Review 2017: #59 – Boneco de Neve

Para Harry querer se enfiar no BURACO


Sabe aquele tipo de filme que, ao terminar, você gostaria de pedir na bilheteria as suas duas horas de vida de volta? Pois bem, é esse o caso de Boneco de Neve, baseado no best-seller homônimo do escritor Jo Nesbø, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira.

E o pior que tinha TUDO para ser um thriller incrível: história de um serial killer que mata mulheres esquartejando seus corpos; um detetive ex-alcoólatra resignado que vive uma vida decadente; fotografia FU-DI-DA das paisagens geladas da Noruega pelo ganhador do Oscar, Dion Beebe; produção executiva de Martin Scorsese (que originalmente foi cotado para a direção); Michael Fassbender no elenco, que ainda conta com Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, J.K. Simmons, Toby Jones, James D’Arcy e Val Kilmer (todos eles, sem exceção, absolutamente mal aproveitados); e direção de Tomas Alfredson, o mesmo de um dos filmes da vida, Deixa Ela Entrar.

Taí, me pergunto como todos esses elementos potenciais juntos resultaram num suspense dos mais canhestros que já vi ultimamente?

Roteiro fraquíssimo, soluções fáceis e óbvias, uma cambada de personagens descartáveis, Fassbender no automático, tudo construído sem atmosfera alguma, situações que geram risada involuntária de tão ridículas e um desfecho de terceiro ato dos mais patéticos da história da sétima arte, em como um assassino metódico, cruel e calculista, que pareceu tão fodão durante toda a projeção, tem um final ridículo daqueles?

Essa cara aí do Fassbender é a mesma ao assistir ao filme…

Fora um monte de treta que rolou durante seu desenvolvimento, Alfredson ter subido muito tarde ao barco, 15% do roteiro ter sido descartado (o que explica bastante a confusão e como a história se acelera em sua conclusão) e o período de gravações na Noruega encurtado para a produção se mover para Londres, o que comprometeu a história.

Também, atrapalha, e muito, o fato de Boneco de Neve ser o SÉTIMO de uma série policial de onze livros de sucesso escritos por Nesbø, protagonizada pelo policial Harry Hole, criação máxima do autor norueguês, que antes de desenvolver a arte da escrita, foi atleta, economista e até vocalista e compositor de uma banda.

Mas como é? Sétimo livro e a primeira adaptação do eficaz policial para os cinemas?

Pois é, você já dá de cara com um personagem com cara de saco cheio e cansado o tempo todo, tendo que conviver com as presepadas que fez na vida, do vício ao álcool – daqueles de acordar na valeta literalmente – passando pela decadência de uma brilhante carreira à separação da esposa e afilhado, sem nenhum background construído e conhecimento prévio de seus casos famosos, o modus operandi e o brilhantismo na profissão, que toda hora é citado e nunca sabemos de verdade o quanto o cara foi pica das galáxias na chefatura de polícia de Oslo.

Fassbender não consegue convencer sequer um segundo como sua contraparte literária e tampouco em seu drama humano, mantendo praticamente a mesma expressão azeda durante todo o filme em uma atuação pra lá de burocrática e carisma igual a zero. Aliás, o ator teuto-irlandês poderia bem pedir música no Fantástico pois esteve presente em três dos piores filmes do ano: Assassin’s Creed, Alien: Covenant e esse daqui.

Tô a fim de provocar uma avalanche

A trama, com seu tamanho potencial jogado fora – o Guardian considerou o livro mais ambicioso de Nesbø e o compara com “O Silêncio dos Inocentes” de Thomas Harris – consiste na investigação de Hole com a novata recém-transferida Katrine Bratt (Ferguson) em busca do tal maníaco que rapta mulheres casadas e com filhos, e as assassina quando cai a primeira neve na Noruega, deixando em frente de suas casas um singelo boneco de neve. Logo no prólogo do filme já sabemos qual sua motivação, graças ao flashback de sua infância recheada de abuso e rejeição.

Nas idas e vindas do caso, nos deparamos com o assassino atraindo o inspetor para seu jogo, um monte de pistas falsas de uma investigação mirim, a tentativa de descobrir o psicopata ao melhor estilo whodunit? dos romances de Edgar Wallace, personagens que circundam o enredo em um subplot de traição, abortos clandestinos e exploração sexual que não levam a lugar nenhum, a personagem de Fergunson usando sua traquitana tecnológica que mais parece um Pense Bem (ao invés de um simples tablet) pra lá e pra cá e tentando até SUTILMENTE ocultá-la em uma estante para usar como câmera escondida, a irritante cabacice da dupla e incapacidade ao usar armas, e um Val Kilmer todo botocado que mal consegue abrir a boca para falar e parece ter sido dublado por alguma voz cavernosa.

E ah, já falei do final de dar vergonha alheia, né? E ainda rola um cliffhanger remetendo a investigação de Hole em seu próximo livro, “O Leopardo”. Mas a chance de, literalmente, sair do papel é nula, já que a recepção de crítica e público foram mais frias que o inverno norueguês.

Boneco de Neve não serve nem como aqueles suspenses do Supercine, quanto mais para assistir numa sala de cinema, e provavelmente, vai deixar os fãs da série de Nesbø putos da vida, querendo se enfiar num BURACO, aumentando ainda mais o estigma dos americanos estragarem as obras escandinavas nas telas.

Taí Stieg Larsson que se revira no túmulo e não me deixa mentir…

 

1, hã, boneco de neve para Boneco de Neve

Numa fria!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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