Review 2018: #12 – Devil’s Gate

Um bom filme que cumpre o que promete: entretenimento sem compromisso


A IFC Midnight, assim como a Blumhouse, é uma produtora que acredita no potencial de diretores independentes aspirantes para dar vida às suas obras cinematográficas – espaço este que, salvo raríssimas exceções, os gigantes milionários de Hollywood dariam. Se hoje em dia a empresa de Jason Blum emplaca hit atrás de hit e alavanca o horror a um novo patamar no mainstream, a errática empresa da meia-noite não é tão assertiva em entregar uma obra que convença.

Menos mal que Devil’s Gate trilha um caminho diferente e proporciona ao expectador uma boa experiência cinematográfica que diverte e entretém, com alguns ótimos aspectos a serem destacados, mas outros nem tão bons, o que acaba por ofuscar um pouco o brilho do que poderia ter sido uma das gratas surpresas deste início de ano.

O Portão do Diabo – que belo nome para um local, hein?! – é uma cidadezinha interiorana dos EUA que, como de praxe, guarda seus segredos à sete chaves, e todos seus habitantes se conhecem e de certa forma, se protegem. Quando uma agente do FBI é designada à um simples caso de desaparecimento de mãe e filho, todos os envolvidos serão levados à confrontar seus medos, bem como tentar derrotar um mal em comum que pode não ameaçar apenas àquela cidadela, mas ao mundo todo!

É aí que os problemas começam…

A começar pela sinopse e roteiro, o filme é um mar de clichês: personagem que é obrigado a confrontar seu passado, cidade que negligencia seus problemas, polícia ineficaz, família problemática, homem durão, segredos revelados, passado obscuro, reviravoltas… Não há nada em Devil’s Gate que já não se tenha visto em outros filmes, o que ofusca o andamento da carruagem. Assistir algo já visto outrora demasiadamente em excesso, explorado por outras obras, acaba por tirar um pouco daquela gana de querer saber o que acontecerá na cena seguinte, já que de certa forma o mais calejado cinéfilo imagina e fatalmente, acerta.

Bate palminha bate, palminha de São Tomé 🎵

O que salva o filme do fracasso e segura a projeção até o final são as atuações convincentes da atriz Amanda Schull (Os 12 Macacos, série) e Milo Ventimiglia (Rocky Balboa) representando a agente especial Daria e o patriarca chucro Jackson respectivamente, e os aspectos técnicos muito bem trabalhados, desde a fotografia prioritariamente cinzenta, indicando um clima pesado e tenso pairando sobre a cidade, até os efeitos especiais e criatura que conseguem mesclar com muita destreza o trabalho do computador com o prático, hoje em dia, caso raro.

Em especial o monstro do filme, que por sinal é algo que poderiam ter explorado mais, trás uma sensação de dejá-vu com Fogo no Céu, talvez. O clima de tensão e curiosidade criado pelo diretor de primeira viagem Clay Staub em cima do monstro é feito com muito cuidado; conseguindo escalar com delicadeza a aparência do bicho que, quando finalmente, revelado, mescla surpresa e satisfação no expectador. Além de algumas boas doses de gore, outro ponto fortíssimo é a cinematografia do filme.

Sabe aquele dia cinzento, onde você olha pela janela e bate uma angústia, uma bad? Em Devil’s Gate, nenhum plano é colorido e alegre e isso se dá pelo roteiro representado no ambiente. Como não é segredo para ninguém, os EUA possuem uma “crise” interna econômica onde muitos americanos não conseguem ter emprego ou renda. No filme isto é exemplificado quando se vê a frustração de Jackson e sua esposa ao comentarem que aquela fazenda e solo não deu lucro nenhum há anos. O fracasso em tentar fazer com que seu pedaço de terra lhe permita ter algum tipo de dignidade para si próprio e sua família é espelhado na fotografia prioritariamente em tons escuros, cinzentos e frios. O expectador sente aquela dor tanto pela ambientação quanto pelas situações expostas.

O desfecho do filme é algo previsível mas longe de ser ruim, já que também há um quê de crítica ali. O mundo vive uma nova fase sócio-cultural-política-econômica que tende a traçar um rumo muito diferente. Será uma nova fase com foco em uma nova vida terrestre baseada em novas doutrinas ou ideais?

Verdade é que Devil’s Gate,ao final das contas, se torna um bom filme para que se mantenha entretido, mas com um certo amargo, pois poderia ter sido muito mais.

 

3,5 feixes de luz para Devil’s Gate

 

Não mexa comigo que eu não to bom não, hein!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: