Review 2018: #15 – A Maldição da Casa Winchester

Conheça a casa mais mal-assombrada dos Estados Unidos 


A história de Sarah Winchester parece ter saído diretamente de alguma creepypasta. A mulher, que chegou a ser uma das mais ricas do mundo, era herdeira de uma fortuna que hoje seria de meio bilhão de dólares, além de uma porcentagem considerável das ações da Winchester Repeating Arms Company, empresa responsável pela produção das famosas armas de fogo.

Com uma fortuna construída no ramo da violência e do assassinato em massa, Sarah dizia-se amaldiçoada por aqueles que perderam a vida baleados por uma Winchester. Para aplacar o sofrimento causado por sua companhia, ela se dedicou a construir uma casa para os mortos, e assim o fez ao longo de 38 anos.

Ao longo dessas quase quatro décadas, ela mandou construir e reconstruir inúmeros aposentos, corredores e escadarias, que tornaram sua residência uma maravilha arquitetônica incompreensível. Originalmente adquirida ainda em obras e com apenas oito cômodos, a casa chegou a ultrapassar os cem e sua construção e reconstrução era feita 24 horas por dia, sem folga ou descanso.

O elemento sobrenatural por trás das ações de Sarah muito provavelmente eram confinados a sua própria mente depressiva e culposa. Porém essa história pra lá de bizarra é suficiente para inspirar e fundamentar toda sorte de contos assustadores, como é o caso de A Maldição da Casa Winchester, dos irmãos Spierig.

Notável por estrelar a lenda de Hollywood e ganhadora do Oscar, Helen Mirren, em uma época em que raríssimos atores notáveis dedicam-se ao nosso amado gênero, o longa chega carregado de charme vitoriano, no estilo das produções mais recentes da Hammer, como por exemplo A Mulher de Preto, mas com um pouquinho assim de James Wan correndo em suas veias.

Concebida pela dupla de irmãos que nos deu Jogos Mortais: Jigsaw e Canibais, as nuances extranaturais da história de Sarah Winchester ganham contornos fantasmagóricos na presença de Mirren e de Jason Clarke, no papel do médico Eric Price.

Temendo pela sanidade da herdeira e sua construção interminável, os membros da diretoria da companhia solicitam uma avaliação psicológica de emergência com o Doutor Price. Para obter um resultado melhor, o bom doutor hospeda-se na casa interminável. Durante sua breve estada no local, os eventos paranormais aumentam em grau e intensidade, conforme um espírito particularmente mal intencionado se aproxima.

The further… não, pera

A ambientação é particularmente bem trabalhada, com a marcenaria sendo o forte do filme. Não há um momento sequer em que não exista alguém serrando uma tábua de madeira ou batendo um prego. Os fãs de horror que porventura também se enquadram no grupo dos aficionados por construção civil, têm aqui um verdadeiro deleite!

Por quase duas horas, os Spierigs tiveram em mãos uma locação única e cheia de potencial. Infelizmente, optaram por um dispêndio incalculável de tempo com os chamados jumpscares. Aparições repentinas seguidas de sons ensurdecedores compõem o leque de artifícios utilizados pela dupla, incapaz de trabalhar apenas com atmosfera e sugestão.

Não muito tempo atrás, tive o prazer inexorável de ler a graphic novel House of Penance, publicado pela Dark Horse e que reconta a história de Sarah Winchester sob um viés puramente lovecraftiano. Sua loucura adota contornos cósmicos, conforme um mal tentacular se apossa de sua vida. Como esperado, a HQ não dispõe de artifícios sonoros para compor sustos, mas trabalha com o horror por meio da atmosfera, imagens bizarras e personagens perturbados.

A personagem de Helen Mirren parece severamente influenciada pela médium Elise Rainier, interpretada por Lin Shaye na franquia Sobrenatural. Pouco surpreende que o braço direito da mulher inclusive seja interpretado por Angus Sampson, um dos ajudantes de Elise.

Apesar de divertido e visualmente interessante e com boas atuações, especialmente no surtadíssimo terceiro ato, existem certos problemas difíceis de relevar. Vários elementos psicológicos e parapsicológicos como a culpa, o poder do número treze e o conteúdo dos quartos selados, por exemplo, são pouco explorados em prol de uma forma tradicional e pouco original.

Um dos adjetivos mais comuns em minhas descrições sobre filmes de terror contemporâneo é “subaproveitado”. Há um sem número de obras de potencial enorme que ficam reféns de diretores e roteiristas medíocres e pessoas incapazes de se fazer valer de artifícios mais criativos que não os sustos fáceis ou completa ausência de ação. A Maldição da Casa Winchester é um notável merecedor desse adjetivo.

3 balas para A Maldição da Casa Winchester

A Mulher de Preto… não, pera.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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