Review 2017: #45 – O Último Capítulo

Um conto de fadas de terror que flutua entre o sensível e o mais puro medo


O horror que não é didático, daquele tipo que fica na entrelinhas e cheio de camadas subjetivas e mensagens, como é o caso do controverso Mãe! em cartaz nos cinemas, hoje em dia é cada vez mais comum. Junto dessa vertente, de modo velado, afloram críticas sociais que acompanham a situação sociopolítica e cultural que o mundo vive hoje – pior do que qualquer filme de terror, com certeza!

Subjetividade, segundo definição do dicionário, é uma realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo, comprometida com a apropriação intelectual dos objetos externos. Com uma produção original Netflix, esta, talvez seja a melhor característica de O Último Capítulo – título que não condiz EM NADA com o original que é I Am The Pretty Thing That Lives In The House, ou em tradução literal, “Eu Sou a Linda Criatura Que Vive Na Casa”.

Com uma trama aparentemente simplória, somos apresentados à Lilly (Ruth Wilson), uma enfermeira que é designada a cuidar da Sra. Blum (Paula Prentiss), uma aposentada escritora, que ao longo dos dias começa a escutar alguns barulhos estranhos na casa e, seguida de infiltração na parede que só aumenta, surgindo a desconfiança de que realmente há um fantasma ali. Este é o segundo filme de Osgood Perkins, filho do eterno Norman Bates, Anthony Perkins, que antes havia dirigido o também ótimo The Blackcoat’s Daughter.

Cabra cega

Totalmente imersivo, uma das características que fez meus olhos brilharem para este longa foram os falsos sustos. Após a geração James Wan ter feito os telespectadores pularem das cadeiras com os famosos jumpscares, O Último Capítulo, entre uma linda trilha sonora – composta por seu irmão Elvis Perkins –  e poeticamente fúnebres linhas de narração, o espectador é enganado a crer que a velha fórmula do susto fácil se aplicaria e fica esperando por algo que não acontece. Esta foi uma sacada de gênio,pois como não há um alívio para a tensão que se constrói durante o longa, ficamos refém de que seu subconsciente trabalhe num horror que transpõe à tela e nos pega de jeito.

Posso dizer também que o longa faz uma homenagem a ninguém menos do que Edgar Allan Poe. Mesmo para que nunca leu seus contos, mas viu as adaptações cinematográficas, verá que algumas similaridades são apresentadas aqui. O fato desencadeador da história ser uma escritora de livros de terror que relata um acontecimento da era vitoriana é muito similar às obras do Bigodinho, com toda sua parafernália gótica literária.

O ritmo lento favorece o roteiro, que passeia entre o presente, passado e futuro, onde apesar da narrativa não linear muito bem coordenada, pode ser um problema para algumas pessoas, que podem tomá-lo como chato, monótono e perca o interesse rápido. Quem assistir ao filme aguardando fantasmas perambulando à torto e à direita, se decepcionará completamente com o resultado, totalmente pessimista e introspectivo.

A fotografia é um show à parte. Quando Oz Perkins decide acompanhar os cômodos pelo quais percorre, ele o conduz a uma experiência sinérgica que faz com que a troca de lugar do espectador com os personagens seja totalmente involuntária. Palmas para o diretor de fotografia Demetri Portelli.

O terror gótico, uma vez popularizado pelas era de ouro da Hammer e Amicus, hoje em dia está escasso. Assim como A Colina Escarlate e A Cura conseguiram recriar este horror mais “refinado”, O Último Capítulo consegue juntar perfeitamente a linda, poética e sensível figura da entidade com a tensão, o macabro e o medo real de que algo o tocará. Um atmosférico e horripilante conto de fadas que ecoará a mente de quem o vê por muito tempo.

4,5 assombrações para O Último Capítulo

Perdida em meio à escuridão


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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