Review 2017: #34 – Tonight She Comes

Taí um dos candidatos aos piores filmes do ano…


Logo que você dá o play para assistir Tonight She Comes, surge um lettering emulando o excelente O Assassino da Furadeira de Abel Ferrara, indicando que este filme deve ser assistido alto. Ou melhor, infernalmente alto.

Esse aviso, seguido de uma cena de abertura incrível, onde algum tipo de feto demoníaco mutante está nascendo do ventre de uma garota sozinha e desesperada  na escuridão de uma floresta à noite, e para se livrar do que diabo seja aquilo, resolve abrir o bucho com uma faca, coloca o espectador na esperança de que está por vir mais um daqueles ótimos filmes throwback da nova safra do cinema indie de terror americano. Não demora CINCO minutos para você descobrir que está completamente enganado, e a próxima e insuportável uma hora e tralalá irá jogar na sua cara, sem medo algum em ser leviano, um dos candidatos a pior filme do ano.

Tudo bem, vale o esforço do diretor, roteirista, editor e faz tudo, Matt Stuertz, que têm de ser reconhecido, pois há uma paixão pelo descalabro ali, mas sinceramente, mesmo que propositalmente não se leve a sério em nenhum momento, figurando com um típico filme de cabana + satanista + slasher dos anos 80, onde se vê um potencial imenso ali completamente desperdiçado, não passa de uma produção que se vale apenas do MAU GOSTO descarado, um roteiro sem pé nem cabeça qualquer nota, muito, mas MUITO gore, nudez, personagens estúpidos que desafiam qualquer nível de suspensão da descrença, e completa falta de bom senso.

Mas o duro mesmo são os personagens e seus respectivos atores. É simplesmente IMPOSSÍVEL aguentar mais que 10 ou 15 minutos daquele quarteto de protagonistas que domina a tela na primeira metade, onde fiquei tentado, mais de uma vez, a desligar o reprodutor de vídeo. Depois daquela cena inicial fora da curva, somos apresentados a dois imbecis: James, que é um carteiro (!!??) que entrega correspondências em algumas casas nos rincões americanos, e seu melhor amigo punheteiro, Pete. Ao mesmo tempo, duas amigas millennials rebeldes sem causa, Ashley e Lyndsey, estão dirigindo à noite na estrada, tomando cerveja, indo para a cabana encontrar outra amiga, a Kristy, exatamente aquela mina lá da sequência no começo, que não atende o celular, e a gente sabe que deu ruim.

Pegue essa sequência: James deixa Pete no meio da floresta enquanto vai terminar seu trabalho de carteiro e chegando em uma daquelas casas creepy-clichê-abandonada no bosque, resolve deitar na rede e TIRAR UM COCHILO (quem nunca, não é?) enquanto as minazinhas chegam, e já estendem a canga na beira do lago para tomar sol de topless, enquanto do outro lado da margem, Pete saca uma LUNETA do bolso (porque todo mundo carrega uma, não é mesmo) para stalkear as duas enquanto toca uma. Ao ser pego no flagra, tenta fugir e se embrenhando entre as árvores, encontra o corpo nu de Kristy no chão desfalecido, e resolve pegar o iPhone dela, tirar uns nudes (sabe-se lá como e desbloqueou…) e até ligar para as duas amigas.

CORRÃO!

Enquanto isso, Pete acorda da soneca com o braço todo cortado, não dá a mínima (e aparentemente nem doi…),  e começa a beber com as garotas, que também não estão nem aí para o sumiço de Kristy que não atende o telefone, e tampouco se abalam quando ouvem um grito de desespero vindo do mato e em seguida vêm a amiga peladinha, que aparentemente não está morta, entrando no rio de boas e desaparecendo. Ficam ali mesmo até escurecer, bebendo, tentando transar de qualquer jeito, até que finalmente a moça sai da água, como vem ao mundo e toda coberta de sangue (detalhe que ela vai passar o restante do filme assim…), e a gente descobre que ela está possuída por alguma força sobrenatural maligna, mas parece que ninguém se abala ou se assusta muito com isso não, viu.

Bom, se você conseguir aguentar TUDO isso, sem sentir vergonha alheia dos atores e realizadores, a fita até que levemente melhora nos quarenta minutos finais, onde somos apresentados a uma família de rednecks satanistas (a mina me lembrou o Cássio, goleiro do Corinthians), e segue com um verdadeiro banho de sangue sem precedentes que vai respingar até para fora de sua televisão (a maquiagem realmente está muito decente) e umas mortes bem das violentas, inclusive uma homenagem descarada a Sexta-Feira 13 Parte 7 – A Matança Continua.

O problema é, quando o filme poderia mudar completamente o tom e nos apresentar mais um daqueles ótimos, climáticos, assustadores, minimalistas, e pesados filmes satânicos que vem sendo produzidos ultimamente, com uma trilha sonora monocórdia de sintetizadores oitentistas carpentianos que vem sendo usado à rodo, desde Stranger Things à Corrente do Mal, o exagero descabido e afetação continuam rolando soltos, com direito até a um ritual usando sangue menstrual e uma tanto de situações ridículas e vexatórias, tudo em prol do choque e do splatter.

Ao terminar de assistir a esse remendão de clichês sem graça (apesar de tentar ser hilário), pretensa tentativa de ser trash, desnecessariamente apelativo, sem o menor sentido e momentos constrangedores, que com todo respeito, não cabem em um filme de horror que se preze em 2017, ainda mais se comparado ao alto nível de produção nessa pegada lançados ultimamente, Tonight She Comes foi aquela típica película que foi praguejada e depois dessas palavras escritas nessa tela, terá sua existência completamente esquecida por esse que vos escreve, a não ser possivelmente na hora de conversar com os amigos ou fãs do horror, elencando os piores do ano.

 

2 rituais usando sangue de menstruação para Tonight She Comes

Não fala pra ninguém desse filme…

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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