Review 2018: #04 – A Forma da Água

Quando um clássico dá lugar à outro


Nos anos 50, um grupo expedicionário embrenhou-se nos confins da selva amazônica com um objetivo muito particular: investigar um possível elo perdido entre seres marinhos e terrestres. Tal aventura levou a descoberta de um ser quase mitológico, dotado de características mistas, uma espécie de homem-peixe, conhecido desde então como Gill-man, igualmente aterrador e arrebatador. Em O Monstro da Lagoa Negra, o monstro humanóide é aniquilado por seus agressores em uma ação que, ainda no campo da ficção, muito se assemelha ao destino de Kong.

Passado mais de meio século, Guillermo del Toro retoma a mesma história, sob uma nova ótica. A Forma da Água beira uma sequência, porém partindo da captura bem sucedida da criatura anfíbia pelas mãos dos pesquisadores americanos, sendo finalmente transportado de seu habitat natural para uma base militar nos EUA. A partir daí, estabelece-se uma história poética e romântica, de nuances imprevisíveis e estonteantes, porém não livre de imperfeições.

Del Toro é um cineasta familiarizado com as permutas entre gênero, tendo mesclado fantasia, horror e drama por diversas vezes. Aquele que permanece seu melhor trabalho até o dia de hoje, O Labirinto do Fauno, é o ápice dessa combinação,mais uma vez reproduzida aqui. Seu último trabalho busca no horror de monstro dos anos 50 inspiração para a composição de uma obra igualmente única. O monstro, referido apenas como “A Forma”, mais uma vez trabalho da captura de imagem do ator Doug Jones, cria um vínculo afetivo com uma faxineira muda. Em meio a tramas conspiracionistas e dilemas pessoais, inclusão e amores incomuns se destacam.

A relação entre besta e mulher surge pela construção do diálogo de dois seres desprovidos da fala. Perante esse fato excludente a faxineira Elisa (Sally Hawkins) vê no monstro um igual, que aprende a amar. Em paralelo a esse amor construído de forma gradual, uma trama de espionagem se desenrola.

Lembrando do final de O Labirinto do Fauno

Em uma dessas tramas que compõem o tecido costurado por Del Toro, há uma ênfase numa deficiência incômoda no mesmo. Ao passo em que ocorre um desenlace afetivo inusitado e cativante, temos um plot conspiracionista que pouco tem a acrescentar àquilo que o longa parece se propor.

Há um excesso de ideias aplicadas em um contexto que deveria se entregar mais e mais à relação humana, de maneira que ocorra uma inconstância notável na peça como um todo. É observável que o autor tente misturar não apenas ideias próprias, como trabalhar com referências e acenos constantes ao cinema clássico. Um exemplo disso é o interesse pontual de Elisa por sapateado, que surge como um ponto de encontro entre o filme a história do cinema.

A filmografia de Del Toro contém peças fantásticas que geralmente se destacam por conceitos visuais deslumbrantes e assustadores. Se o cineasta mexicano destaca-se imensamente pela transcrição brilhante de suas ideias para  plano cinematográfico, suas mise-en-scenes não impressionam em igual medida, assim como suas histórias frequentemente revelam-se de pouca profundidade. Não obstante, certos planos, especialmente concentrados no último ato do filme, traduzem de forma puramente visual uma história de amor e coragem magistral.

É particularmente encantador notarmos que essas duas palavras – amor e coragem – também refletem claramente a existência do filme. Del Toro mostra-se sempre apaixonado por cinema, por monstros, com um toque especial de seu gênero favorito e o faz de maneira enérgica, impassível frente a qualquer tentativa de racionalizar ou amarrar seu trabalho à realidade.

A despeito de suas falhas perceptíveis, A Forma da Água destaca-se pela ousadia em abordar os diversos temas escolhidos de maneira tão peculiar e tocante. Em um ano em que o cinema de gênero alcançou notado destaque, este possível vencedor do Oscar é obrigatório nas listas de todos por sua experiência extasiante.

4.5 ovos cozidos para A Forma da Água

Fico até sem palavras para descrever esse amor


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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