Review 2017: #47 – O Culto de Chucky

Vocês bem que gostariam que fosse apenas brincadeira…


Brinquedo Assassino é uma das principais franquias que compõem o cânone dos filmes de terror, ao lado de Sexta-Feira 13, Halloween, Hellraiser e A Hora do Pesadelo. Chucky tornou-se elemento integral da cultura pop, arrastando consigo um sem número de referências, homenagens e cópias ao longo dos anos. Apesar de Annabelle ter chegado com os dois pés no peito do Boneco Bonzinho, o apreço geral ainda está voltado pro brinquedo número um dos aficcionados pelo Fofão norte-americano.   

O Culto de Chucky é dirigido mais uma vez por Don Mancini, assim como os longas anteriores, A Maldição de Chucky e o O Filho de Chucky . Apesar do diretor Tom Holland ser muito associado ao boneco, Mancini é seu verdadeiro pai biológico, responsável pelo roteiro de todos os longas da franquia. É possível imaginar a série como três partes distintas: a trilogia original (88-91), a família de Chucky (A Noiva e O Filho) e a nova série, de 2013 até o presente. Novamente, Mancini opta por tom e temas mais sóbrios, na contramão do que havia sido feito no arco familiar do personagem, que adotou ares de paródia de si mesmos.

Aqui vai uma breve recapitulação dos eventos do filme anterior, pule o parágrafo se ainda não assistiu e quer se preservar dos spoilers:

Em Brinquedo Assassino, o assassino Charles Lee Ray é perseguido pela polícia e baleado. Antes que seu corpo morresse, transferiu sua mente para um boneco por meio de magia negra. A perseguição teve lugar quando Ray sequestrou uma grávida, Sarah, por quem ele era apaixonado, além de matar o marido da mesma. Em última instância, Ray acabou se voltando contra ela, esfaqueando-a na barriga, causando a paralisia no neném.

A menina cresceu para se tornar a cadeirante Nica. 25 anos depois, já no corpo de boneco, Chucky aparece para matar todos os entes queridos de Sarah e Nica acaba recebendo a culpa, sendo então internada como a “louca do boneco”. Em uma cena pós créditos, Chucky aparece na porta de Andy, o garotinho do filme original, mas na base da malemolência, já desconfiado, manda bala na figura de plástico.

O Culto de Chucky recapitula esse fatídico encontro e nos revela que Andy parece ter se tornado um sujeito anti-social obcecado, incapaz de arrumar um encontro amoroso por causa das quase quarenta mortes que aconteceram ao seu redor. Posteriormente, apresenta Nica em tratamento psiquiátrico avançado ao ponto dela acreditar que Chucky não existe e os crimes foram mesmo sua autoria.

Tal pai, tal filha!

O hospital psiquiátrico é de arquitetura bem minimalista, em perfeita consonância com o próprio filme, que parece sempre muito contido, fruto da seriedade com a qual Mancini lida com sua criação. Chucky é inserido no grupo e suas intenções para com ela vão se revelando aos poucos, mas há uma aparente intenção dele a atraira para o lado negro da força.

A personagem em questão é novamente interpretada por Fiona Dourif, a filha de Brad Dourif, intérprete do Charles Lee Ray humano e que deu voz à sua versão de brinquedo. O alto nível de qualidade alcançado pela franquia nessa nova fase deve-se claramente ao núcleo quase que familiar envolvido na produção, que manteve Brad Dourif e Alex Vincent como antagonistas por 30 anos, além do próprio Mancini e Jennifer Tilly, a Tiffany, que aqui faz seu retorno oficial.

O Culto… é uma fita que trabalha muito com diferentes atmosferas. Os efeitos práticos são muito, mas muito semelhantes aos anos 80. A movimentação de Chucky, que parece existir entre o animatrônico e o stop-motion, é especialmente afeito a essa década maravilhosa para o horror. Além disso, existe uma atenção minuciosa as composições de planos e algumas cenas, que o levam para longe do estilo engessado do terror mainstream. Há uma sequência, em particular, envolvendo decapitação, que é de uma beleza arrepiante, digna dos mestres do giallo.

A respeito de elementos que remetem ao terror setentista e oitentista, o filme vai além do mero cinema referencial, utilizando-se de ideias próprias para contar essa história de muitas reviravoltas, envolvendo gerações diferentes. A dinâmica entre Nica e Chucky é um dos pontos mais altos e o resultado final é sensacional, considerando o parentesco entre os atores.

Em compensação, Andy, o garotinho-que-cresceu, acaba ficando relegado ao segundo plano e sua participação torna-se quase que irrelevante, considerando este filme apenas. O final com um gancho gigantesco não só sugere, como exige uma continuação, para que o arco do personagem de Alex Vincent possa ter algum valor mais efetivo.

No mais, O Culto de Chucky surge como uma surpresa, assim como aconteceu com seu predecessor, acrescentando real qualidade à franquia e não apenas uma sobrevida, como tem acontecido com os filmes do Leatherface. Com algumas cenas realmente marcantes, é obrigatório para os fãs de horror, e o gore não decepciona.

4 facadas para O Culto de Chucky

Das melhores cenas de TODA a franquia!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Igor Lisboa disse:

    Os fãs, principalmente os brasileiros, ficaram revoltados com o filme, já os americanos ficaram divididos mas com menor intensidade, a crítica de terror adorou, então acho correto assumir que Culto é um filme polarizador.
    Mas particularmente eu gostei, a premissa, a reviravolta, eu gostei bastante, mas entendo os revoltados, porque a premissa desse filme joga toda a mitologia da trilogia original no lixo!!!!
    Ainda assim eu gosto, e acho que o filme funciona melhor se o telespectador abstrair e deixar a mitologia original de lado!!!!

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