Review 2017: #49 – Leatherface

A mais nova “nova história de origem” de O Massacre da Serra Elétrica


Leatherface e Chucky retornaram ao cinema praticamente na mesma semana nofinal de setembro. Um dando continuidade à um universo, outro tentando reiniciar mais uma vez uma história que já há muito tem girado sem sair do lugar.

Os escolhidos para tentar dar nova vida ao assassino da serra elétrica foram os franceses Alexandre Bustillo e Julien Maury, por quem tenho grande admiração. A filmografia da dupla vai de A Invasora até, mais recentemente, um dos segmentos de ABCs da Morte 2, que por sinal é um dos meus curtas favoritos. Como característica básica de seus trabalhos, vejo um apreço pela violência extrema e suja e pela destruição das instituições. Ora, afinal estamos falando de dois dos maiores expoentes do New French Extremity!

Se bem me lembro essa é a oitava incursão cinematográfica no universo criado pelo recém falecido Tobe Hooper, lá nos idos anos 70, incluindo os dois remakes. O foco central recai sobre a origem de Leatherface, cujo nome real é Jedidiah Sawyer, deixando o resto dos loucos canibais um pouco de lado. Bem, quase todos!

Datado em algum período supostamente anterior ao filme de 74, temos um jovem Jedidiah e sua família perturbada deixando um rastro de sangue que cruza o caminho de um xerife linha dura. Graças à maldade pura dos Sawyer, o tal policial perde a própria filha, fato que o leva a querer destruir a família caipira utilizando-se de todo um aparato legal, separando Jed judicialmente de sua mãe. A matriarca, Verna Sawyer, já havia aparecido no assombroso O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua, lá interpretada por ninguém mais ninguém menos que Marilyn Burns, aquela mesma do filme original, uma das primeiras final girls do horror.

A relação entre Verna e Jed é pulverizada no início e fim do filme e parece bem inspirada na dinâmica materna dominadora de Norma e Norman Bates, da série Bates Motel – afinal ambos os personagens bebem da mesma fonte, o serial killer Ed Gein – especialmente por meio da sua performance, mas com aquele toque caipira chegado em carne humana. Ah, pra ser honesto, e para a tristeza geral da nação, não há qualquer menção ao canibalismo e quase nenhum outro Sawyer que nós conhecemos.  

Boa parte da história é situada no período de internação de Jed, durante a adolescência. Uma das melhores escolhas do roteiro foi ocultar a identidade do assassino nessa faixa etária, deixando o público com diferentes opções, uma delas até bem óbvia. É só quando as pontas soltas vão sendo aparadas que a identidade do personagem fica clara. Até lá temos uma jornada bem… maçante.

Salvo os dois primeiros longas e quiçá o remake, O Massacre da Serra Elétrica não é uma série lá tão notável. Leatherface não faz absolutamente nada para melhorar o panorama, apesar de ter se alçado um pouco mais para cima na tabela de qualidade, em comparação com seu predecessor 3D (Desgraçado, Defeituoso e Desvirtuado).

Essa nasceu denovo!

A trama abarca uma quantidade muito grande de personagens que, obviamente, terminam subdesenvolvidos dentro do pouco tempo de projeção. Como essa se trata de uma história de origem, fazer com que os personagens sejam relacionáveis e interessantes é mais que obrigação, mas isso não é algo presente por aqui. Um dos jovens candidatos a Leatherface até desperta curiosidade, assim como o policial de Finn Jones e sua revolta mega passiva, mas apenas o primeiro tem um arco realmente bom.

Apesar da maioria dos personagens serem do tipo “não-fede-não-cheira”, um casal em especial conquistou o prêmio de Rei e Rainha da chatice. Os louquinhos psicóticos Ike e Clarice são meramente caricaturas de rednecks doentios. Tanto em atuação quanto em personagem, parece que temos uma tentativa sofrível de replicar os duos perversos de Assassinos por Natureza ou Rejeitados Pelo Diabo. Algumas sequências são de uma forçada de barra tão grande que a vergonha alheia domina. Talvez essa seja a sensação mais poderosa que o filme provoca, o que realmente entristece, dada a visceralidade do trabalho de Maury e Bustillo.

A câmera tremida é constante no filme e muitas vezes se distancia da violência gráfica. A impressão passada é de que os diretores queriam trazer o gore em peso, mas toda vez que se aproximavam de tal momento, algum produtor aparecia para puxar as rédeas. Vale sempre lembrar que o primeiro O Massacre da Serra Elétrica nunca foi um filme tão sangrento quanto sempre pensamos, mas a violência extrema tornou-se marca registrada da série ao longo do ano. Existem algumas cenas bem brutais por aqui, mesmo com essa pequena censura, além de um alto número de mortes e finais inesperados para vários personagens. Os efeitos práticos são um ponto alto, como sempre.

Infelizmente o prequel só engata de verdade no último ato, com a revelação do Leatherface e sua metamorfose em um monstro perturbado e impiedoso. A sequência final reforça essa relação de dominância estilo Norma/Norman e nos apresenta um desfecho bem sórdido. Se em um filme de super heróis a história de origem termina com um grande ato de heroísmo e uma compensação positiva por tais atos, há uma relação bem parecida aqui, apesar de diametralmente oposta. Lembrei-me, inclusive, das palavras do cineasta Adam Green, que colocou os ícones do horror no patamar de “heróis”, do ponto de vista da cultura pop e da idolatria que nós, fãs do gênero, temos por essas figuras macabras.

Aos aficionados pela série e  horror em geral, recomendo assistirem com parcimônia. No final das contas o longa existe em algum lugar que flutua entre melhor que os pessimistas esperavam, pior do que os otimistas desejavam. Uma sequência mostrando os anos que se seguiram ao final talvez seja um lugar interessante para se visitar no futuro. Sabemos muito bem que esse osso não será solto tão facilmente pelos produtores, então que ao menos algo legal apareça disso tudo.

3 membros serrados para Leatherface

Força tarefa dedicada a capturar e eliminar personagem chato pros diabos


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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