Review 2018: #14 – Tragedy Girls

O terror adolescente nos tempos da rede social


Foi nos anos 80 que o terror adolescente se tornou o que há, graças a explosão dos slasher, crédito principal a Jason Voorhees e as intermináveis sequências de Sexta-Feira 13, seguido de perto por todos os demais movie maniacs e filmes de assassinos mascarados perseguindo jovens com hormônios em ebulição com qualquer sorte de arma branca ou afins.

Faturando caminhões de dinheiro de bilheteria, o subgênero extraiu até o bagaço de seus filmes, repetindo à exaustão suas fórmulas continuação após continuação, até praticamente cair no ostracismo. Quando em meados dos anos 90, Wes Craven o reviveu com Pânico, dando início a uma nova enxurrada de slashers 2.0 que seguiu firme e forte até começo dos anos 2000.

Saído novamente de circulação, salvos raros casos esparsos, e dando lugar ao efêmero – e mais violento – movimento death wave, no quesito “matança desenfreada”, os slasher movies, mais de trinta anos depois de seu nascimento, hoje se resumem a homenagens feitas por diretores que cresceram assistindo às fitas oitentistas e paródias aos principais clichês do gênero, aproveitando de elementos mais intrínsecos aos late millennials e a geração Z, principalmente o uso massivo da Internet, smartphones e rede sociais.

Para exemplificar o que estou falando, temos desde a série Scream Queens, até os recentes Terror nos Bastidores, Amizade Desfeita, o direct-to-Netflix A Babá, A Morte te dá Parabéns! e agora, Tragedy Girls, comédia de horror adolescente dirigida por Tyler MacIntyre.

Que diga-se de passagem, não tem medo algum de abusar do throwback e destilar a gigantesca influência dos slasher movies em sua vida de cineasta, e, apontar a ferida – como crítica social rasgadíssima – na futilidade das redes sociais, alienação da juventude, desapego das emoções humanas em tempos líquidos, individualismo e relações efêmeras e o mundo dos digital influencers da Rede Mundial de Computadores, que fazem de tudo para ganhar curtidas, seguidores e inscritos. De cimentar a cabeça dentro de um microondas (???!!!) a… matar pessoas!

Recebidinhos para o Instagram

Tudo isso personificado na pele de duas adolescentes do highschool de uma típica cidadezinha suburbana do meio-oeste americano, Saddie Cunningham e McKayla Hooper – para bom entendedor, meio sobrenome basta – que resolvem se tornar as assassinas em série definitivas em troca de audiência em seu canal do YouTube e número de seguidores no Twitter. Para isso, elas sequestram um maníaco psicopata – vivido por Kevin Durand, de Lost e The Strain – e começam a tocar o terror na cidadezinha, matar gente a torto e a direito – inclusive quem se coloca no seu caminho ou vítimas de intriguinhas particulares bem adoles (desde o ex bombadinho nas redes até a chefe das cheerleaders) – tudo para dar um boost em suas mídias sociais.

No meio disso tudo, MacIntyre não tem vergonha alguma de explorar situações absolutamente ridículas, personagens estereotipados ao limite, clichê atrás de clichê, lances adolescente tipicamente banais e claro, baldes e baldes de sangue escorrendo, com direito a algumas mortes bem brutais e cheio de vísceras jogadas ao chão. E se aproveitar de elementos gráficos em tela como balões de conversas do iMessage ou emojis. Tudo em prol do entretenimento sem pretensões, enchendo a produção de easter eggs a torto e a direito, desde citações a filmes e diretores, até pôsteres espalhados pelo quarto da protagonista.

Tragedy Girls funciona mais como saudosismo para os marmanjos mais velhos – apesar da trivialidade – que para os xóvens, pretenso público alvo e objeto da crítica esculachada. É aquele tipo de filme besta que tira sarro do senso comum dos slasher movies e comédias adolescentes – mesmo que isso não seja a ideia mais original do planeta – e que diabos, em nenhum momento se leva a sério e tem pretensão zero em ser uma revolução no cinema de horror como nós conhecemos.

E na boa, quem chegar a falar que Tragedy Girls é idiota e tosco (e que não se fazem mais slasher, ou filmes de terror em geral igual ~antigamente~) precisa voltar duas casas, porque não captou o espírito.

3,5 webcelebridades para Tragedy Girls

Eles irão rir de você…

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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