Review 2017: #55 – The Limehouse Golem

Antes de Jack, havia o Golem


Existem lugares que parecem propensos ao horror e ao mistério. Os becos e vielas sombrios da Inglaterra vitoriana figuram ostensivamente entre estes, herança clara do horror gótico que vem povoando nosso inconsciente já faz uma quota, mantendo um charme que tem resistido sistematicamente ao teste do tempo.

Nos últimos anos, esse gênero literário/cinematográfico tem dado as caras com timidez, por meio do retorno da Hammer com seu A Mulher de Preto, da série Penny Dreadful e até no trabalho de Del Toro em A Colina Escarlate, entre outras coisinhas. The Limehouse Golem surge para compor esse cenário, transbordando de uma vibe totalmente Jack, O Estripador, porém sem basear-se tanto na realidade, como no caso do notório assassino em série, um dos primeiros a popularizar essa moda.

O longa ficcional com gostinho de caso real é inspirado no livro Dan Leno and the Limehouse Golem, de 1994. Obra esta que acompanha a investigação de uma série de assassinatos brutais e sem relação aparente, atribuídos a um Golem, em paralelo com o julgamento de Elizabeth Cree (Olivia Cooke), acusada de envenenar o marido por motivos torpes. Um dos charmes do livro, transposto para as telas, é a utilização de personagens históricos reais, como Karl Marx, George Gissing e o próprio Dan Leno.

A adaptação para os cinemas nasce das mãos do diretor Juan Carlos Medina e da roteirista Jane Goldman e traz um elenco encabeçado por uma inspiradíssima Olivia Cooke, acompanhada de atores ingleses veteranos e novatos, como Bill Nighy e Douglas Booth. Ainda não tive o prazer de conferir a obra literária para saber quais liberdades criativas foram tomadas, tanto na caracterização desses personagens quanto na própria narrativa diferenciada.

O julgamento de Elizabeth Cree e a caçada ao Golem são o epicentro narrativo do longa. A partir daí, a narrativa se desdobra em flashbacks, que recontam o passado da mulher e ocasionais cenas em que a imaginação do detetive Kildare (Bill Nighy) reconstrói as cenas de crime do monstruoso serial killer pelas ruas do distrito de Limehouse, sempre com base nos suspeitos. Por muito pouco essa sobreposição de narrativas não se tornou uma bagunça completa. Felizmente, o resultado é deveras envolvente.

Não se preocupe, você está a salvo de Norman Bates aqui no início do século XX

Elizabeth se destaca pela aparência e personalidade cativantes, capazes de tornar seu destino mais importante que a captura do assassino. Essa atração ocorre não apenas entre personagem-espectador, mas também entre a moça e o investigador veterano, para quem ela conta todas as desventuras de sua infância sofrida e breve carreira artística, prejudicada por várias razões, mas uma em especial: ser mulher.

Ainda mais envolvente que os flashbacks são momentos horripilantes em que Kildare interroga os suspeitos do crime e os imagina cometendo as atrocidades sanguinolentas do Golem, sempre acompanhadas de um narrador com uma voz distorcida que garante uma dose extra de arrepio.

Essa suposta criatura é de origem judaica e foi representada quase um século atrás, na obra seminal do expressionismo alemão O Golem, mas não possui os contornos dados ao assassino do filme. Apesar da mística em torno do criminoso, a ideia do sobrenatural não é explorada, mantendo os pés no chão. Ainda mais mítico e antológico que esse monstro é a cena em que vemos ninguém menos que KARL MARX, aquele mesmo que escreveu O Manifesto Comunista, decapitando uma pessoa em uma igreja, em uma das visões de Kildare. Brilhantismo puro!  

Se o simples conceito de um Karl Marx serial killer não te convenceu a procurar The Limehouse Golem, talvez a magnífica ambientação na Londres Vitoriana o faça. Quando não está percorrendo as vielas do bairro pobre, a ambientação se dá dentro do teatro de Dan Leno, o que remete muito ao Grand Guignol, dito como um dos precursores do horror. Aparentemente, Leno era famoso pelas performances transvestido, em que aproveitava-se de uma posição privilegiada para dar voz a problemas enfrentados pelas mulheres de sua época. No filme ele parece realmente ser um dos poucos personagens ao lado de Elizabeth.

Essa questão do papel da mulher é bem presente, talvez por termos uma roteirista mulher nos bastidores. É uma temática que perpassa toda sua duração e tem um grande impacto na conclusão, tanto no destino de Elizabeth quanto na fantástica reviravolta sobre os assassinatos do Golem de Limehouse, em todo seu misticismo.

4 facadas para The Limehouse Golem

E a platéia vai a loucura!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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