Review 2017: #35 – Tank 432

Quando o inimigo é mais íntimo que se imagina


A vulnerabilidade do ser humano só é realmente compreendida talvez no último momento de nossas vidas ou durante alguma situação extrema ou desesperadora. Esta condição faz com que a viagem ao subconsciente seja tão profunda e densa que pode libertar todos os sentidos uma vez adormecidos.

Não é novidade dizer que o cinema – principalmente o fantástico, com toda a sua liberdade criativa – sempre acompanhou o cenário político sócio-cultural que está inserido, mas hoje em dia esta premissa se mostra cada vez mais intensa, seja de modo delicado ou deliberadamente escancarado. Tank 432 ou Belly of The Bulldog é um exemplo de filme que consegue mesclar entretenimento com filosofia e história – no melhor sentido da palavra -, repúdio pela empatia e o pessimismo com uma ponta de esperança, tudo posto com muita sutileza e cuidado neste ótimo thriller.

Na trama somos apresentados a um grupo de mercenários transportando duas mercadorias – leia-se reféns – enquanto também precisam lutar por suas vidas contra um inimigo misterioso, porém incessante e mortal. Em seu caminho ao desconhecido encontram uma moça trancada num container ouvindo música. Ao desligarem a velha vitrola, a garota entra em pânico, necessitando ser sedada. Sem muita opção, levam-na  consigo. A noite vai chegando e, para fugirem do inimigo que se aproxima, encontram no meio do nada um tanque enferrujado de modelo Bulldog. Uma vez enclausurados, os mesmos serão postos em prova contra uma tensão claustrofóbica que é crescente, mas também uma batalha versus seus egos e a si próprios.

Não há dúvida nenhuma que fazer um filme é uma tarefa árdua, mas realizá-lo e idealiza-lo para que a trama se desenvolva num único local é com certeza muito mais difícil. O estreante Nick Gillespie consegue contornar esta adversidade com maestria, tanto pelo roteiro, que também assina, quanto pelas ótimas interpretações de TODOS os envolvidos. Digo TODOS os atores e atrizes, pois é raro ver um filme em que ninguém se sobressaia a ninguém mas que todos se completam e formam um grande time, dando aquela química necessária e conseguindo transmitir exatamente o sentimento proposto pelo longa.

Lá vem o sol…

A cinematografia é de encher os olhos. Planícies, florestas, visões alucinógenas, corpos, noite e dia são muito bem explorados, somado ao espetáculo visual que o diretor nos entrega. Gillespie sabe o que faz e já havia provado em seus trabalhos anteriores com o diretor Ben Wheatley – que aqui cuida da produção executiva – em seus filmes Kill List e No Topo do Poder.

Lá em cima, disse que esta obra consegue mesclar o entendimento básico daquilo que se vê em tela com diversas interpretações sobre o quê ou qual propósito do realizador ao nos mostrar tal conflito ou situação, traçando um paralelo com a vida moderna. Isso abre ao espectador uma ampla gama de possibilidades para uma série de discussões benéficas à reflexões sobre o cotidiano e a nós mesmos. Esta é a beleza de Tank 432.

Longe de querer comparar Gillespie ao icônico Alfred Hitchcock, porém para quem já viu o clássico Um Barco e Nove Destinos pode facilmente encontrar similaridades, principalmente na questão do confinamento e conflitos de egos, onde a verdadeira natureza humana se sobressai. Estudos de caso sobre o comportamento, emoção e razão são indubitavelmente encontrados aqui. Críticas à indústria bélica, poder e regime totalitarista também aparecem no longa. Seria estranho este filme ter saído na mesma época de tamanha intolerância ideológica?

Ótimo, Tank 432 emana de seu niilismo a esperança de que após uma longa introspecção, podemos nos tornar mais agradecidos, bem como mais críticos.

 

4,5 alucinações para Tank 432

Cabra cega


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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