Review 2018: #32 – Hereditário

Sabe aquele papo que é “o novo O Exorcista”? Então…


Eu não sei qual foi a experiência de ter assistido a O Exorcista nos cinemas, quando lançado em 1973, pois bem, eu não era nem nascido. Conheço relatos de gente que jura de pé junto que o pai, mãe ou qualquer outro parente viu a obra-prima de William Friedkin nas telonas e que passou mal, ficou sem dormir, colocou o terço na cabeceira da cama, deixava a bíblia no criado mudo, ficou traumatizado por toda uma vida, e assim por diante. Eu puder conferir a Versão do Diretor quando lançada nos cinemas em 2000, mas nessa altura do campeonato, já tinha assistido trocentas vezes nas reprises da televisão ou locado em VHS.

O gênero quanto experiência na sala de cinema, infelizmente não me atrai. Em quase 100% das vezes, eu assisto aos filmes de terror que chegam ao Brasil nas cabines de imprensa realizadas pelas distribuidoras, que são sessões prévias exclusivas para jornalistas, para que eles possam escrever as críticas, como as que vocês costumam ler aqui. Não me apetece ir às sessões do circuito, porque, bem, digamos que o público médio das salas anda sendo um chute nos fundilhos – para ser polido – ainda mais quando se trata de um filme que precisa de atmosfera, silêncio, escuridão e imersão, como são muitos os casos no horror.

Hereditário eu tive a oportunidade de assistir na pré-estreia feita pela Diamond aqui em São Paulo, em uma sala lotada, porque perdi a cabine por motivos de força maior, e digo que foi a melhor coisa que me aconteceu, apesar dos pesares, pois eu pude, com esses olhos que a terra há de comer, acompanhar a reação de gente tapando o rosto, se encolhendo na cadeira, gritando, dando risada de nervoso e passando mal de medo e aflição DE VERDADE – principalmente no descarrilar que é o terceiro ato.

Então, sabe aquele papo todo, desde que exibido em Sundance, que Hereditário é “o novo O Exorcista“? É a mais pura e assustadora verdade!

C’mon Paimon light my fire!

Todos os superlativos e hipérboles que têm sido usados para descrever o filme (inclusive as minhas) são reais e oficiais. Pode pegar o bonde do hype sem a menor preocupação. Só que a experiência de assistir a esse filme requer estômago, pois ele vai te abraçando na escuridão e te preparando para uma dose cavalar de tensão, perturbação e desgraçamento mental, que vem chegando de fininho e te acerta de jeito avassalador.

A minha reação, gato escaldado que sou, ao acender as luzes da sala, foi tentar recobrar o ar que me faltava, colocar os nervos no lugar e esperar as pernas pararem de tremer para conseguir sair do local, em um misto de choque e empolgação, tentando conceber o que foi aquilo que tinha acabado de acontecer na minha frente nas últimas duas horas.

Hereditário é terror psicológico com T maiúsculo, que te deixa desconfortável do começo ao fim. Toda a fatídica sequência do acidente, por exemplo, é das coisas mais angustiantes já vistas, te deixando tão sem rumo e arruinado quanto os personagens em questão, para fechar com tamanha crueldade desmedida numa das cenas mais dantescas do cinema.

Ari Aster, em seu primeiro longa metragem (já seguindo a tradição de gente como Robert Eggers e David Robert Mitchell) não está nem um pouco preocupado em aliviar a barra e descarrega uma jamanta emocional de drama familiar pungente, diálogos acachapantes e situações sufocantes e tétricas bem na sua cabeça, para causar desconforto a todo momento e preparar o terreno para o terror primal, oculto, numa direção primorosa que apela para uma imagética poderosa, herege, repleta de simbolismo, sem cair no clichê, maniqueísmo e fórmulas prosaicas em momento algum. Vira e mexe brinca com seu subconsciente em seu jogo de luz e sombra, colocando elementos amedrontadores nos cantos escuros da tela e figuras sinistras inexplicáveis a torto e a direito, sem ABSOLUTAMENTE nunca apelar ao jumpscare ou qualquer outro recurso pobreta.

