Review 2018: #28 – Vingança

Rape and revenge à francesa


Já estou careca de escrever aqui no 101HM o quanto o novo cinema extremo francês foi responsável por algum dos melhores filmes do gênero na metade final da década passada e começo dos anos 2010. Apesar do movimento ter perdido a força, vire e mexe surgem algumas novas pérolas mostrando que brutalidade, sangue e exagero, são com os franceses mesmo.

E se há uma única expressão francesa com a qual possa definir Vingança, novo petardo da diretora Coralie Fargeat,  é: UH-LA-LA! Mesdames et messieurs, QUE FILME! E antes de tecer qualquer elogio sobre a película, o que é Matilda Lutz??!!! A sua presença, beleza, força, excesso caricato e seu tour de force de vingança preenchem todos os quadros do filme, e é impossível não cair de quatro de paixão pela moçoila.<3

E aliás, é interessantíssimo o fato de vermos um moderno rape and revenge, subgênero do exploitation popular nos anos de 1970, dirigido por uma mulher, exatamente para subverter, ou melhor, aniquilar, qualquer tipo de fetichismo que esse naipe de produção possa trazer para qualquer cara doente pervertido no planeta. A misoginia dos três marmanjos endinheirados e casados, em um fim de semana de caça no Marrocos, vai para o ralo quando a suposta “sexo frágil” luta por sua sobrevivência com unhas e dentes e coloca seu aparato de vingança para funcionar.

A diferença com relação aos tradicionais rape and revenge, que sempre se valiam do mesmo plot, é que aqui, o exagero impera, além, obviamente, dos litros e litros de sangue derramado, brutalidade gráfica sem tamanho. Há também toda uma camada de humor negro e situações caricatas forçadíssimas, daqueles que o que vale mesmo é apertar fundo o botão da suspensão da descrença, e TUDO BEM, ESSA É A INTENÇÃO, bixo, porque claramente nós vemos que todos os envolvidos estão querendo mesmo sacanear com o bom senso do espectador com situações inverossímeis e exageradas, que você chega a dar risada alto de tamanha paia.

E não é só isso, é também o contraste que dá um filme desses ser bem dirigido PARA O CACETE, e com uma visão pop hypada e artística de Fargeat, que lembra muito os momentos mais inspirados de um Guy Ritchie, ou mesmo Gaspar Noé ou Luc Besson pra ficarmos em exemplos francófilos, só que mais tresloucado. Você fica envolvido visualmente nos menores detalhes da película, do brinco rosa de Jen (a personagem de Matilda) aos close ups, planos e contraplanos, grandes angulares e sequências frenéticas de tirar o fôlego (a perseguição final está entre as coisas mais intensas e brilhantes que vi no cinema nos últimos tempos).

Todo mundo é limpinho no começo dos filmes de terror franceses! Deixa dar meia-hora…

Isso sem contar a fotografia que é ridícula de bela, graças ao olhar de Robrecht Heyvaert e as cores quentes, carregadas, cheias de contraste estourando no ecrã, em suas lentes captando um cenário lindo, mas desolador, do deserto do Marrocos, palco das locações acachapantes de Mad Max: Estrada da Fúria. E completa o trabalho de edição e mixagem de som, perfeitos, e a trilha sonora, que vai da cafonalha ao synth wave puro, e voilá: você tem um filme de estupro e vingança como nunca visto.

E não só pelo diferencial visual, mas nunca aqui o foco é o sofrimento interminável da moça (nada minimamente próximo do mau gosto de Irreversível ou Doce Vingança, por exemplo). Na real o abuso é quase off screen, e não tem a conotação de requintes de crueldade, e sim, de um estupro feito por um sujeito que tem a autoestima mais baixa que sola de sapato de anão perto de um bibelô como Jen, o qual não teria chance em um milhão de anos, mas que por conta de uma dança sensual mal interpretada, tentou justificar, culpando a vítima com o tradicional: “você estava pedindo”.

E ainda mais, é uma sequência de atitude de macho escroto, pois não se trata de um ato coletivo – como de praxe na cartilha do subgênero – mas sim, os amigos do cara, inclusive o ricaço hipócrita o qual Jen era amante, que vive telefonando para a esposa jurando amores, não foram às vias de fato, mas são os tipinhos que acobertam a coisa e passam o pano, tipo o cara que não repreende o brother na mesa do bar quando faz um comentário ou piada machista. A conivência é tão abominável quanto. E detalhe sórdido e brilhante da diretora ter escolhido um ator gato pra caralho, sarado, de dar inveja em nós, pobres mortais, mas que na real, quando aparece sem roupa, é tipo Selton Mello (se é que você me entende…), mostrando aí um detalhe importante de sua fragilidade masculina, que transparece em coisas do tipo: caçar, andar de helicóptero, estupro, ter uma amante e amigos daquele calibre.

Jen por sua vez, sai da postura propositalmente estereotipada de alvo fácil, objeto, sexualizada, burra, interesseira, para passar por um processo à lá Ash Williams, virando o Jiraya e mostrando todos seus recursos e amadurecimento quanto personagem e mulher, saindo do status de caça, para caçadora, partindo para a vingança no sentido mais literal do “sangue nos olhos” possível. E aí meus amigos, o filme vira um frenesi sangrentíssimo (para se ter noção, teve uma hora que ACABOU O SANGUE FALSO DA PRODUÇÃO da quantidade indescritível que foi usada) misturado com situações hilárias e do mais completo absurdo, que confere a Vingança um tom divertido e não apenas, ser pesado e palco de violência desmedida.

O rape and revenge, é um dos subgêneros mais infames, inglórios e controversos do cinema de horror, figurando ali pau a pau com o sexploitation e o women in prison. Mas em Vingança, Fargeat o estiliza ao máximo e o transforma em um exemplar moderno e pop. E, nunca esquecendo, com vísceras e sangue para tudo quanto é lado, mostrando que o new french extremity continua muito bem representado, sim senhora!

4,5 brincos rosa choque de estrela para Vingança

Só observando o quanto o new french extremity é foda!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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