Review 2018: #29 – As Boas Maneiras

Um conto de fadas licantropo que ao mesmo tempo que assombra, encanta


Era uma vez…

Quando Guillermo del Toro encantou a todos com o recente A Forma da Água, o mundo se voltou para um universo que sempre fascinou seus fãs: o fantástico. O modo com que sempre desenvolveu suas criaturas, enchia os olhos do público que o acompanhava, mesmo tendo aversão às suas crias. Sua capacidade de elaborar uma singela simpatia com os monstros é feito para poucos.

As Boas Maneiras, mais recente trabalho da dupla dinâmica Juliana Rojas e Marco Dutra, nosso quinto ESPECIAL Semana do Horror, também consegue transmitir com maestria uma empatia por um dos monstros mais antigos da história do horror: o lobisomem.

Ana (Marjorie Estiano) está em processo seletivo para que encontre uma faz tudo para seu grande duplex, mas que a principal função seja cuidar de seu ainda não nascido filho. Neste processo conhece Clara (Isabéi Zuaa), uma moça séria e soturna, mas que ganha sua confiança e passa a morar com ela, mas que, pouco a pouco, eventos estranhos começam a acontecer a cada noite de lua cheia.

O lobisomem é um dos monstros clássicos da Universal e foi re-imaginado e representado de diversas formas no cinema, e convenhamos que,a maioria segue uma fórmula para chegar ao visual da criatura. Neste petardo do cinema nacional, ele segue uma diferente cartilha para nos apresentar a mistura entre homem e  lobo, o que funciona, ao final das contas, em um resultado muito satisfatório para o público. E sua base para seu desenvolvimento é ainda mais surpreendente: Chapeuzinho Vermelho.

As referências para os contos de fadas não se faz apenas pelas características dos grandes olhos, grande boca e grandes mãos, mas como um todo do começo ao fim. Assistir As Boas Maneiras, desde seus créditos iniciais aos créditos finais, é uma experiência similar ao abrir um daqueles livros antigos, volumosos, com capa dura e toda trabalhada com detalhes em alto relevo que, ao abrir e começar a folhear as páginas, o expectador involuntariamente inicia com o “Era uma vez” para finalizar com um simpático “Fim”.

Ai amiga, vamos fofocar

O legal é que Dutra e Rojas também se importaram em trazer este mito do lobisomem para uma realidade nacional. Desde a história contada por pessoas que vivem no interior com seu sotaque arrastado, passando pela encenação do encontro com a criatura numa pequena cidade, toda enfeitada em época de festa junina regrada de música sertaneja, até a transição para o meio do mato numa noite de lua cheia,par de olhos amarelos e amedrontadores,e armas como revólver brilhante de prata.

A São Paulo criada no longa parece uma pintura, com cores vívidas que enchem os olhos do público. Como de costume, o exímio trabalho técnico que sempre foi presente no trabalho de ambos os diretores aqui se repete, incluindo aí canções originais compostas para o filme que embalam e interpretam o contexto exposto em tela, mais uma vez emanando o espírito da leitura de uma fábula para uma criança.

Marco Dutra disse que seu primeiro contato com o horror foram nos longas metragens da Disney ainda com a supervisão do Sr. Walt, como Dumbo, Bambi e A Branca de Neve e os Sete Anões. Definitivamente aqui ele consegue prestar toda a sua homenagem e influência que obteve pelo fantástico.

Um ponto que surpreendeu bastante foi o gore improvável e inimaginável. Como a dupla é especializada num terror mais psicológico, foi uma grata surpresa. Outra característica presente em As Boas Maneiras é que,inerente aos diretores, são as críticas sociais embutidas no longa. Temas como a segregação, a discriminação racial e julgamento das pessoas, o drama da maternidade solo,e até, e principalmente, a questão de gênero,são abordados de modo sutil mas com um peso enorme a ponto de a sala de cinema sinta-se encucada com tantas informações. É o que deveria acontecer, além de a possibilidade da empatia com o próximo, por mais diferente que seja.

A atuação de definitivamente TODOS os envolvidos no filme são louváveis. Para quem já conhece e está familiarizado com os trabalhos anteriores de Dutra e Rojas, é legal ver que antigos amigos que atuaram com eles desde os primórdios em Trabalhar Cansa, aqui participam de um modo especial. As atuações da Marjorie e Isabéi são impecáveis e nos proporcionam momentos de altíssima tensão ou sensualidade, numa das cenas mais ousadas e quentes do longa! As crianças nos transmitem momentos de alívio cômico e descontração, também nos passam medo através de suas representações.

Assim como Walt Disney em tempos áureos, ou Del Toro mais recentemente, As Boas Maneiras é uma fábula moderna e uma linda fantasia que se faz necessária em tempos difíceis, onde o encanto de um conto encanta ainda é capaz de nos faz sorrir.

Fim

5 luas cheias para As Boas Maneiras

Tomo um banho de luaaa


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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