Review 2017: #56 – A Noiva

Da Rússia, com amor


Boa parte do que se entende por cinema nos dias de hoje advém de transformações provocadas por cineastas russos – uns caras tipo Vertov e Eisenstein. Em contrapartida, o cinema de horror não teve muita expressão entre os sovietes. Pergunto-lhes, caros leitores, vocês já assistiram algum filme de terror russo? Eu mesmo devo contar em uma mão os que já vi!

Em um caso raríssimo, um longa-metragem oriundo das terras geladas da mãe-Rússia deu as caras nos nossos cinemas tropicais. Falo de A Noiva, de Svyatoslav Podgaevskiy (leia-se Esviatoslave Podeguevisqui). Infelizmente, no meio do caminho, o longa sofreu um atentado na forma de uma dublagem em inglês. Essa atitude é comum na terra do Tio Sam, visando aplacar os ânimos dos espectadores que odeiam legendas. No Brasil me parece um pouco menos justificável, mas é o que temos pra hoje…

A trama incorpora várias lendas, algumas de origem eslava, outras nem tanto. O conceito básico relaciona-se com aquela velha ideia de que fotografias seriam capazes de capturar almas. Pois isso é fundido à bizarra tradição de fotografar os mortos fazendo pose, trazendo uma ideia nova e um tanto quanto complexa. Aparentemente, ao fotografar um falecido, é possível prender a alma no plano terrestre, dentro do negativo. O portador deste seria capaz de transportar o espírito para um novo corpo, prolongando a vida. Dentro dessa ideia, existem desdobramentos confusos, que parecem oriundos de lendas da região.

Mitologias e estranhezas à parte, A Noiva me parece bem um filme da Blumhouse, só que russo. Seria então nesse caso, da Blumдом? Não estranharia ler os dizeres “dos produtores de Atividade Paranormal e Invocação do Mal” em um cartaz. Os tons escuros, a ambientação e as aparições são bem semelhantes ao que vemos no cinema mainstream americano influenciado por James Wan. Temos aqui então um ponto paradoxal, positivo e negativo ao mesmo tempo.

O fato de se assemelhar com um longa da infame produtora de Jason Blum não traz apenas deméritos. Existe toda uma construção estética e temática nesses filmes que comunicam muito bem com um público mais amplo. Podgaevskiy não parece lá muito experiente, mas acerta no clima que quer construir.

 

“Nem morrendo escapei de casar”

Os jumpscares, por exemplo, não são um problema notável e o roteiro não abraça soluções faceiras do tipo “especialista em um tema avulso que por coincidência mora no mesmo prédio”. O visual da mulher que dá nome ao filme também é fruto de um trabalho bem criativo de design e maquiagem.

A grande questão é que todos esses aspectos tornam-no eficientemente genérico e as alternativas não são necessariamente boas. Assim como parte considerável das produções da Blumhouse que acerta nesses pontos, fica um ar de familiaridade que faz com que o conteúdo da fita se misture com todos os outros trabalhos semelhantes que existem por aí. E acredite, são muitos. E a resolução da trama é absurda de tão inverossímil, dentro de sua própria lógica e proposta.

A trama remete demais ao sucesso de Jordan Peele, Corra!, por trazer uma mulher que visita a família do namorado/noivo, apenas para descobrir que há algo de muito errado por ali. Se o longa de Peele utiliza desse pano de fundo para falar do racismo, aqui não há nada parecido. Como mencionado anteriormente, algumas lendas são citadas de forma bem diluída e esporádica, tendo pouco impacto real.

Enquanto assistia ao filme, em uma sessão quase vazia, uma questão tomava minha mente com frequência. A semelhança com o mercado americano faz deste um alvo perfeito para um remake. Não surpreendente, descobri logo depois que a Lionsgate já está planejando a tal refilmagem, pelas mãos dos escritores de Invocação do Mal

A Noiva chega suprindo uma demanda constante e crescente de horror do tipo entretenimento passageiro. Podgaevskiy poderia ter facilmente se aproveitado do contexto para usar e abusar de lendas locais, tornando seu trabalho único e interessante, mas contenta-se com o generalismo. A maior decepção permanece por conta da dublagem em inglês, que tira um dos poucos charmes realmente diferenciados do longa.

Curiosidade: Noiva em russo é Nevesta, ou невеста em cirílico. Aí está, vivendo e aprendendo!

2.5 anéis de noivado para A Noiva

Um noivo que esbanja simpatia e bom humor


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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