Review 2018: #31 – A Casa do Medo: Incidente em Ghostland

Reviravoltas ousadas e figuras macabras


A Casa do Medo: Incidente em Ghostland é o novíssimo empreendimento cinematográfico do escritor e diretor francês Pascal Laugier, mais conhecido como a mente doentia por trás de Martyrs, possivelmente o melhor filme de terror do século XXI.

O longa chega após um hiato de oito anos contados a partir de sua estreia hollywoodiana pouco inspirada, com O Homem das Sombras, que não fez jus às expectativas. Isso só mostra como é difícil desassociar as novas obras do cineasta de seu filme seminal. Honestamente, se comparados à Martyrs, pouquíssimos filmes de terror contemporâneos se sairiam bem.

Logo, exigir que a própria filmografia de Laugier alcance, iguale ou ultrapasse o momento máximo de sua carreira me parece um esforço sem sentido. Independente disto, A Casa do Medo permite associações positivas para além de qualquer “não é tão bom quanto…”.  

O filme tem início com uma breve epígrafe exaltando ninguém menos que H.P. Lovecraft, nas palavras de uma adolescente que logo descobrimos ser uma fã de histórias de terror imaginativa e sonhadora, chamada Elizabeth. Beth se dedica a escrever contos macabros e lovecraftianos, o que provoca irritação em sua irmã mais velha, Vera, que não dispõe de nenhum apego pelo sobrenatural.

O desenrolar da trama se dá com a chegada das duas irmãs e sua mãe a um casarão antigo, pertencente a um outro familiar. O lugar por si só já exala bizarrice, graças ao aspecto decrépito e às infindáveis bonecas de porcelana expostas pra todo lado, algo como lar dos sonhos de James Wan, construído por Rob Zombie.

Para o azar das mesmas, a região era território de caça de uma dupla de serial killers conhecidos como “Assassinos de Famílias”, segundo um jornal local. Como esperado, elas então se tornam presa desses degenerados. O resultado do ataque é deveras surpreendente e determinante na psique de cada personagem.

Não é “boneco” é Action Figure

A grande semelhança entre A Casa do Medo e Martyrs reside na relação entre as irmãs, Beth e Vera, pra lá de parecida com o laço entre Ana e Lucie. Elas estão constantemente indo ao socorro da outra, buscando não apenas salvá-las do perigo iminente, como também oferecer conforto nas horas de desespero. Apesar do corpo constantemente ferido de Vera, o horror tem um contorno muito mais psicológico do que corporal, com certos pontos de virada na história sendo extremamente grotescos e incômodos, mas de maneira diferente daquele body horror puro.

A insanidade pode ser apontada como um ponto primordial dentro da narrativa, especialmente considerando a predileção de Beth por Lovecraft. A primeira aparição de um dos assassinos, deveras assustadora, diga-se de passagem, já expõe o nível de loucura dos mesmos. Além da aparência grotesca, é um sujeito com um gosto pouco saudável por bonecas.

Interessante observarmos que as bonecas, apesar de macabras e responsáveis por alguns jumpscares, não são a fonte do terror para as vítimas, mas causam intensa perturbação ao vilão. Assim como as irmãs, as bonecas de porcelana estão sujeitas ao ódio e a violência desse assassino em particular. A outra figura que faz parte desse folie à deux tenebroso tem suas peculiaridades, mas pouco expostas. Vale citar que motivações e explicações ficaram de fora dessa vez. Levando a história para um lado mais fantasioso, é quase como se as duas garotas, no melhor estilo João e Maria, tivessem encontrado uma casa secreta, habitada por uma bruxa e um ogro. 

Talvez a grande falha do filme, que nem é lá tão grande, esteja em sua americanização. Alguns momentos e diálogos indicam claramente uma América sob a perspectiva do diretor francês – não de forma pejorativa, como vocês devem estar pensando. Porém muito da estética de A Casa do Medo remete mais ao cinemão de horror americano que ao cinema francês propriamente dito, tais quais os jumpscares.

As influências de Laugier parecem ir de O Massacre da Serra Elétrica à Rob Zombie e todo autor que já lidou com uma América rural e medonha. Mesmo assim, vários planos sequência e enquadramentos mais elaborados e inusitados apontam para o cinema europeu, expondo as origens do cineasta francês. Fenômeno parecido ocorre com o Veronica, de Jaume Balagueró.

Apesar de estar flutuando por debaixo dos radares, A Casa do Medo: Incidente em Ghostland merece ser conferido. É um filme de terror original e que oferece sabores diversos para aqueles que gostam de serial killers, horror psicológico, Lovecraft, reviravoltas e bonecas macabras, tudo isso com uma pitadinha de cinema de horror francês. E também guarda surpresas e detalhes interessantes para quem quiser assisti-lo novamente.

4 bonecas de porcelana para A Casa do Medo: Incidente em Ghostland

Leatherface fazendo escola

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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