Review 2017: #42 – It: A Coisa

Caso raro de uma adaptação que deu certo é, quiçá, o melhor filme de terror do ano


Se você se lembra da minha contagem regressiva para a estreia de It: A Coisa você sabe que eu estava alimentando altas expectativas para o filme. Porém, mesmo sabendo de coração que essa nova versão tinha tudo para dar certo, devido a todos os fatores positivos envolvendo a obra, ainda assim rolava aquele medo do negócio dar errado.

Sacomé, gato escaldado tem medo de água fria e, depois de quebrar a cara um sem número de vezes me empolgando com filmes – principalmente baseados na obra de Stephen King – que no final eram bem ruins, era normal uma pontada de desconfiança, mesmo que pequena. Apesar de todo esse otimismo para com a história, essa sensação de desconfiança cresceu de maneira absurda assim que entrei na sala do cinema. Eu já estava pensando na maneira como eu viria, com o rabo entre as pernas, dar as más notícias para os leitores do 101HM e dizer que, mais uma vez, nos empolgamos a toa. Ledo engano.

FELIZMENTE, É UM FILMÃO DA PORRA!

Há tantas qualidades aqui que eu nem sei por onde começar a falar, mas juro que tentarei ser o menos fangirl possível, ok? Confesso que foi muito difícil para eu analisar o filme de maneira mais técnica, pois a cada minuto eu tinha um mini ataque cardíaco enquanto assistia, afinal, cês já sabem que A Coisa é meu livro favorito da vida, tanto que eu já o li sete vezes (não me julgue!). No entanto, o filme funciona muito bem até mesmo para quem nunca leu a Bíblia de Stephen King, justamente pela direção certeira de Andrés Muschietti e pelo desenrolar preciso da narrativa.

A curiosidade matou o gato…

O filme já começa com a emblemática cena em que Georgie (Jackson Robert Scott) recebe de seu irmão mais velho, Bill (Jaeden Lieberher) o famigerado barquinho de papel e sai para as ruas de Derry, no Maine, para brincar nas enxurradas formadas por uma forte chuva. Lá, como já sabemos, ele tem o fatídico encontro com Pennywise, o Palhaço Dançarino (Bill Skarsgård), numa cena bem diferente da apresentada em It – Uma Obra Prima do Medo,com um desfecho bem mais violento..

Passado um tempo, Bill ainda não desistiu de encontrar seu irmão desaparecido. Pesquisando com uma planta roubada do escritório de seu pai, ele acredita que o irmão pode ter ido parar no Barrens, uma área verde afastada do centro, onde todos os esgotos da cidade desembocam. Nesse meio tempo, ele reúne seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things) o desbocado da turma, Eddie Kaspbrak (o excelente Jack Dylan Grazer) frágil e sempre assustado, o meticuloso Stan Uris (Wyatt Oleff), e juntos passam boa parte do tempo no córrego, aproveitando o começo das férias de verão.

Também conhecemos Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) que sofre nas mãos do valentão da escola, Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua trinca de amigos Belch, Victor e Patrick, que aterrorizam o pobre Ben por ser, além do extrapeso, é o novato na cidade. Junta-se aos garotos a bela Beverly Marsh (Sophia Lillis), que também tem uma vida conturbada, pois além de lidar com o slut-shaming das meninas do colégio, que inventam coisas absurdas sobre sua vida sexual, ainda vive com o pai abusador e agressivo e Mike Hanlon (Chosen Jacobs), um garoto negro e humilde que vive numa fazenda com seu avô, e aí está formado o Clube dos Otários.

Alô, criançada, o Bozo chegou… não, péra!

Juntos, começam a perceber que há algo muito estranho na cidade, pois, além de Georgie, uma série de crianças e jovens estão desaparecendo sem deixar vestígios. Ben, estudioso como ele só, fez uma mega pesquisa sobre a cidade de Derry, e descobre que há alguns eventos violentos na cidade, que acontecem esporadicamente (a cada vinte e sete anos), e que sempre envolvem acidentes, chacinas e muitas mortes. Decidem, então, investigar essa entidade misteriosa que parece morar nos esgotos subterrâneos da cidade, e que está ceifando a vida de muitas crianças, o que culminará num embate entre o Clube dos Perdedores e a Coisa.

Os atores do núcleo infantil do filme são excelentes, e conseguem transmitir exatamente a sintonia que o Clube dos Otários tem no livro de King. Além de entrosados, eles dão um show de interpretação. Por falar em interpretação, quem surpreende positivamente é Skarsgård, que está assustador no papel do temido palhaço. Claro que sempre vai rolar uma comparação com Tim Curry, que interpretou o Pennywise na primeira adaptação, mas pra mim esse novo palhaço vai realmente assombrar a mente dos coulrofóbicos de plantão.

Dando uma mãozinha.

Mesmo gostando muito do resultado final, também consigo enxergar alguns pontos negativos na película, como por exemplo, as discrepâncias em relação ao livro e uma certa quantidade de liberdades poéticas. O trio de roteiristas responsáveis pela adaptação, Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, também optou por modificar a cronologia da história: ao contrário do livro, que se passa no verão de 58, aqui a infância dos Otários se passa em 1989, então se prepare para mais um filme com um clima de total throwbacks, puramente oitentista, cheio de referências da cultura pop da época, como posters de filmes, camisetas, letreiros de cinema dos filmes da época, além da excelente trilha sonora, que vai de The Cult a New Kids On The Block.

Apesar do clima divertido e dos alívios cômicos, não desaponta no quesito horror. Com quase nenhum jumpscare, fato raro no cinema comercial do gênero na atualidade, o lado assustador do filme é calcado nas cenas gráficas a construção de atmosfera, onde você fica realmente tenso com o que se vê nas telas. A conclusão do filme, num primeiro momento, foi um pouco decepcionante para mim, mas, depois analisando com calma, pude notar que foi muito condizente com o filme, mais pé no chão, ao contrário do final da primeira adaptação, que é um banho de água fria que destoa de todo o resto.

De um modo geral, acredito que o filme vá agradar tantos os fãs do escritor ganhador dos Troféus Golden, quanto quem gosta de um bom filme de  terror num geral. Aliás, até mesmo quem nunca ouviu falar de King (o que acho imperdoável, mas sei que acontece…) talvez fique interessado no trabalho do autor, pois o burburinho que tem causado é enorme, com livrarias fazendo eventos temáticos, uma pesada campanha de marketing da Warner e até mesmo virando pegadinha do Silvio Santos. Pra nossa sorte, o estardalhaço é proporcional à qualidade do filme.

Caso raro de uma adaptação que deu certo, entrando inclusive no ranking das melhores versões de uma obra do escritor para as telonas, It: A Coisa é, quiçá, o melhor filme de 2017. Saí do cinema com uma enorme sensação de satisfação, e já planejo ver novamente, pois se até o próprio King, que é bem crítico com as adaptações (vide a birra que ele tem com O Iluminado de Kubrick) já viu mais de uma vez, é porque realmente vale a pena.

Agora, só me resta flutuar enquanto espero ansiosamente pela segunda parte, prevista para estrear em 2019. Provavelmente, você flutue também…

 

5 balões flutuantes para It: A Coisa

Palhaço dançarino.


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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