Review 2018: #08 – Victor Crowley

Os prazeres da violência esdrúxula


Adam Green é um realizador bem peculiar. Fã assumido do horror, tem dedicado sua carreira a trazer de volta os aspectos que mais aprecia no gênero. Sua obra mais notável, Terror no Pântano, nasce desse anseio, melhor explorado no texto comemorativo sobre os dez anos do filme.

Green abraçou figuras lendárias como Kane Hodder e Danielle Harris no processo, e até hoje trabalha em colaboração com os mesmos, colocando a si mesmo em posto de farol para todos os fãs de horror fissurados nos anos 80 e começo dos anos 90. Praticamente toda a extensão de sua filmografia, salvo por Pânico na Neve, gira em torno de sua própria paixão. É daí que advém tanto seu maior mérito quanto seu maior defeito.  

No quesito enredo, não há lá o que discutir sobre essa nova película. Veja só, Victor Crowley é a quarta parte de uma “suposta trilogia”, o retorno de um bom filho à sua casa. Assim como todos os filmes da série, tudo que importa é o gore e a violência enlouquecida de Crowley e suas formas bizarras de encerrar vidas.

O orçamento da franquia é comparável à um meteoro de trajetória descendente, cada vez mais baixo. Logo, os efeitos práticos orgasmáticos do primeiro longa são vastamente superiores aos membros prostéticos dessa quarta parte. Talvez seja por isso que Green abusa de excessos, compensando a queda qualitativa com um acréscimo quantitativo. E é uma compensação totalmente válida e efetiva.

Há um grande porém nisso tudo, que me leva de volta ao ponto inaugural desse texto. Na sequência de abertura já correu mais sangue que a maioria dos seres humanos contém em seus próprios corpos, daí então temos um longo arco de pura exposição e gordura (não a corporal) até que os personagens entrem em confronto direto com o assassino e o gore retorne com força.

Vô te passar a lambida mermão

Ter um realizador tão profundamente apaixonado por horror é fantástico e Green é uma pessoa de muita potência criativa. Apesar disso, parece um bocado preso em si próprio, colocando referências e acenos diversos para ele mesmo. Existe por aí uma base de fãs considerável, que admira e acompanha seu trabalho, do qual eu mesmo faço parte.

A autopromoção é importante quando se trabalha com cinema independente, mas nos últimos tempos Green parece estar perdido em seu próprio umbigo. Painéis imensos contendo o nome de sua cadelinha Arwen não servem a propósito algum, assim como doses exageradas de seu senso de humor nem sempre tem um lugar.

Fica claro, o tempo inteiro, que Green fez Victor Crowley tendo como público alvo os fãs da franquia e os fãs dele próprio. Aplausos pela coragem e pelo respeito para com os apoiadores, mas a limitação provocada por isso tudo é gritante. Em se tratando de alguém com um potencial de fazer cinema de qualidade, é preciso sair desse casulo e começar a pensar no futuro. Deixo aí o meu protesto para o senhor Adam Green: a salvação do horror não está no passado e você não é o Messias do horror!

Indignação a parte, os efeitos práticos são brutalmente maravilhosos, e o Crowley de Kane Hodder continua sendo um dos melhores monstros da atualidade. Algumas piadas são fantásticas, outras vergonhosas. Pro fã do horror médio, que não é accionado e, provavelmente, nem sequer conhece sobre o autor e a obra, a recepção periga ser das piores.

3 membros decepados para Victor Crowley

Cara a cara com o perigo


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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