Review 2017: #30 – A Dark Song

Quando comunicar-se com o céu é tão perigoso quanto o inferno


Dentre os diversos movimentos que compõem o terror contemporâneo, a luta pela alma humana parece ser uma das mais fortes tendências, tanto no cinema mainstream quanto no independente. Diversos filmes têm abordado um mal profano, bíblico, que busca macular e corromper estruturas familiares e, particularmente, a mulher, em um aparente retorno ao episódio de Eva e o fruto proibido. Longe de ser novidade, esse movimento parece ter força especial nos dias de hoje, tanto pela explosão de bilheteria causada pelo trabalho de James Wan, quanto por uma tendência do cinema independente em espelhar transformações sociais, que se traduz em sucesso em festivais e premiações.

Em voga temos um momento de reformulação da posição mulher na sociedade e a consolidação de novas configurações familiares, a título de exemplo, o que se reflete tanto de forma mais conservadora (Invocação do Mal 2) quanto libertária (A Bruxa). É difícil falarmos disso como se fossem tendências conscientes, pois muitas vezes não o são, mas isso não torna a observação menos válida ou relevante.  

Em A Dark Song – ou, “Uma Canção Negra” em tradução literal, o estreante Liam Gavin retoma essa luta pela alma humana de forma ritualística e metódica. O longa, que é de origem irlandesa, acompanha um processo de invocação de forças do além orquestrado por Solomon (Steve Oram), um ocultista problemático, à pedido de Sophia (Catherine Walker), uma mãe desesperada, que almeja se comunicar novamente com o próprio filho, que havia sido sequestrado e morto há pouco. Mais que uma tentativa de falar com os mortos em uma sèance, ou sessão espírita, o ritual em si visa levar a demanda dessa mãe em luto até seu próprio anjo da guarda, que teria poder para conceder um desejo para cada envolvido, caso obtivessem sucesso.

Como Dante Alighieri bem nos ensinou em sua Divina Comédia, o caminho até o paraíso passa pelo inferno, de forma que a jornada de Sophia não poderia ser diferente: para encontrar seu próprio anjo, ela terá de enfrentar alguns demônios, tanto metafóricos quanto literais.

Nos primeiros minutos de projeção, enquanto acompanhamos os créditos, somos introduzidos à um cenário encantador nas planícies irlandesas e à casa imensa onde tudo há de acontecer. A protagonista Sophia nos é apresentada como uma mulher séria, sisuda e com objetivos claros. Precisa comprar a casa à qualquer custo, pois ela preenche todos os pré-requisitos que ela busca, que incluem um número grande de cômodos e uma sala com janelas apontando para o leste. Bem específico, né? Pois tais especificações da casa foram todas fornecidas de antemão por Solomon, homem rude e anti social, capaz de comportamentos, no mínimo, dignos de repulsa, porém, especializado em ocultismo e rituais.

A firmeza absoluta com que encara as provações deste feitiço é o primeiro traço bem delineado de Sophia, antes mesmo de sabermos qualquer pormenor de sua tragédia pessoal. Ao invés de separar um arco com flashbacks, ou um único momento de diálogo expositório, as informações sobre a morte de seu filho são reveladas em pequenas doses, ao longo do filme, sempre lidando com um certo mistério, ou algo mal contado.

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A legítima chuva dourada

Sem essa preparação inicial ou necessidade de se estabelecer os personagens antecipadamente, a produção se concentra em três momentos distintos, correspondentes à uma estrutura de três atos, que são a preparação, execução e consequência do rito de invocação.

Ao longo do primeiro momento, as personalidades, motivações e objetivos aparentes desses personagens são construídos sem recorrer a formas muito expositivas, como mencionado anteriormente. A narrativa sempre caminha adiante e pouco a pouco nos acostumamos a essas figuras pouco afáveis – a frieza dela sempre encontrando um adversário no sarcasmo dele. Também vemos a estipulação do clima minimalista que vai ditar todo o ritmo de A Dark Song. Como em um dia nublado e frio, não há espaço para diversão ou humor, somente um constante sentimento de que uma tempestade se aproxima, algo semelhante à atmosfera vista em The Blackcoat’s Daughter ou  A Bruxa.

Porém, é no segundo momento que o longa se lança para um patamar mais alto. Há por aí um número finito, mas imenso, de obras cinematográficas que abordam processos ritualísticos envolvendo círculos concêntricos, velas, sacrifícios e etc. Aqui, o método é lento e demanda uma dedicação física e mental que pode perdurar por semanas. Existem menções à cabala e ao cristianismo, mas as origens específicas daquilo que é visto me fogem a compreensão. O esforço dedicado à criação desse procedimento é obsessivamente metódico e complexo e parece ir sempre de encontro com um único elemento – o desejo da mulher. Enfrentando provações constantes, Sophia por muitas vezes se vê perdida, desacreditada, tamanha a dificuldade de tudo que passa. Suas motivações e desejos mais íntimos guiam sua jornada, mas são colocado em cheque por ela mesma, pelo ocultista e pelas primeiras manifestações do sobrenatural.

Apesar de envolvente e bem construído, o desenvolvimento dos primeiros atos é bem lento e sereno. Os minutos finais guardam a parte mais metafísica e de difícil aceitação, com as consequências do sucesso (ou, fracasso?) do ritual. Atente-se para as ambiguidades aparentes nessa reta final, será que o feitiço foi realmente bem sucedido? O que foi determinante para tal?

Aqui entrarei em um âmbito mais pessoal. A resolução da trama traz de volta a ideia da luta pela alma humana que descrevi inicialmente e, sem dúvida alguma, apresenta um clímax totalmente fora da curva. Dentre os poucos milhares de filmes que já assisti, nunca me deparei com nada igual. Não entrarei em spoilers, pois o que se passa é bem claro e não um final aberto, mas ainda assim, uma conclusão muito diferente… mas que não necessariamente me agrada. Uma linha muito tênue separa a grande cena do filme do absolutamente fantástico e do ridículo. Considerando a obra como um todo, tenho me inclinado a considerá-lo um ótimo final, apesar de moralmente não me agradar completamente.

Carregado de uma atmosfera densa e trágica, com muito de seu peso sustentado sobre os ombros de dois atores muito talentosos, A Dark Song entra para o hall dos grandes filmes de terror da década. Em relação ao fechamento, posso dizer, com segurança, que será o ponto máximo de discordância e discussão em relação ao longa, mas que, de uma forma ou outra, o alça à um patamar díspar só pela ousadia.   

PS* O filme atualmente conta com um percentual de aprovação crítica de 88% no agregador de críticas Rotten Tomatoes. Apesar de acreditar que tais números devem ser vistos com parcimônia, vale notar o grande número de filmes de terror que caíram na graça da crítica recentemente.

4.5 círculos mágicos para A Dark Song

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Aquele momento em que a entidade faz uma oferenda pra você


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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