Os 90 e começo dos 2000 pelo cinema oriental e o extreme horror do cinema europeu. A década seguinte pelos reboots, remakes e afins. Por que não os próximos anos poderão ser dominados pela América Latina com o Brasil como um grande expoente?” Difícil, porém uma cena possível.

Atmosfera, atuação, roteiro e uma cinematografia impecável dão a O Rastro todas as características para ser considerado um marco do cinema nacional, pois conseguir te deixar sem fôlego e sem chão ao final da projeção, é definitivamente para poucos.

5 leitos para O Rastro

#Medo!

#Medo!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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