Review 2017: #32 – Ao Cair da Noite

Sejam bem-vindos ao mundo pós-apocalíptico mais fúnebre de que se teve notícia


Sem muitas delongas, começo este texto com uma afirmação cheia de implicações: Ao Cair da Noite é A Bruxa de 2017, ao mesmo tempo que não o é. Pois bem, nos próximos parágrafos irei discutir essa afirmação, comentando sobre vários aspectos do longa, mas sem entregar nenhum elemento chave. Atente-se para o fato de que a obra da vez se beneficia da surpresa, então mantenha-se longe dos trailers e teasers. Evitarei expor muitos detalhes relativos ao enredo pelo mesmo motivo.

Joel Edgerton interpreta um pai de família, que vive isolado com mulher e filho no meio de uma floresta, escondendo-se de algo que parece uma praga letal transmitida pelo ar. Cercados de paranóia, eles são forçados a viver em um mundo depressivo e pós-apocalíptico, em que algo parece espreitar nas sombras, noite após noite. Ocasionalmente, a solidão desse trio cede lugar à uma nova família, estruturalmente similar – pai, mãe e filho -, porém mais jovens. A desconfiança, por sua vez, nunca sai de cena.  

O núcleo reduzido de personagens, associado ao cenário ermo, ressaltam o sentimento de isolamento que perpassa o filme. Dentro dos limites da floresta, a humanidade parece figurante, passageira e sem importância. Há uma imensa semelhança de cenários com A Bruxa, de Robert Eggers, o que chama a atenção não apenas pela estética, mas também pela forma imponente com que as árvores parecem confinar os personagens, ao mesmo tempo que ocultam algum mal assustador demais.

Essa ambientação facilita a criação de um jogo de sombras que é fundamental para viabilizar a atmosfera almejada. O longa parece estar imerso em penumbra do começo ao fim, de forma que sempre há um conteúdo que nos é escondido nessas imagens. Em muitos momentos com os personagens em cena, a sombra recai sobre o rosto dos mesmos, ocultando seus olhos, escondendo não apenas intenções, como também a própria doença, que tem como sintoma algum tipo de modificação na íris. Dessa forma, é impossível dizer quem mente, quem tem segundas intenções ou quem está infectado.

Um homem latino aparece como um invasor misterioso. Contornos políticos como esse perpassam o filme

Assim como visto em A Bruxa, há algo de podre embrenhado na escuridão, que é impossível de identificar, apesar de provocar anseios diversos nos personagens e espectadores. Apesar disso, enquanto no filme de Thomasin e do bode Black Phillip, a ameaça é revelada como sendo o próprio capeta, aqui somos deixados totalmente no escuro sobre a fonte dos problemas – seria loucura, doença, o mal, a paranoia? O roteiro é brilhantemente provocante e levanta uma série de questões simples, suficientes para gerar um sentimento de dúvida sobre tudo que se passa. Não há, no entanto, qualquer intenção de responder esses questionamentos.  

O jovem e talentoso Trey Edward Shults, que dirigiu e roteirizou Ao Cair da Noite, optou por um caminho realmente ousado com esse filme, que será o ponto máximo de discordância para muitos, especialmente entre público e crítica. O autor focou inteiramente em criar uma atmosfera lúgubre e carregada de paranoia, em que o espectador ficasse tão perdido e perplexo quanto os personagens. Em outras palavras, os mistérios ficam intencionalmente sem solução e só é possível conjecturar sobre o que diabos está se passando. As várias sequências de sonhos são, sem dúvida, a parte mais enigmática de todo esse quebra-cabeças.

Ano passado, o filme de Robert Eggers causou imenso incômodo entre o grande público por ser um filme pouco preocupado em mastigar seu conteúdo para fácil digestão. Ao Cair da Noite é ainda “pior” nesse quesito, o que me leva a crer que ambos os filmes terão a mesma recepção por parte das mesmas pessoas. A dica da vez é, atente-se a forma e não ao conteúdo, e se filmes abertos não são sua praia, fique longe daqui. Vale notar ainda que os trailers não servem de referência para o filme em si, pois focam em elementos sem tanta relevância. Portanto, evite-os.

Com a aproximação do fim de semestre, já é possível apontar os melhores filmes de gênero do ano até agora. Com um tom sepulcral e pesado, que deixou uma sessão de jornalistas no mais completo silêncio ao final, Ao Cair da Noite lidera a lista. Dificilmente teremos a chance de encontrar uma obra mais atmosférica que essa nos cinemas. E para aqueles que ficarem curiosos com o trabalho de Shults, seu penúltimo filme Krisha, recebeu só críticas muito positivas, inclusive por pessoas da nossa equipe!

5 portas vermelhas para Ao Cair da Noite

Joel Edgerton mostrando que seria a escolha perfeita para uma adaptação cinematográfica de The Last of Us.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. PRECISO MUITO VER !!Foram apontadas muitas semelhanças com o “A Bruxa” e “A Bruxa de Blair”.Se possível façam o review do filme “Raw” de 2017!!

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