Review 2018: #34 – O Nó do Diabo

Um representativo exemplar da cultura negra em prol do terror


Há pouco, Donald Glover, ou Childish Gambino, chocou o mundo com seu provocativo “This is America”, uma música de protesto, seguida de videoclipe visualmente impactante e cheio de subtextos, contra toda a cultura conservadorista americana e os problemas velados da Terra da Oportunidade e Liberdade. Este choque se fez necessário para demonstrar que as adversidades ainda existem e estão presentes, a todo momento, mesmo na toda poderosa América, e varridas para debaixo do tapete.

Glover conseguiu estilizar uma pesada crítica à tudo e todos em seu país, mas o que talvez mais tenha causado furor nos puritanos de plantão seja que um negro tenha feito este trabalho e jogado a merda no ventilador, dizendo que o racismo existe sim e é influente na sociedade. Neste mesmo contexto, porém travestido de cinema de horror, O Nó do Diabo surge em solo nacional.

Numa inversa ordem cronológica, traçando uma narrativa não linear, começando pelos dias atuais até os séculos passados, o filme narra cinco contos interligados pela casa a qual ocorrem os eventos a serem apresentados. Toda a antologia é protagonizada por negros e suas batalhas e/ou sofrimentos envolvendo a segregação e racismo.

O longa ainda se  passa no interior de Pernambuco. Todos sabemos que a xenofobia toma conta do país, desde piadinhas infames até discurso de ódio contra a população  do eixo Norte/Nordeste, que se aventura pelo Brasil afora em busca de oportunidades.

Em busca do emprego

O Nó do Diabo conta com a direção de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi, que também assinam o roteiro e produção do longa. Este quarteto evidencia o tom independente do filme, mas nem por isso a qualidade técnica fica por baixo. Um gore pontual bem feito é um dos pontos altos da antologia, porém creio que a chave da questão seja os cenários e locações por eles escolhidos.

Como o filme todo se passa praticamente dentro de um pequeno sítio e, uma vez ou outra, se desloca para um local diferente, o esmero pela  técnica e talento dos atores, bem como quando nos transportam para o sertão, cavernas ou alucinações, parece ter sido escolhido a dedo.

É também muito legal ver que as antologias estão ganhando espaço no cenário nacional. O Nó do Diabo conseguiu a proeza – em um momento de discussão muito importante de nossa sociedade ser exibido em cadeia nacional no Projeta às 7, do Cinemark, o que, em tempos de Copa do Mundo, é um golaço do cinema independente nacional.

O filme escancara o preconceito vivido e evidencia que o mesmo está enraizado há séculos, desde os tempos da escravidão, que por si só, é muito mais aterrorizante que a ficção. Além disso, os diretores também abordam temas como o feminismo, empoderamento do negro, a oligarquia, o machismo e a cultura e religião afros.

O estupro já vem de anos

Até para os ignorantes que vomitam que o “racismo não existe no Brasil”  são obrigados a confrontar a verdade e a triste realidade vivida pelos negros diariamente. A desolação ao seu final é inevitável e o gosto amargo na boca tanto quanto no inconsciente faz com que se pense nas atitudes, mínimas que seja, praticadas ou presenciadas por você, apesar da mensagem da força e resiliência negra transmitidas.

Algo bem particular sobre o longa é sua trilha sonora baseada na cultura da umbanda e candomblé. Os tambores se intensificam a cada cena de tensão que acompanha as personagens e o desconforto aumenta quando de repente eles se cessam, dando a vez para que os grilos ou silêncio façam uma sinfonia inquietante.

Creio que para todos os amantes de cinema, ao acompanhar um longa o espectador começa a fazer paralelos e conexões com outros filmes ou arte dos mais variados gêneros ou representações culturais, como teatro ou música. Acompanhando O Nó do Diabo, inevitavelmente lembrei de músicas como “Freedom” de Anthony Hamilton e “Who Did That To You?” de John Legend, coincidentemente partes da trilha sonora de Django Livre de Quentin Tarantino, que também aborda a ascensão do escravo rumo à liberdade. Mas, ao final do filme, a música que me tomou a cabeça e me faz pensar até hoje é a All In a Day’s Work”, do lendário Dr. Dre com seu apadrinhado Anderson. Paak. Para quem conhece (ou não, fica a dica!), ao final se ouve um compasso ritmado da marcha conjunta de correntes e tornozeleiras de ferro batendo umas com as outras, ao lamento daqueles que devem trabalhar mais e mais.

Assim como Corra! esteve para os EUA como protesto e críticas veladas à uma realidade que ainda se faz presente, O Nó do Diabo, dada suas devidas proporções, transporta esta realidade para cá e serve de alerta aos brasileiros que o RACISMO EXISTE SIM, e é um problema estrutural e sistêmico que perdura até hoje.

4 libertações para O Nó do Diabo

Power to the people!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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