Review 2018: #27 – Cargo

Lá e de volta outra vez: Bilbo Bolseiro, zumbis e aborígines  


Nos últimos anos tenho sido responsável pela seleção de filmes que compõem o Halloween da escola em que ensino. Costumo selecionar um ou dois longa-metragens de terror família para as crianças e adolescentes e alguns curta-metragens um pouco mais assustadores para os adultos.

Um dos meus preferidos, dentre a os selecionados para os mais velhos, é o curta australiano Cargo, de Yolanda Ramke, que narra a breve jornada de um pai que precisa salvar a filha bebê durante um apocalipse zumbi. Em cerca de sete minutos, Ramke e o parceiro de direção, Ben Howling, entregam um trabalho atmosférico, impactante e com forte poder dramático.

Como manda a tradição atual, curtas de terror que se tornam badalados terão as telonas como destino final. Cargo segue então o mesmo caminho de Mama,  e O Babadook, tornando-se um longa-metragem. Ah, mas com um pequeno detalhe importante, ao invés das telonas, esse daqui veio parar no Netflix, no mesmo barco que O Paradoxo Cloverfield e Aniquilação.

*

Estima-se por aí que uma página de roteiro equivale à um minuto de projeção. Com sete minutos corridos e sem diálogos, chuto que o roteiro do curta original sequer alcançava às sete páginas. Por muito pouco essa transição não foi o mesmo que começar um projeto do zero, inspirado apenas por um argumento simples.

O roteiro escrito por Ramke traz de volta o pai desesperado e solitário perdido em um mundo vazio e desesperançoso. Porém o tempo extra é devidamente preenchido por um universo completamente novo e particular, com implicações muito maiores que aquelas propostas lá no curta de 2013.

Martin Freeman não me pareceu a melhor das escolhas para o papel de pai. Apesar de deveras carismático, falta potência dramática em sua atuação. Há muito pouco de desespero em seu olhar, talvez sempre muito otimista, o que diminui o impacto da situação em que se encontra. O personagem é sempre tão vigoroso e obstinado, que não como há realmente temer pela bebêzinha.

Onde está Gandalf quando mais preciso?

O destino dos dois torna-se ainda menos preocupante com a presença da garota aborígene Thoomi. Mas é aqui, nessa personagem, que curta e longa mais se distanciam, para o bem e para o mal. Esteticamente falando, o longa impressiona pelas imagens de uma Austrália erma, de paisagens belíssimas, intocadas pelo homem e aparentemente intermináveis. Nesse ponto me remeteu bastante aos filmes The Dead e The Dead 2: India, que também exploram zumbis em ambientes desérticos e ermos.

Nesse mundo pós-Romero, é difícil imaginar que novas variações de zumbis ainda possam aparecer. Pois Cargo está aí para provar que é sempre possível inovar, de maneira bem simples. A transformação após a mordida se dá em 48h. Já conscientes do problema e da não existência de uma cura, o governo australiano preparou e distribuiu diversos kits contendo utensílios que possam tornar essa experiência menos sofrida, como um relógio cronômetro, algemas, protetor bucal.

A ideia dos kits é extremamente plausível dentro do contexto apocalíptico e é muitíssimo bem utilizada. Os pormenores da transformação também são explorados, com ênfase em algo que parece uma seiva, ou mel, secretados pelo nariz, olhos e ouvidos dos infectados. Essa secreção resulta em uma aparência bem grotesca e marcante. Os infectados também exibem comportamentos estranhos, como cavar a terra e esconder a cabeça lá dentro. Em dado momento, os personagens se deparam com vários zumbis dispostos enfileirados dentro de um túnel, com a cabeça encostada na parede, processo que um dos vivos descreve como hibernação e necessidade de escuridão.

Curiosamente, quase não há ação zumbi ou mesmo violência, características tão comumente associadas ao subgênero.  Talvez isso se dê pela abordagem espiritual com que a garota aborígene trata os mortos.

Em paralelo aos perrengues desse pai, um grupo de descendentes dos aborígenes retoma as tradições de seu povo como forma de sobreviver ao pós-apocalipse. Com pinturas corporais, vestimentas e rituais, eles abraçam tudo aquilo que um dia precisaram abandonar para sobreviver ao imperialismo e colonialismo britânico. A própria ideia de zumbis escavadores possivelmente remete algo da cultura aborígine, que sempre me pareceu muito conectada à terra e aos aspectos espirituais, assim como os índios das Américas.  

Por mais fascinante que pareça, não existe muita sintonia entre essas duas tramas concomitantes, que se encontram através da figura de Thoomi. Como o foco maior recai sobre o personagem de Freeman, esse outro tema fica relegado ao segundo plano, sempre aquém de seu potencial.

3,5 kits de sobrevivência para Cargo


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: