Review 2018: #33 – O Culto

2 Filhos de Cthulhu


No ido ano de 2012 encontrei por acaso do destino um filme indie chamado Resolution, escrito por um Justin Benson e dirigido pelo próprio em companhia de seu amigo Aaron Moorhead. A dupla estreante nos agraciou com uma fita sobre amizade verdadeira e bizarrices inenarráveis.

Ali, no início de sua carreira, mostravam voz própria, em um filme visivelmente influenciado pelo gênero sob o qual se formaram. Filhos das locadoras de fitas VHS, os dois traduziram sua paixão para a tela na forma de um monstro que parece capaz de rebobinar a realidade e editar vidas.

Saltaram daí para um outro trabalho igualmente autoral e ainda mais marcante, o horror romântico Primavera, que conseguiu de forma harmoniosa trazer adiante o sufixo “Love”, de Lovecraft.  Uma combinação inusitada e que deu muito certo, alçando os dois como figuras relevantes no cenário de horror norte-americano. No mesmo ano, fizeram parte da antologia V/H/S Viral, terceira e mais fracassada parte da franquia que nasceu na época do movimento mumblegore. Mais uma vez partiram para a misturada, ao colocar skatistas e zumbis-esqueleto que pareciam saídos de A Noite do Terror Cego ou algum outro filme da época.

Após um hiato de quatro anos, retornam com seu trabalho mais grandioso e magnífico até o momento e que inclusive já chegou no nosso quintal, pela Imagem Filmes, com o título O Culto. Estrelado pelos próprios diretores, que dão nomes a si mesmos, o filme acompanha os irmãos Justin e Aaron que, quando jovens, escaparam de uma seita misteriosa da qual faziam parte desde a morte dos pais.

Passados dez anos desde sua fatídica fuga e a repercussão midiática de seus relatos, os dois decidem retornar à sede do culto, preocupados com o bem-estar dos habitantes que lá ficaram, após receberem uma fita em que um dos moradores menciona “o fim”. Justin acredita piamente ter sido vítima de lavagem cerebral nas mãos de uma seita doentia e potencialmente perigosa, que venera uma deidade estranha, ao passo que o irmão, Aaron, acredita cada vez mais que ser controlado por um líder é um pequeno preço a ser pago pela qualidade de vida que poderia obter entre os cultistas.

Quando a segunda lua chegar…

Enfim de volta ao culto, os dois são forçados a encarar verdades que só servem para instaurar novas dúvidas. E então, frente a frente com o sobrenatural, cada um enxergará a situação sob uma perspectiva diferente.

O Culto marca tanto um retorno às suas origens, lá em Resolution, quanto uma evolução profissional.  A amizade verdadeira, cerne de seu debute, dá lugar à uma relação entre irmãos, possível indício da própria evolução no trabalho em conjunto dos dois cineastas inseparáveis. Para além desse campo metafórico, o novo longa também funciona simultaneamente como prequel, sequência, continuação, remake e reimaginação de Resolution, cujo universo eles tanto aproveitavam.

Apesar de ser um filme que se sustenta muito bem por si só, pode ser que algo daquilo que ocorre no terceiro pareça um delírio coletivo dos envolvidos para quem não conhecer esse primeiro trabalho da dupla. Bem, pra ser sincero, O Culto como um todo é pra lá de alucinógeno, com ou sem conhecimento prévio sobre o tema, então isso não deve ser problema.

A influência lovecraftiana se torna ainda mais aberta, com direito à epígrafe logo no início, semelhante ao que ocorre em outro terror notável de 2018, Ghostland. Assim como o francês Pascal Laugier, Benson acrescenta uma dose de humor a essa epígrafe, já deixando claro que influências são parte do processo, mas o trabalho autoral é quem dita o ritmo.

70 com rostinho de 30

Da fotografia em tons sépia aos planos sequência que parecem girar em loop, O Culto é pra lá de incomum. Não há qualquer apego ao horror tradicional e sim uma atenção minimalista na criação do estranho e na exaltação do inexplicável. A princípio é impossível distinguir o que há de diferente se passando por ali. Conforme a verdade é desvelada, o desconhecido mostra-se poderoso, macabro, transcendental e, acima de tudo, metalinguístico.

Assim como em Resolution, a vida dos personagens torna-se refém da vontade de uma entidade que exerce controle sobre registros imagéticos. O próprio celulóide, manipulado na sala de edição e depois controlado e reproduzido em repetição pelo público em seus aparelho VHS (escola onde os diretores se formaram, muito provavelmente), equipara-se à vida dos personagens em cena.

Esse jogo de metalinguagem é extremamente bem elaborado e original, resultando em diversas bizarrices aparentemente sem sentido, como o loop de imagens em um retroprojetor que filma a si mesmo. Tempo e espaço se tornam irrelevantes, quando um espectador pode muito bem apertar o botão rebobinar ou recolocar o disco blu-ray no aparelho, mantendo aqueles personagens sempre com a mesma aparência e idade, revivendo o mesmo momento ad infinitum.

O Culto é engenhoso como pouquíssimos filmes do gênero, ao ponto de quase atingir a ficção científica à la Black Mirror. Quanto mais se afasta do convencional e das fórmulas do horror contemporâneo, mais ele se eleva e menos palatável se torna para o grande público, o que sinceramente considero um ponto positivo. Benson e Moorhead são daquelas figuras cujas carreiras devemos acompanhar bem de perto e esperar muitas coisas boas.

4.5 fitas cassete para O Culto

Enterrei meu coração na curva da estrada


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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