Review 2018: #01 – Day of the Dead: Bloodline

George Romero se revira no túmulo


O ano 2018 chegou com discrição, sem muito alarde e, nessa breve contagem de dias, nenhuma tragédia notável, daquelas de causar comoção em massa e unir os povos das nações. Exceto talvez para os fãs da obra de George A. Romero, falecido no ano anterior, e entusiastas do horror que já estão frente a frente com Day of the Dead: Bloodline, mais uma afronta trágica à filmografia do mestre.

Bloodline é o segundo remake do clássico Dia dos Mortos, obra do pai dos mortos vivos,e favorito deste que vos escreve, dentro da filmografia dessa lenda que nos deixou pouco tempo atrás. Com um subtítulo aleatório suposto de indicar algum tipo de mudança, esse é um filme que fracassa enquanto remake e ainda mais enquanto longametragem.

Por uns bons dez minutos de projeção me entretive imensamente com o que vi. Uma epidemia de zumbis recém surgida causa estragos na pequena população de uma cidade completamente CENOGRÁFICA. A artificialidade do cenário morto, com objetos espalhados aqui e acolá para simbolizar o caos, associado aos atores/figurantes que correm – ou ainda pior, aparecem andando lentamente de bicicleta em meio ao caos – são pura comédia.

Em meio a esse ridiculismo fantástico de um filme que se leva plenamente a sério sem ter condições para tal, há um flashback de quatro horas, que por sua vez antecede um salto temporal de cinco anos em direção ao futuro. Nesse flashback, vários elementos da trama são anunciados de antemão. Um desses elementos é um sujeito com uma bocarra imensa chamado Max.

A construção desse personagem é de uma sutileza ímpar. logo em sua primeira aparição, ele demonstra seu amor doentio pela médica protagonista Zoe, revelando o nome da moça talhado em seu braço a faca – de maneira perfeita, como se feito por um profissional de escarificação. Você só é um maníaco obcecado com alguém quando rasga sua própria pele para provar!

Além de ser um stalker de nível alto, convenientemente, Max ainda faz às vezes de rato de laboratório, pois seu corpo possui 100 vezes mais anticorpos que o normal, ou algo do tipo. Isso faz com que ele se torne parcialmente imune ao vírus zumbi, mantendo várias de suas funções após infectado.

O apocalipse chega para todos. Não deixe que isso atrapalhe seu penteado.

Você aí que já assistiu ao filme original de Romero deve se lembrar bem de um camarada chamado Bub. Um zumbi que era treinado como parte de um experimento com os mortos-vivos, observando sua capacidade de reaver memórias antigas. A primeira grande expansão que Romero fez em sua mitologia e o cadaveroso mais querido desse mundão de errantes desmortos.

Pois Max é a nova versão de Bub.

Recheado de explicações bizarras que justificam de forma esquematizada sua razão de existir dentro do filme (obsessão + imunidade parcial), Max é a melhor coisa que esses escritos brilhantes conseguiram bolar para essa “reinvenção ousada” de Dia dos Mortos.

Aquilo que chamamos de “americanização” de filmes, fazendo referência a necessidade boçal de mastigar cada elemento narrativo, aparece em níveis ofensivos neste caso. Cada situação e dispositivo narrativo cliché que se possa imaginar ainda é colocado em serviço, para garantir que a história corra com a progressão milimetricamente calculada por seus idealizadores. O intuito parece ser apenas um: criar um filme de fácil entendimento para uma audiência que teve dois terços do cérebro desativados por um vírus zumbi.

Ah, não são zumbis, o nome certo é “rotter”, uma daquelas variações estúpidas que surgiram nos últimos anos (cof cof “walkers”). O ápice da falta de noção foi exibirem uma capa da revista Times com o título “rotters” e uma zumbi estampada. Sem dúvidas a primeira coisa que vai acontecer frente ao apocalipse.

Ao longo de Bloodline, uma série de erros bizarros na trilha sonora – personagens falando sem sincronia com a boca, dublagens de pós produção, passando por cenários extremamente artificiais – nível Rede Record de Televisão – atores de quinta trabalhando com um roteiro embaraçoso, culminam em um sofrimento cinemático. É uma sequência interminável de cenas vergonhosas.

Mesmo servindo apenas como comédia não intencional, tamanha ruindade, ainda me pareceu menos odiável que o remake anterior, cuja versão do Bub era um soldado vegetariano que virou um zumbi pacífico.

Pobre Romero.

1 rotter para Dia dos Mortos: Bloodline

“Sabe qual meu signo? Eu sou TRANSARIANO.”


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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