Altas tretas familiares

Como se isso não bastasse, a trilha sonora cabulosa de Colin Stetson vai te envolvendo numa crescente de desespero igualmente assustador e atmosférico, que te deixa sem fôlego, tudo isso embrulhado num pacote vintage que remete não só ao supracitado O Exorcista, mas outros grandes clássicos da conspiração com o Coisa-Ruim, como os cinquentões O Bebê de Rosemary e As Bodas de Satã e A Sentinela dos Malditos.

E claro, impossível não se render a atuação beirando a histeria de Toni Collette, maravilhosa, visceral, encarnando com unhas, dentes, caras, bocas e cabelo desgranhento, o tour de force da personagem amaldiçoada por incontáveis perdas familiares, que aos poucos vai a levando às raias do descompasso, mal ela sabendo que o buraco deixado por sua mãe, que falece logo no começo do filme e é o gatilho para a insanidade que toma conta de cada metragem da película, é muito mais embaixo. LITERALMENTE! E justiça seja feita, devidamente acompanhada pelo restante dos atores que interpreta sua família, que combina a estranheza de Millie Shapiro, a resignação de Gabriel Byrne e a entrega total de Alex Wolff.

Hereditário é um rolo compressor de pavor, uma aula do sinistro, a sublimação do cinema de horror desse novo século. É a êxtase cinematográfica e sinestésica de todo um gênero, capaz de deixar qualquer espectador com os nervos à flor da pele, vontade de dar um grito primal, a cabeça pesando uma tonelada e o coração galopando fora de ritmo no peito. Faz sentir medo até aquele que prefere o mais mainstream dos filmes e reclama nas Redes Sociais das películas mais paradas, psicológicas e atmosféricas.

Por fim, a minha, a sua e a nossa geração, aquela que nasceu depois de 1973, pode bradar que, em nível de experiência quanto filme de terror, finalmente tem “o seu O Exorcista“. Mas pode, acima de tudo, se vangloriar de ter sido testemunha nos cinemas de quanto Hereditário é indubitavelmente, um novo marco para o gênero e uma nova obra-prima.

5 Reis do Inferno para Hereditário

Você conhece meu filho, Cole Sears? Ele também vê gente morte…

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. Renan Soares disse:

    Rindo de nervoso com esse review.. Não por medo ao imaginar, mas por ansiedade de ver logo essa porra aí! A partir de agora eu não leio mais nada sobre. I’M SOLD!

  2. IGUATINA DE MELO COSTA disse:

    Se o hype já estava lá em cima, com essa resenha é obrigação conferir este filme!

  3. paulo disse:

    Mas como eu queria gostar! Não foi o caso e apesar de causar medo, tensão e angústia, as doses foram homeopáticas e nem de de longe se compara a filmes recentes como A BRUXA, CORRENTE DO MAL, AO CAIR DA NOITE ( este sim uma obra prima ) e mesmo A AUTÓPSIA.

  4. paulo disse:

    Escrevi o comentário acima logo após assistir ao filme, mas justiça seja feita: tive pesadelos relacionados com o ritual da vela e acordei mal e passei a manhã inteira com uma sensação de desconforto e com imagens do filme em minha cabeço tempo todo – é isso aí: na hora não surtiu efeito, mas hoje posso afirmar que é um filme extremamente perturbador, com ecos de O BEBÊ DE ROSEMARY e obviamente O EXORCISTA.

    • João Paulo disse:

      Ai meu Deus…quando o filme causa esse cagaço na ressaca do dia seguinte é pq o negócio é tenso. Quero MUITO ver logo!

  5. victor disse:

    “também vê gente morte” ?

  6. Ed disse:

    Tem aquela cena que não sai da minha cabeça até agora!

  7. Pollyanna Agatha disse:

    Que review é esse? Certeza que nao vimos o mesmo filme! Esse filme é uma bosta.

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