Review 2017: #57 – The Evil Within

Você não pode fugir de um pesadelo


Quando pensamos em cinema independente, pensamos em uma maneira particular, fora do padrão de se fazer filme. Geralmente sem apego à estúdios, com maior liberdade criativa e nomes pouco conhecidos, o indie dá voz a um outro grupo de artistas, comumente ofuscados pela indústria.

Apesar disso, ainda são filmes que, em maior ou menor grau, precisam responder a um comando superior de quem os financia e que também deve, em última instância, alcançar um público alvo. A não ser que você seja um milionário excêntrico…

Esse é o caso de Andrew Getty, milionário norte-americano que dedicou treze anos de sua existência regrada a metanfetamina para dar vida, por meio do cinema, aos seus pesadelos de infância. O projeto, que teve início em 2002, sob o título de The Storyteller, seria baseado em um conceito próprio dessa mente estranha, tratando de uma espécie de demônio contador de histórias, influenciando a vida de um homem com transtornos mentais.

Em meio aos delírios de um produtor-diretor-roteirista louco, o filme transformou-se ao longo de mais de uma década, em que todo tipo de acabamento e efeito prático era criado. Getty selecionava minuciosamente cada parte de sua insanidade. Tragicamente, o autor faleceu em 2015, em decorrência do abuso de drogas, deixando seu legado inacabado, nas mãos do editor e produtor Michael Luceri.

Segundo este, Getty teria gasto mais de cinco milhões de dólares de sua própria fortuna, construindo todos os efeitos práticos e equipamentos necessários para criar os planos bizarros que visualizava em sua mente. Foi só em 2017 que o projeto encontrou sua conclusão, após quinze longos anos.

É especialmente difícil falar sobre, analisar ou sequer comparar The Evil Within com outros filmes de terror (não há relação entre este e o jogo homônimo). Em parte, temos um filme beirando o amadorismo, com um elenco classe C e uma cara inconfundível de anos 90, fruto de uma transição entre décadas. Mas ao mesmo tempo, estamos diante de uma obra sem igual, que destila uma série de imagens estranhas e únicas e, portanto, dignas de nossa atenção.

Uma das maiores bizarrices de 2017 é esse Berryman pelado e azul

Existe um fio de trama que parece servir de linha guia. Um garoto e sua mãe visitam um parque de diversões em um deserto. Lá, são recebidos por um Michael Berryman – o Pluto de Quadrilha dos Sádicos, que os apresenta ao passeio de casa mal assombrada mais assustador de todos os tempos. Eles atravessam o percurso sem qualquer tipo de susto ou monstro, o que provoca a indignação do garoto. Ele reclama que o passeio não era nada assustador, o que sua mãe responde da única forma possível: ela retira os óculos, revelando bocas no lugar dos olhos, e essas bocas dizem: “mas quem disse que o passeio acabou?”.

Com base nessa ideia de um pesadelo interminável, conhecemos o garotinho já crescido, como um deficiente mental atormentado. A concepção de doença mental de Getty está longe de ser remotamente politicamente correta. Profundamente incomodado com sua existência, Dennis, interpretando por um ator estranhíssimo chamado Frederick Koehler, é levado a cometer atos vis e brutais, que escalam ao ponto de torná-lo um serial killer. Ao redor de sua transformação em um assassino, Dennis complica a vida de seu irmão, interpretado por Sean Patrick Flanery.

No decorrer do filme, Getty utiliza uma série de efeitos práticos envolvendo slow motion que são absolutamente fantásticos. Na maior parte do tempo, existe uma artificialidade digna de um teatro de bonecos nesses efeitos, que resultam nas sequências mais estranhas possíveis. Um dos momentos mais notáveis envolve uma possessão que ocorre quase que literalmente, utilizando-se de um zíper. A estranheza provocada chega ao ponto de ser verdadeiramente assustadora.

Getty consegue impor ao filme uma atmosfera onírica ultra bizarra que remete particularmente ao cinema de David Lynch, resultando em uma obra não tão brilhante, mas igualmente ímpar. Os personagens parecem deslocados e os planos incomuns são bastante provocativos. Ao mesmo tempo que é possível citar um dos cineastas mais geniais de todos os tempos como referência, parte considerável do longa ainda advém das mãos de um amador, sem experiência prévia e sem muito senso crítico.

The Evil Within é igualmente horrível e magistral. Um filme de terror que perturba pelas razões certas e erradas. Uma obra que se enquadra não como entretenimento e nem como arte, mas como uma experiência , uma visita ao inconsciente manifesto de um louco com muito dinheiro no bolso. É impossível julgá-lo sob os mesmos critérios que utilizamos em qualquer outro filme, por tanto recomendo veementemente que todos deem uma chance e experimentem a droga criada por Geddy.

Ameaçador ou fofo?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *