Review 2017: #60 – A Vilã

O frenesi mortal do cinema sul-coreano


Em 2003, o autor sul-coreano Park Chan-wook realizou uma das obras mais seminais da história de seu país e do cinema contemporâneo, Oldboy. Inspirado em um mangá homônimo, a fita traduzia para as telas uma história de vingança impensável, contada com a precisão de um gênio e a brutalidade de um louco. Tornou-se clássico instantâneo e, junto de outros realizadores e obras, iniciou um novo ciclo cinematográfico naquele país. Ainda hoje, o longa parece ser a porta de entrada para o público ocidental nesse mundo soturno e impiedoso chamado cinema coreano.

Assumindo a vingança e a busca pela verdade como elementos centrais recorrentes, vários cineastas construíram carreira seguindo os passos de Chan-wook, alguns de forma mais sutil, como Bong Joon-Ho em seu brilhante Memórias de um Assassinato e outros de maneira obtusa e ainda mais hedionda, vide o igualmente magistral Eu Vi o Diabo, de Kim Jee-Woon.

A Vilã, de Jeong Byeong-Gil, surge como forte candidato a integrar o seleto grupo de obras de altíssimo nível que compõem esse ciclo de vingança, tão em voga em seu país de origem nas duas últimas décadas. Desponta ainda como uma das grandes revelações cinematográficas em um ano consideravelmente mediano para a sétima arte, tendo recebido especial aprovação em festivais ao redor do mundo.

A trama, excessivamente complexa, se esconde por trás de uma sinopse aparentemente simplória: uma assassina deixa um rastro de corpos enquanto busca por vingança. Ao longo de mais de duas horas de projeção, acompanhamos o surgimento de Sook-Hee enquanto matadora, a grande tragédia que o destino lhe reserva e as reviravoltas que trazem a tona o que há de pior em seu âmago.

O conceito de uma mulher injustiçada que se volta para uma vendeta pessoal remete ao longa Lady Vingança, que faz parte da “Trilogia da Vingança” de Park Chan-wook. Não obstante, ambos se diferem na abordagem da temática, sendo este último um tanto quanto mais dramático e artístico, ao passo em que A Vilã o faz da forma mais embevecida possível, da fotografia frenética até a montagem com seus saltos temporais intermináveis.

Essa aproximação do tema focado na ação não é particularmente uma novidade, mas a forma com que as cenas de combate são executadas são uma obra de arte a parte, do tipo que arrancou aplausos empolgadíssimos em sua exibição em Cannes.

Já nos minutos iniciais, somos agraciados com uma sequência ininterrupta em primeira pessoa, que mais parece uma transcrição de um vídeo-game para o cinema. Sook-hee atravessa os corredores de um prédio de aspecto abandonado, enquanto enfrenta ondas intermináveis de capangas armados, derrotando-os um a um, em combate que faz chover sangue, facada atrás de facada. A violência gráfica atravessa a fita de cabo a rabo, se manifesta em todo tipo de arma branca e de fogo sem nunca se envergonhar de sua veia sanguinária.

Pra fazer inveja no elenco de Velozes e Furiosos

Segue-se então uma longa elaboração de vários aspectos relacionados a vida da mulher, incluindo o passado que a levou até ali e o futuro que a aguarda. A ação retorna apenas em outros dois momentos, isolados dentro da trama multiforme e por vezes confusa demais para seu próprio bem.

A montagem sofre de uma inquietação constante, que leva a narrativa para tempos diversos, sem muito aviso. Compreender tudo que se passa ao redor de Sook-hee é um esforço de atenção enorme. Apesar de problemática, essa movimentação é capaz de prender o espectador a tela com relativa facilidade.

Ao rever A Vilã, desejo que passará pela cabeça da grande maioria, esses elementos até então complexos parecem se encaixar mais facilmente, tornando a compreensão do todo um exercício consideravelmente mais simples.

O título escolhido pelo criador da obra, que chega até o Brasil com fidelidade, é claramente uma ironia. Não há um momento sequer em que a moça ocupe um papel de vilã. Talvez “A Vítima” fosse um nome mais literal para descrever Sook-hee. Ainda assim, seria uma palavra que não faz jus ao sofrimento torturante e interminável que perpassa sua vida.

É característica do thriller e do horror sul-coreano contemporâneos colocar protagonistas em um lugar de aniquilação total. A provação traumática que todo herói deve se submeter em sua jornada é frequente multiplicada e prolongada, de forma que o mesmo se afaste de qualquer tipo de ascensão apoteótica, para cair na absoluta desgraça, mesmo após sua grande conquista. A profundidade do sofrimento faz com que perceber o sucesso, ou fracasso de Sook-hee torne-se irrelevante.

A resolução da trama se faz em uma sequência de ação delirante, que desafia as noções de cinematografia, composição de planos e até da física. Aos mais interessados nesse tipo de observação, o movimento da câmera frequentemente chama mais a atenção que o próprio conteúdo, mas de forma a promover uma estupefação total.

É inconcebível para uma mente comum tentar reproduzir mentalmente o processo de construção dessa sequência, que já nasce figurando o hall das maiores cenas de ação da história do cinema! Em um ano em que o cinema de entretenimento parece ter falhado, (mais uma vez, segundo muitos), A Vilã chega carregando o frescor de uma direção enérgica e completamente alucinada e inquieta, que nunca cai na repetição ou no marasmo.

De quebra, ainda segue a onda de reconfiguração dos papéis femininos no cinema, com uma protagonista que supera filas e filas de carinhas em uma área essencialmente dominada pelos homens, que é o combate corpo-a-corpo. Nem a Mulher Maravilha de Gal Gadot e nem a Atômica de Charlize Theron são páreas para o poder abrasador d’A Vilã.

 

4,5 facadas para A Vilã


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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