Review 2018: #22 – Ocupantes

Found Footage de baixíssimo orçamento, mas escrito por roteirista brasileira. Único motivo para assisti-lo!


Sempre louvável ver o trampo de brasileiros se destacando ao redor do mundo. Esse é o caso de Ocupantes, produção americana independente de baixíssimo orçamento, dirigida por Russ Emmanuel e escrito pela Júlia Câmara, diretora e roteirista de Área Q, e quem nos concedeu entrevista exclusiva, por conta da exibição do filme no Rock Horror in Rio Film Festival, no último sábado.

Ocupantes tem sido bem recebido nos festivais onde tem passado – foram 42 prêmios e mais 33 indicações em eventos internacionais. Juro que não sei como… Mas parece um esforço genuíno de todos os envolvidos em tentar realizar um filme, o que sabemos, é de uma dificuldade imensa, ainda mais se for completamente indie, parco de recursos e você tiver uma mixórdia de orçamento.

E é exatamente aqui que a coisa pega.

Vale dizer que o roteiro de Júlia Câmara não é o problema da baixa qualidade de Ocupantes. A ideia da mistura de sci-fi com elementos de horror, misturando teorias sobre universos paralelos, realidades alternativas e doppelganger é bastante interessante, e dá uma pitada diferente de ficção científica para um subgênero combalido e que simplesmente não consegue trazer nada de novo no front, como o found footage.

Na trama, a premiada documentarista Annie Curtis (Briana White) e seu marido, Neil (Michael Pugliese), embarcam no documentário ‘30 Days of Clean Living‘, instalando câmeras por toda a casa para documentar, via Internet, seus novos hábitos alimentares veganos, onde vão deixar de comer tudo que é base animal e comidas industrializadas e processadas.

Ao fazer isso, metade de suas câmeras capturam uma versão paralela deles mesmos – sem nenhuma explicação aparente, o que é um ponto positivo. Mas essa realidade alternativa deles é marcada por uma tragédia pessoal e uma vida completamente triste e desinteressante. Ao continuar obcecados em acompanhar a vida dos dois, e mudando completamente o foco do seu documentário, eles acabam interferindo nessa outra realidade – mesmo que alertados a nunca cruzar essa linha – o que será o motivo para que as coisas comecem a dar ruim, por assim dizer.

Entre um compromisso e outro no Sri-Lanka (??!!!) ajudando o casal a lidar com realidades alternativas

Absolutamente todos os aspectos de Ocupantes é absurdamente amador demais,  da cenografia aos efeitos especiais, e fica difícil de assistir as péssimas atuações do casal de atores e suas contrapartes de outra realidade paralela – onde sempre a transição de uma dimensão a outra é mambembe, assim como seu visual e fotografia apenas com um filtro diferente – num nível dramatúrgico à lá novelas da Rede Record, contando ainda com a vergonhosa participação especial de Robert Picardo de Star Trek: Voyage.

A direção de Emmanuel remete que você está assistindo a um trabalho de colégio. Ou quando você junta os amigos para gravar qualquer coisa, só que com um pouquinho a mais de trabalho de pós produção. Falei dos efeitos especiais lá em cima, que são toscos demais, e acredito que mediante a esse problema de orçamento, poderia ter se pensado em outra solução para não ficar tão ridículo.

Fora isso, segue também a cartilha do found footage de encher linguiça e expor uma rotina demasiadamente desinteressante dos protagonistas e na hora que a coisa poderia realmente pegar para valer, quando a versão alternativa de Annie consegue acesso a nossa dimensão para atacar aos seus voyeurs e o suspense e terror embarcar de vez, que é o que estamos esperando ali durante todo o tempo tentando não desistir do filme, é desenvolvido de forma tão rasa, com uma conclusão medíocre, que só resta o riso involuntário ao terminar, como efeito da experiência de assistir ao filme.

Vale sempre lembrar sempre que não estamos falando de uma produção hollywoodiana ou coisa do tipo, é um longa com um orçamento ridiculamente baixo, mas até aí, sabemos que A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal, duas das principais referências do longa – sendo a última ainda mais evidente – também foram. E em defesa da parte nacional que cabe a esse latifúndio, o roteiro de Júlia em uma produção com um pouco mais de dinheiro e esmero, poderia gerar um resultado muito bom, uma vez que a história e seus conceitos são bem estimulantes, se desenvolvidos de uma forma melhor.

Aliás, é o único motivo para você querer (e conseguir) assistir Ocupantes.

1,5 realidades alternativas para Ocupantes

Que eu tô fazendo assistindo a esse filme?


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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