Review 2018: #19 – Veronica

A cartilha de horror de James Wan em espanhol


Ocasionalmente, certos filmes alcançam tamanha notoriedade, que passam a ditar a estética de obras que o seguem. No nosso amado gênero, por exemplo, o que dita o estilo visual no cinema mainstream atual é Invocação do Mal, de James Wan. Das paletas de cor até a estrutura narrativa, o cinemão de horror acompanha de perto a cartilha composta por Wan, não apenas nos contos de Ed e Lorraine Warren, mas também nos derivados e outros filmes sobrenaturais do diretor.

Apesar da origem espanhola, Veronica parece bem posicionado dentro desse estilo “Wannístico” predominante. Mesmo assim, o cineasta Paco Plaza é qualificado para imbuir a narrativa de certas peculiaridades que, em determinados pontos, elevam o filme a um patamar bem acima de qualquer Invocação do Mal genérico.

Já há algum tempo tenho pra mim que Paco Plaza é o elo fraco da dupla Plaza-Balagueró, espanhóis marotíssimos que deram a luz ao melhor filme de terror do século. Sim, amigos, estou falando de REC! Concordando ou não com essa afirmação, não há muito o que se discutir sobre a qualidade assustadoramente grande do found footage número um do mundo.

A razão pela qual faço esse julgamento é uma simples observação dos projetos individuais dos dois: destaco apenas Veronica, na filmografia de Paco Plaza, enquanto Balagueró traz no currículo Enquanto Você Dorme, A Sétima Vítima e Terror em Mercy Falls, longas que prezam imensamente por atmosferas particulares e profundamente incômodas. Difícil dizer o mesmo dessa última fita de Plaza, especialmente quando abri o texto citando a proximidade com James Wan.

Para entender um pouco mais dessa semelhança, basta olhar para a família, composta pela adolescente Verônica (Sandra Escaena), duas irmãs e um irmão caçulas, filhos de mãe solteira e que passam a maior parte do tempo sozinhos em casa ou no colégio católico em que estudam. O mal profano se manifesta por meio de um tabuleiro Ouija, e então se apossa do corpo e mente da adolescente.

A menina tem de lidar com um ambiente familiar problemático, responsabilidades além de sua capacidade plena e um sobrenatural dominador e sempre presente, que ela própria associa ao pai ausente. Essa ambientação busca gerar uma verossimilhança capaz de convencer o espectador de aquilo é uma história real.

E bem, Veronica é sim baseado em fatos, desses que nem a polícia conseguiu explicar. Claro que as nuances fantasmagóricas e demoníacas das quais Plaza se vale advém de sua própria mente. Sabe aqueles momentos que citei ali em cima? Pois é, esse aqui é um deles.

As formas sobrenaturais estão, em sua maioria, muito bem delineadas, graças a certas obras, que existem como ponto de referência para subgêneros inteiros. Para exemplificar, tudo aquilo que se espera de uma história de possessão demoníaca está presente, de alguma maneira, em O Exorcista. O diferencial aqui é que o mal, apesar de enraizado no catolicismo, se parece mais com alienígena do que propriamente satânico.

Essas criaturas esguias e escuras que perambulam no campo de visão de Verônica, são mais semelhantes aos ETs de Sinais do que com os fantasmas de Sobrenatural. Isso possibilita uma quebra de expectativa, tornando esses seres assustadores exatamente por se distanciar das regras do gênero.

Independente de minha preferência por Balagueró, Plaza se mostra plenamente capaz, dirigindo algumas cenas bastante interessantes, com composições e ângulos surpreendentes, vide a cena em que Verônica desperta de um pesadelo e se levanta da cama, acompanhada de uma transição genial.

Como esperado de um cineasta europeu, as referências plásticas vão além do horror contemporâneo. O jeito com que Verônica costuma transitar pela casa, semi-acordada, em um estado de pavor, trajando apenas uma camisola, remontam a obra de Dario Argento.

Veronica tem todo o potencial para agradar ao público geral, exatamente por ter um apelo tão comum, oriundo de um mote inspirado no catolicismo e uma trama de núcleo familiar, semelhante ao já consagrado cinema de James Wan, além é claro, da máquina marqueteira da Netflix alardeando que é o filme mais assustador da sua grade. Porém, os momentos de qualidade real são aqueles que se afastam desses elementos tradicionais, enveredando por caminhos particulares que levam a sustos e medos eficientes.

3,5 freiras cegas para Veronica  


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Ana disse:

    O filme tem sim uns bons momentos, principalmente no ato final que é bem dramático mas não é tudo isso não! Acho que é muito alarde para pouco terror. E essa freira? Para mim rolou uma inspiração lá no filme Sentinela dos Malditos que, para mim, vale mais a pena assistir e é bem mais assustador que Verônica.

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