Review 2018: #20 – Muse

Uma ótima e original premissa, mas que não atinge seu potencial


E se as tais musas inspiradoras, que fascinaram e povoaram a efervescente mente de poetas no decorrer dos anos para escreverem suas obras, não fossem apenas míticos objetos de suas imaginações, mas sim, criaturas das trevas que desejam mais do que colocar palavras bonitas no papel, e se alimentam dessa inspiração e manipulam seus autores?

Pois esse é o ponto de partida de Muse, novo filme do diretor catalão Jaume Balagueró, aquele que em dupla com Paco Plaza – do nosso texto Veronica, de ontem – entregou ao mundo a quadrilogia REC, baseado no livro La dama número 13, do escritor espanhol José Carlos Somoza.

Premissa interessante e bastante original, não é? O problema é sua execução…

Não que Muse seja um filme ruim. A coprodução entre Espanha, Irlanda, Bélgica e França se destaca por uma história incomum e diferente dos padrões os quais estamos acostumados no horror americano pasteurizado, e preza por toda uma atmosfera gótica moderna passada na Irlanda, ao melhor estilo cinema europeu, preferindo a construção climática do que o gore e o jumpscare. Mas, infelizmente, ele fica longe de atingir seu potencial.

A fita começa nos apresentando o professor universitário de literatura e escritor, Samuel Solomon (Elliot Cowan), testemunha do suicídio de sua namorada sem nenhum motivo aparente. Um ano após o ocorrido, um bloqueio criativo se instala sobre ele, que deixa de escrever, abandona o ofício de lecionar e não consegue seguir em frente de luto, além de todas as noites ter o mesmo pesadelo sobre uma mulher desconhecida sendo sacrificada em um bizarro ritual.

Até que ele descobre que uma mulher fora de fato assassinada nas mesmas circunstâncias de seus sonhos premonitórios e com a ajuda de sua colega de universidade, Susan Gilard (Franka Potente) resolve investigar. Indo até o local do crime, ele conhece Rachel (a belíssima Ana Ularu) stripper do leste europeu que também tinha o mesmo pesadelo, e lá ambos encontram um artefato misterioso.

Dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador

Pesquisando a fundo a misteriosa situação, ele se depara com um grupo de intelectuais e estudiosos que descobriram o bizarro segredo sobre a existência dessas musas, e que ao total são sete delas (no livro originalmente são treze), cada um com uma espécie de poder oculto, e um por um acabaram mortos em acidentes ou fatalidades. Exceto um deles que forjou sua morte e se pirulitou, que é interpretado pelo eterno Doc Brown, Christopher Lloyd. Enquanto isso, Solomon e Rachel passam a ser perseguidos por essas entidades trevosas e suas vidas estão em perigo.

Bem, o roteiro do filme começa a se perder bastante ao tentar ligar todos esses pontos, nunca dando um contexto geral e deixando essa ideia, das sete musas na real serem criaturas das trevas, bem largada e sem sentido, mesmo cortando na metade a quantidade com relação livro de Somoza. Fica difícil entender cada uma delas, motivações, propósitos e a verdadeira influência maligna durante anos e anos de poesia e literatura, de Dante a Milton.

As personagens mitológicas são desperdiçadas em meio a uma intriga demasiadamente rasa, que se desenrola rápido demais, mesmo que num belíssimo espetáculo de direção contida e fotografia de alto-contraste com um excelente trabalho de luz e sombra, até culminar um manjado plot twist que irá fazer conexão lá com o começo do filme, mesmo que seja um tanto quanto enfadonho e clichê.

Confesso que a expectativa com o desenrolar de Muse foi sendo das maiores, assim como uma interessante experiência e uma ótima história que busca dar uma significação sombria ao processo de criação e inspiração, mas que me lembrou muito o que aconteceu com outra boa obra anterior de Balagueró, A Sétima Vítima, que começa a se perder em suas próprias teorias e tornando-as ineptas e deixa escapar um excelente argumento por pecar na construção do roteiro e seu desenvolvimento.

Ainda assim, vale bem o tempo gasto em frente à tela, e serve como alerta para tomar cuidado com as musas inspiradoras da sua vida. Nunca se sabe suas verdadeiras intenções.

3 poemas bara Muse

Musas trevosas


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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