Review 2018: #13 – The Lodgers

Terror sobrenatural gótico direto da Irlanda, com todo aquele aparato básico do gênero


Histórias de fantasmas com pegada gótica vitoriana. Definitivamente essa premissa é um terreno fértil para o cinema de terror. E foi exatamente utilizando essa pegada, que o diretor e roteirista Brian O’Malley, o mesmo do ótimo Aprisionados, retorna ao gênero com The Lodgers.

A produção irlandesa aposta em todo o aparato e misé-en-scene desse tipo de história para causar a atmosfera do medo sobrenatural: uma gigantesca e decadente casa mal-assombrada, metida no meio de uma floresta lúgubre cheia de árvores retorcidas e um lago pantanoso em um vilarejo abandonado na Irlanda rural da década de 20, habitada por um casal de jovens irmãos gêmeos que são vítimas de uma antiga maldição.

Pano de fundo para toda a construção do clima tétrico que permeia a vida dos irmãos Rachel (Charlotte Vega) e Edward (Bill Milner), que acabam de completar 18 anos, vivendo sozinhos após o aparente suicídio dos pais, tendo de conviver sob os mandamentos de três estritas regras, que mantém afastada uma presença maligna que assedia a família há gerações: 1) estar na cama à meia-noite/ 2) não permitir a entrada de estranhos; 3) nunca abandonar o local, mantendo-se sempre juntos, correndo o risco de colocar a vida do outro em perigo.

A fita já começa com Rachel adormecendo a beira do lago, perdendo a noção de tempo e voltando correndo para casa, violando a “regra da meia-noite”, exatamente na noite anterior em que ambos completam a maioridade. Daí pra frente, veremos, pouco a pouco, o casal de irmãos, principalmente Edward, sendo afetado e possuído cada vez mais pela influência da força funesta que reside no local, mantida presa em um porão inundado da mansão caindo aos pedaços.

Isso enquanto as economias da família definham, sendo pressionados por Bermingham, um advogado da Inglaterra, vivido por David Bradley – mais conhecido por ser um dos Doutores de Doctor Who, o Walder Frey de GoT e Abraham Setrakian de The Strain – para vender a propriedade e sanar as dívidas, e Rachel se apaixonar por Sean (Eugene Simon), que acabara de voltar para o vilarejo após lutar na Primeira Guerra pela Inglaterra e perder uma perna, sendo considerado traidor pelos demais locais.

Retratos de família

Aos poucos, O’Malley se vale de todos os recursos possíveis do feijão com arroz desse tipo de filme, mantendo uma crescente de suspense, as aparições das “criaturas” e tentando trabalhar a dualidade da relação entre os irmãos – o crescimento do comportamento psicótico de Edward, principalmente em realizar o que ele chama de “consumação” com Rachel, seguindo as tradições familiares feitas por todos os ascendentes – também irmãos gêmeos, detalhes – e o desejo da menina em se livrar daquele local e todo o terror e angústia que ele proporciona.

Calcado no horror sobrenatural psicológico, em nenhum momento The Lodgers faz o serviço sujo de ser extremamente didático e pegar na mão do espectador para lhe explicar tudo detalhadamente, deixando muito na especulação e na imaginação do público, sem se preocupar em esmiuçar quem são aquelas presenças fantasmagóricas sinistras e como, ou por quê, tudo começou, deixando simplesmente na conta do fantástico e da suspensão da descrença. Além de se aproveitar de um quê de J-Horror para ilustrar os espíritos saindo da água e abusando do CGI.

O’Malley acerta em manter muitas perguntas sem respostas, escalar muito bem a atmosfera gótica e seu dramas humanos e de relacionamento como pano de fundo, excelente fotografia sóbria e trilha sonora, e ainda por cima nos entrega uma das mais belíssimas cenas do cinema de terror vistas recentemente, quando finalmente somos transportados para o interior daquele porão que vemos transbordando água desde o começo do filme.

The Lodgers não inventa moda, é um entretenimento sobrenatural honesto, muito bem ambientado e desenvolvido, que se atém a fórmula de um típico filme de fantasma made UK, nas mãos de um nome para bem se ficar de olho.

3 pássaros pretos para The Lodgers

A forma da água


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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