Review 2018: #16 – Medo Profundo

Survival horror com tubarões há 47 metros de profundidade, e quase dois anos de atraso


Timing é tudo nessa vida, já dizia Clarice Lispector.

Essa organização temporal do movimento para dar a resposta no momento certo, segundo sua significação, definitivamente é algo que a PlayArte não entende, e isso não é de hoje. Quem é mais velho aí se lembra muito bem do quiprocó com relação ao lançamento do remake de O Massacre da Serra Elétrica nos cinemas brasileiros, lá pelos meados da década passada.

Ou mesmo o lançamento de tantos e tantos filmes de terror por aqui depois de meses (ou até anos!) de suas estreias na gringa, um procedimento que parece tão sistemático, que fica até difícil de elencá-los. O caso de Medo Profundo, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, consegue ser quase um tipo de recorde para a distribuidora paulistana, uma vez que o survival horror com tubarões é datado de quase dois anos atrás!

Só para finalizar meu conceito sobre o problema de timing, antes de entrar na seara da produção e numa resenha mais tradicional, Medo Profundo saiu, mas não saiu direito (logo explico), nos EUA, direto para DVD e VOD, em agosto de 2016, dois meses depois de Águas Rasas, aquele outro filme recente com os peixes vorazes, estrelado pela Blake Lively e que fez um relativo sucesso nas telonas. Ao invés de aproveitar o bonde do hype e botar logo a fita na rua, ou no mar, os direitos de Medo Profundo acabaram sendo vendidos para a Entertainment Studios, que cancelou seu lançamento e resolveu colocá-lo nos cinemas, mas, com data só para o verão de 2017.

Até aí, beleza. Só uma errônea estratégia até então. O problema foi que a antiga detentora dos direitos já estava com tudo certo para esse lançamento e chegou a colocar o filme na praça, vendendo as cópias em DVD para o varejo ANTES do novo acordo ser sacramentado, com o nome de “In The Deep“. O que aconteceu foi que rolou um recall do material, mas não antes de algumas peças chegarem às lojas, serem colocados na prateleira e o filme ir parar na Rede Mundial de Computadores. Daí o estrago estava feito. “In the Deep” inclusive se tornou objeto de colecionador vendido no EBay.

A Entertainment Studios rebatizou o filme para “47 Meters Down” – referência a profundidade que a jaula das moçoilas vai parar no fundo do oceano – segurou seu lançamento quase um ano, chegando nas salas de cinema americanas em 16 de agosto de 2017 – tá vendo, não é só a PlayArte que dá uma dessas – torrou uma fortuna em promoção, 30 milhões de doletas, por um filme que bem, tava por aí rodando há um tempo, e faturou só 44 milhões no mercado doméstico.

Olha lá, vamos precisar de um barco maior!

Corta para 2018 e a distribuidora fundada pela Dona Elda mete só agora nos cinemas PT-BR e quer mais um dado interessante sobre o tal timing? Sabe qual era a distribuidora original de Medo Profundo, aquela que cravou o lançamento direct-to-video, chegou a enviar as cópias para as lojas de lá e depois vendeu os direitos? A Dimension Films. E você sabe né, quem são os donos da Dimension Films e da companhia de quais irmãos que ela faz parte, e por conseguinte quem é um dos produtores executivos?

Boa, PlayArte! Momento perfeito para lançar uma produção que tem nos créditos o ilustríssimo HARVEY WEINSTEIN, abusador e top persona non grata de Hollywood – vide a cerimônia da entrega do Oscar no último domingo.

E ainda dá pra piorar… Medo Profundo também é o título de um outro longa já lançado no Brasil, só que de crocodilos, de 2007, produção australiana cujo nome original é “Black Water”. E quer saber qual foi distribuidora? A PLAYARTE!!!! Nem pra dar um PESQUISAR na planilha do excel do próprio catálogo de filmes já lançados?

Ah, sim, o filme, Pior que ele é bem decente, viu? Um baita suspense de sobrevivência, claustrofóbico, tenso e ideal para perder o fôlego (desculpe!), onde duas irmãs em férias no México – sendo que uma delas levou um pé na bunda do namorado, que a considerava entediante – resolvem fazer cage dive numa área infestada de tubarões branco, num barco e com uma tripulação ao melhor estilo “jeitinho latino”, e o cabo da jaula rompe e elas vão parar no fundo do mar, passando todo tipo de perrengue.

Sério, desgraça pouca é bobagem para essas duas, e a falta de sorte de ambas é gritante, as situações dando cada vez mais errado enquanto são cercadas pelos Carcharodon carcharias, começam a ficar sem ar, e não podem voltar nadando para a superfície pois correm o risco de morrer de narcose por nitrogênio e descompressão.

As damas enjauladas

A boa direção de Johannes Roberts vai segurando a onda da escalada de tensão, ferrando Mandy Moore e Claire Holt vez atrás da outra, até um final que até rola um semi plot twist, mas poderia ser ainda mais bad vibes se o diretor tivesse um pouco mais de colhão. E devo acrescentar que os tubarões de CGI são até que bem decentes, viu.

Eu, como fã confesso de produções com o leviatã aquático desde que meti os olhos em Tubarão de Spielberg pela primeira vez na infância e se tornou meu filme preferido de todos os tempos, gostei do entretenimento faceiro e saciou minha gana por esse tipo de eco-horror. Foi exatamente por isso que o assisti há quase dois anos, quando apareceu por aí nessa Internet Terra Sem Lei.

Difícil é agora, pleno março de 2018, um fã do subgênero que pira em tubarões fazendo aquilo que fazem de melhor nas telas, que poderia ser o público que gastaria seu rico dinheirinho em um ingresso, ainda não ter assistido uma parada que até na Netflix estrangeira já está na grade. E depois nego ainda reclama que não vão ao cinema, que não tem público, mas lançando com tanto atraso assim, e em semana pós-Oscar onde vai todo mundo correr pra ver os ganhadores do careca dourado, fica difícil de defender…

Mas, contudo, entretanto e todavia, se você ainda não viu, vale o domingo no cinema com o contatinho 10/10 e ainda comprar aquela pipoca e refrigerante.

3,5 jaulas de mergulho para Medo Profundo

Deep blue sea


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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