Review 2017: #52 – Além da Morte

E morreu…


Em 1990 vieram ao mundo duas coisas relacionadas a esse texto: o filme Linha Mortal e este que vos escreve. Apesar da coincidência, confesso que nunca assisti ao longa de Joel Schumacher com seu elenco de jovens astros dos anos 90, que parece ser um horror/sci-fi teen da época. Em contrapartida, tive a oportunidade de conferir em primeira mão ao remake do mesmo, Além da Morte, nome deveras genérico, fazendo jus ao filme em si.  

Na época de seu anúncio, ficou no ar a possibilidade deste ser uma sequência e não uma refilmagem. A presença de Kiefer Sutherland, astro do original, corroborou essa teoria. Mas não se iluda, pois ele interpreta um papel menor, algo como uma homenagem ao original e nada mais. Dessa vez as estrelas são Ellen Page (cuja idade é indecifrável), Nina Dobrev (provocando ciúmes nos irmãos Salvatore), Diego Luna (o ator latino do momento), Kiersey Clemons (possível namoradinha do Flash no filme da Liga da Justiça) e James Norton (um britânico qualquer, foi mal cara).  

Na trama, esses jovens estudantes de medicina participam de um projeto idealizado por Courtney (Page), envolvendo uma experiência de quase morte forçada, que eles chamam de flatlining, expressão que tornou-se pop graças ao longa original e que não possui uma tradução exata. O nome se refere aquela linha digital que mostra os batimentos cardíacos e que, ao tornar-se reta (acompanhado de um BIP agudo), indica parada cardíaca. Uma verdadeira… linha mortal!

O objetivo desse experimento é, basicamente, descobrir se no céu tem pão. Haha, brincadeira. Na verdade trata-se de uma exploração médica e pseudocientífica das chamadas experiências de quase-morte, em que pessoas dizem avistar luzes ou planar para fora de seus corpos. Um ponto essencial em que o filme falha miseravelmente é no embasamento dessa ideia.

Nos minutos iniciais, Courtney é vista como uma pessoa interessada no tema. De uma hora para outra, ela surge com todo um aparato científico e médico para tornar essa experiência possível, convidando dois colegas de turma, um deles aparentemente sem muita relação direta com ela, para auxiliarem.

Falta motivação para esses personagens se interessarem ou acreditarem remotamente nas possibilidades daquela atividade. Ou então uma suspensão de descrença grande suficiente para transformar estudantes de medicina de um curso renomado e disputado em um bando vida loka. Verdade seja dita, no momento em que a primeira delas se submete ao processo, o interesse dos mesmos torna-se até mais palpável, dada às mudanças notáveis na jovem.

Courtney volta da morte com uma percepção aguçada e uma memória fotográfica retroativa, que a faz lembrar de detalhes do passado e retomar atividades antigas, como tocar piano. Essa ideia de alterações sensoriais causadas pela experiência de quase-morte é das melhores premissas que Além da Morte oferece. Mas a cada pessoa que passa pelo processo, esse aspecto é deixado de lado e resumido a uma espécie de barato de droga. E o lado mais científico, que poderia ter sido largamente mais explorado, já que estamos 27 anos a frente do anterior, é totalmente abandonado.

No lugar disso, temos uma escalada desnecessária para o campo do terror em uma de suas piores facetas: os jumpscares. Para a surpresa dos personagens ditos inteligentes, existe um lado negativo para o flatlining! É como se algo corpóreo, maléfico e demoníaco se apossasse deles, trazendo para a superfície todo tipo de angústia e culpa por erros do passado. E isso é exposto nas telas na forma de figuras fantasmagóricas aparecendo do nada em momentos de silêncio, como em um filme de terror menor da Blumhouse. A previsibilidade dos sustos é tão grande que nem os picos de som repentinos conseguem assustar.

Apesar de cair para esse lado bem deprimente, o elenco é carismático o suficiente para segurar as pontas e deixar a experiência ao menos divertida, sem que haja muita expectativa. O diretor Niels Arden Oplev e o roteirista Ben Ripley, que tem alguns trabalhos bem legais em suas carreiras, não trazem absolutamente nada para o jogo. No pior dos casos, a temática é interessante o suficiente para despertar um desejo de assistir Linha Mortal, que eu espero ser melhor. Tome este filme como entretenimento simples e provavelmente encontrará alguma satisfação.

Ah, não que eu esteja recomendando ou incentivando isso, mas caso algum de vocês leitores já tenha vivido uma experiência de flatlining, não deixe de nos contar como foi.

2.5 batimentos cardíacos para Além da Morte

“Nunca mais eu vou dormir, nunca mais eu vou dormir, FLATLINERS”


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Alex Oak disse:

    Ótima critica. Como era de ser esperar se trata apenas de mais um remake para a “nova geração” que não assiste nada do ano 200 pra baixo.

  2. Alex Oak disse:

    *ano 2000 😉

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