Review 2017: #36 – Raw

Os prazeres da carne no mundo contemporâneo


Há no horror contemporâneo um seleto grupo de mulheres cineastas que vêm conquistando um espaço de destaque há muito merecido. De Ana Lily Amirpour até as Irmãs Soska, essas novas vozes vão do cinema indie arthouse ao bom e velho slasher. Fazendo coro ao movimento, a francesa Julia Ducournau nos agraciou com um filme que instantaneamente se alça ao topo da minha lista de 2017: Raw.

Justine (Garance Marillier) é uma jovem e franzina moça francesa que ingressa em um renomado curso de veterinária, seguindo os passos de sua mãe e irmã mais velha. A menina, que é vegetariana e virgem, se vê diante de uma série de desejos e impulsos até então desconhecidos para ela, conforme seu primeiro semestre acadêmico de desenrola. Justine precisa lidar não apenas com a sexualidade que se aflora, como também com um ímpeto canibal que surge após um trote na faculdade, que a compele a atos de brutalidade.

Por se tratar de um longa de horror francês com uma descrição que envolve a palavra “canibal”, é possível imaginá-lo como uma inclusão tardia à nem tão nova onda do new french extremity. É preciso lembrar ainda que, em suas primeiros sessões, ainda em 2016, Raw provocou reações bem desagradáveis no público, com direito a vômito e tudo.

Particularmente, não acredito que este faça parte do movimento supracitado. A violência gráfica é situacional, apesar de pesadíssima, o que já vai de encontro com os banhos de sangue da onda extrema. O horror aqui é notadamente relativo ao corpo, característica usual do cinema da França. Semelhante ao que acontece no body horror, há um estranhamento frente à carne, mas sem as transformações grotescas do primeiro.

O primeiro contratempo de Justine na faculdade é a conduta agressiva de seus veteranos (incluindo aí sua irmã), que executam práticas degradantes, semelhante aos casos de que ocasionalmente ouvimos falar nos jornais. O excesso de crueldade para com os calouros contextualiza um universo violento no qual o distúrbio da protagonista parece não ser assim tão grave. Distúrbio esse que é caracterizado pela voracidade e pelo gosto pela carne crua, – tradução da palavra raw – carne humana em especial.

Olha o naipe do trote universitário na França!

Esse anseio carnívoro-canibal gera algumas cenas particularmente nojentas e desagradáveis, incluindo o consumo de carne crua. Com toda certeza é aí que reside a repugnância capaz de provocar vômitos e desmaios, e não da mutilação, que é bem pouca. O público mais atento ao horror francês pode encontrar aqui alguma semelhança com o longa Em Minha Pele, que também trazia em cena uma mulher com um distúrbio alimentar peculiar.

A atração pela carne também acontece no sentido figurado, com a descoberta de um ímpeto sexual associado ao desejo. A transa, para Justine, é um momento de consumação em vários níveis. Tomando como base uma perspectiva freudiana, observo aqui um embate entre pulsões. De um lado, a pulsão de morte compele a garota a atos extremos de destruição e autodestruição, na forma deste consumo desesperador e comportamentos irresponsáveis. Em contrapartida, ela passa a se sentir atraída sexualmente pelo colega de quarto, esboçando um desejo oposto, de preservação e vida, representado pelo ato sexual. No entanto, essas duas pulsões se misturam e se confundem o tempo inteiro. Justine parece obter prazer sexual no consumo da carne e voracidade durante o sexo.

Não há qualquer sinal de explicação ou informação que facilite o entendimento do que acontece com as garotas, abrindo a possibilidade para múltiplas interpretações. Pessoalmente tenho inclinações ao sobrenatural e macabro, de forma que prefiro imaginar que há realmente uma anormalidade na protagonista do que seguir o caminho da metáfora. É comum associações do filme com o tema do vegetarianismo, considerando que a transformação da personagem em uma devoradora de homens se dá após experimentar carne pela primeira vez, mas acredito que este seja mais um pano de fundo moderno, do que o tema central do filme, que acredito piamente ser o corpo.

Raw possui estética e estilo muito mais contemporâneos e condizentes com o movimento cinematográfico atual, para além do terror, que a recente safra do new french extremity. E não acredito que seja coincidência os dois filmes de gênero dirigidos por mulheres mais comentados do momento – Raw e The Bad Batch – envolverem canibalismo, personagens marginais e a condição humana colocada em cheque.

4.5 bifes de perna para Raw


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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