Review 2017: #43 – Amityville: O Despertar

Matem todos…


Chegando aos cinemas brasileiros, Amityville: O Despertar quase se tornou lenda urbana. Anunciado em 2014, com lançamento previsto para o início do ano seguinte, a enésima parte da franquia da casa mais mal assombrada de todos os tempos desapareceu por quase três anos, período no qual voltou a ser anunciado como lançamento ao menos cinco vezes, sem nunca realmente dar as caras.

Os motivos nefastos e obscuros relativos ao mundo da produção e distribuição me são estranhos. Ainda mais estranho é o fato de que o longa parece ter sido lançado apenas em meia dúzia de países, do qual os Estados Unidos não fazem parte. Sim, a fita continua sem data de lançamento por lá e nós, brazucas, estamos entre os privilegiados. Taí um mistério que daria um filme por si só.

Como visto no artigo 43 anos de horrores em Amityville, O Despertar é a décima parte da franquia oficial, que conta com oito filmes na série principal e um remake. Entre um e outro, os elementos que compunham o horror daquela casal tomaram rumos distintos e aleatórios, contemplando apenas os interesses de suas próprias narrativas. Não havia uma sequência ou ligação lógica entre cada parte desse grande conjunto.

Frente ao desgaste inevitável, não apenas da franquia, mas também do subgênero casa mal-assombrada, a existência de OUTRO Amityville só poderia acontecer mediante uma ideia que trouxesse algum frescor, mais que necessário, àquele universo. E é exatamente isso o que Franck Khalfoun faz, ao menos em parte.

Eu depois de assistir Amityville Exorcism contando sobre o filme para os leitores do 101

Mudam-se para o icônico lar do mal uma família disfuncional, composta pela mãe solteira Joan (Jennifer Jason Leigh) e seus três filhos, os gêmeos James (Cameron Monaghan) e Belle (Bella Thorne) e a pequenina Juliet (Mckenna Grace). James é um jovem com danos cerebrais tidos como irreversíveis, causados por uma queda. Sua irmã Belle, tomada por culpa pelo acidente do irmão, é uma gótica (suave) revolts. A mãe negligencia as demandas das outras duas filhas em prol do jovem comatoso. Juliet é apenas fofa.

Este novo filme bebe da mesma fonte que O Novo Pesadelo, de Wes Craven, trazendo os personagens para o mundo real. Em outras palavras, todos os longas anteriores, inclusive o remake, são meramente filmes. Em determinado ponto, Belle e seus amigos organizam uma sessão de Horror em Amityville dentro da própria casa. Um desses jovens, Terrence, obcecado com a história macabra do local, leva para o encontro DVDs com as partes I e II e o remake, para uma sessão na hora macabra, às 03:15 da madrugada.

A treta no casarão 112 na Ocean Avenue, endereço REAL do lugar, começou lá em 74, quando Rony DeFeo fuzilou a própria família em casa, dizendo ter sido comandado a fazê-lo por forças maléficas. No ano seguinte, a família Lutz se mudou para o mesmo endereço, mas logo logo fugiu às pressas, temendo os fenômenos paranormais provenientes de um cômodo secreto descoberto no porão, chamado de “o quarto vermelho”. O notório e misterioso caso contou até com participação especial dos picaretas Warren, como visto de forma bem mentirosa em Invocação do Mal 2.

O longa se passa na data de sua produção, 2014, de forma que o enredo tem uma fraca ligação com o crime de DeFeo. Aparentemente, a casa esteve hibernando por 40 anos, tipo Pennywise em Derry. Infelizmente, esse lance das datas aparenta estar meio jogado ali dentro, sem muito desenvolvimento. Em sua última visita ao personagem Freddy Krueger nos cinemas, Craven encontrou na metalinguagem cinematográfica uma forma de injetar vivacidade em uma franquia que havia se perdido. É exatamente o mesmo que ocorre aqui, em menor grau, já que não temos o envolvimento do mestre.

Obra em casa é fogo…

Na prática, nem tudo são flores. A direção de Khalfoun é bem básica e presa em todos os tropos do horror de cinemão. Jumpscares, sequências de sonho, rostos desfigurados por CGI, tudo está presente. Salvo algumas imagens marcantes – o corpo atrofiado de James, por exemplo, resta apenas uma atmosfera excessivamente sóbria, que se despedaça com a atuação amadora de Bella Thorne, saída de algum filme de quinta categoria.

Há de ser considerado que o resultado final que chegará aos nossos cinemas passou por alguns anos de refilmagens e pós-produção. Apesar de ser até bem coeso, com começo, meio e fim, é perceptível pelos trailers que temos uma obra mutilada nas mãos. Em algum lugar ali dentro, há uma trama ainda mais interessante, quiçá até a melhor de todos os dez filmes.

Em comparação com o resto da série, Amityville: O Despertar não se destaca muito, mas também não chega ao fundo do buraco onde residem Amityville: Uma Questão de Hora e A Casa Maldita, por exemplo. Muito menos se aproxima do abismo cinemático do qual saíram os assustadoramente ruins The Amityville Asylum e The Amityville Haunting. Vale um ingresso de cinema em dia barato, pra quem curte um terrorzinho de leve e claro, pra quem é chegado na casa com janelinhas que parecem olhos.

Ah, e você ainda ganha ponto extra por valorizar os lançamentos “menores” do gênero nas telonas.

 

3 quartos vermelhos para Amityville: O Despertar

Preparando psicologicamente para as sequências não oficiais de Amityville


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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